Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

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Alguns amigos que não se viam há muito tempo. Uma praia que eles frequentavam quando eram adolescentes. Uma ideia que poderia mudar suas vidas definitivamente. Uma ideia que mudaria suas vidas e que representaria um caminho alternativo para a humanidade.


O e-mail chegou no momento em que a caixa de mensagens estava sendo aberta. Eu percebi que seguiam cópias para os outros três integrantes do nosso grupo de amigos da infância e da adolescência. O assunto da mensagem era “sharmalah” e à primeira vista se parecia muito com um spam qualquer. No corpo da mensagem, objetivamente, dizia “eu já sei para onde vamos... para Sharmalah!”

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Essa mensagem subitamente causava choque. Tanto porque forçava a me dar conta que este último ano havia transcorrido rápido demais quanto porque forçava a me defrontar com uma situação que não acreditava possível. A mensagem tinha sido enviada pelo Bitaco, que um ano antes tinha reunido novamente o nosso grupo e contado algumas histórias que soaram bastante fantásticas.

Havíamos nos encontrado no outono passado na casa de praia de sua avó, onde várias vezes tínhamos veraneado em nossos primeiros anos. As memórias da infância e principalmente da adolescência se cruzavam com as do último outono. A pressão das aulas, a calmaria da praia, as brigas entre os meus pais, as meninas, as namoradas, o futuro. Essa reunião tinha mexido com todos.

Éramos cinco. Eu, sempre tratado por Xã (ou, em uma versão meio onírica, Sean). o Zeca, o Manuca, o Padeguá e o Bitaco. O grupo se formou em algum momento dos anos 70, quando nossas famílias veraneavam (alguns anos, sim, outros não) em Areias Brancas, no litoral norte do Rio Grande do Sul. O ponto de encontro sempre foi a varanda da fabulosa casa da avó do Bitaco.

Tínhamos nos encontrado ali no último outono e combináramos um novo encontro, definitivo, um ano depois. E esse novo encontro deveria ocorrer dali algumas semanas depois da chegada daquele e-mail. Certamente os outros, assim como eu, não acreditavam que fosse possível. Seria então necessário chegar a uma decisão sobre esse assunto. E isso certamente também assustava aos outros.

Tudo começou pouco menos de cinqüenta semanas antes. O engenheiro do grupo ligou certo dia dizendo que queria reunir todos novamente na casa em que veranearam no passado. Ele prometia arrastar todos para lá. Prometia uma notícia bombástica e um convite irrecusável. Já tínhamos motivos para pensar que seria um encontro memorável. Talvez um tanto de barulho em excesso por nada.

Eu sabia que coincidentemente quase todos do grupo tinham casas de veraneio nas proximidades daquela casa e que na verdade apenas o engenheiro tinha seguido uma vida muito diferente e que o levara inclusive a estudar e morar no exterior. Ele trabalhava no programa espacial norte-americano. Na realidade, nos últimos anos ele estava com uma empresa privada de turismo nesse mesmo ramo.

De fato, todos estavam lá naquele dia combinado. O engenheiro, eu, que sou contador, o médico, o sociólogo, o bancário, os dois micro empresários, o outro engenheiro, o arquiteto, o dentista, o economista e o ator. Éramos um grupo grande. Somando esposas e filhos, havia talvez cinquenta pessoas. Éramos originalmente cinco, ainda nos anos 70, mas o grupo foi crescendo.

Durante aquele final de semana ele reuniu apenas alguns de nós em um pequeno grupo e deu a entender que queria nos contar algo importante. Depois ele explicaria que convidara a todos porque queria abrir uma certa janela de oportunidade para que outros não tão próximos pudessem ter chance de participar. Mas sua intenção inicial era mesmo falar com alguns de nós, com os primeiros cinco.

Vocês já sabem que eu trabalho para uma empresa que pretende colocar turistas no espaço, não é? ele começou. Pois eu vou lhes contar o que eu faço, ele continuou, didático, mas como vocês não são cientistas, perguntem o que não entenderem. Eu sou o líder de um grupo que mescla teoria e experimentação, para conseguir algo que pode ser explicado de um modo muito simples.

Ele pegou o jornal que estava sobre a mesa e puxou uma de suas folhas. Segurou duas pontas opostas dessa folha com as duas mãos e voltou a falar. Nós conseguimos neste último verão unir teorias complexas e uma prática excepcional e viajar entre estes dois pontos da folha. E ele levou as duas extremidades a se encontrarem. Nós sabemos qual energia é necessária e como identificar os pontos inicial e final.

Alguns do grupo se olharam deixando transparecer que não entendiam e que na verdade mais parecia estarem ouvindo uma piada. Eu me dei conta mais ou menos o que ele dizia, por sempre assistir seriados de ficção científica. Eu ainda não havia sido confrontado com a ideia de que aquelas maluquices poderiam se tornar realidade e, pior, uma realidade tão próxima dos integrantes daquele grupo.

Imaginem que essa folha de papel represente o espaço-tempo e que essas duas extremidades que estou segurando representem quaisquer dois pontos desse espaço-tempo. Nós de alguns anos para cá aprendemos a calcular especificamente a energia necessária para unir esses dois pontos, aprendemos a identificar esses pontos e aprendemos a calcular uma rota que viabilize essa união.

Neste ponto, ficamos os quatro então estupefatos.

“Mas vocês conseguem unir quaisquer dois pontos?”, perguntou Valdir, o Zeca ( na verdade, José Valdir).

“Teoricamente, sim”, ele respondeu. Na prática, conseguimos unir quaisquer dois pontos com uma sucessão de uniões como essa. Acredito que não exista limite para a distância entre os dois pontos que se pretende unir. Ou que esse limite esteja na tecnologia de navegação. Mas o fato é que já conseguimos fazer. A evolução para algo de fato prático agora será questão de tempo.

“E você disse que consegue unir pontos no espaco-tempo”, disse o Manuca, à guisa de um questionamento.

“Também... teoricamente, sim”, ele respondeu. Ainda não sabemos na prática como navegar na quarta dimensão. Mas como no quesito "distância", deve ser questão de tempo. Mas avançamos na questão mecânica de deslocamento entre dois pontos. Se vocês me perguntarem algo sobre paradoxos eu não vou ter respostas. Eu sou mais um engenheiro que um físico ou mesmo um relativista.

Na verdade, ele disse, à guisa de uma melhor explicação, existem duas maneiras para se viajar no espaço entre dois pontos em velocidades maiores que a velocidade da luz. De fato, a velocidade do objeto nunca é superior e nem mesmo próxima à velocidade da luz. Os ensinamentos de Einstein continutam válidos e é impossível se movimentar a velocidades tão elevadas sem que ocorra, em resumo, uma espécie de transformação de massa em energia. Mas um objeto, movimentando-se de um desses dois modos, se deslocaria entre dois pontos muito distantes a uma velocidade final superior à velocidade da luz.

Em uma dessas maneiras, consumindo uma quantidade de energia muito superior e ainda inalcançável aos nossos meios tecnológicos, é possível se deslocar entre quaisquer dois pontos no espaço-tempo. Nós ainda teremos que evoluir muito em capacidade de navegação entre planetas, entre estrelas e entre galáxias para conseguirmos viajar desse modo a grandes distãncias. Qualquer pequeno erro de cálculo seria suficiente para colocar uma nave espacial, equipada com esse tipo de propulsão, dentro de umm planeta ou de uma estrela, ou nas imediações de um objeto perigoso como um buraco negro.

Na outra dessas duas maneiras, consumindo uma quantidade de energia que está ao alcance dos nossos meios tecnológicos, é possível se deslocar entre pontos determinados, mas não entre quaisquer dois pontos. Um equipamento excita o espaço-tempo em um determinado ponto e essa excitação permite identificar outros pontos ao longo do tecido do espaço-tempo, que podemos caracterizar como pontos equivalentes. Daí uma nave espacial responsável por essa excitação pode identificar um desses pontos, para o qual queira se deslocar, e com outro equipamento rompe o tecido e salta para esse outro ponto.

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Eu segui lendo o e-mail e ele dizia que Sharmalah era um nome que havia sido dado informalmente pelos astrônomos para uma região identificada recentemente na Grande Nuvem de Magalhães que apresenta uma grande probabilidade de apresentar uma quantidade bastante significativa de planetas habitáveis. Uma região ao alcance de alguns saltos. É para Sharmalah que ele quer ir!

CONTINUA...


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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