Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

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Uma solução tecnológica havia sido desenvolvida. O responsável não queria compartilhar e havia chamado amigos para juntos construírem um novo mundo. Mas... por que não compartilhar com toda a humanidade? Por que essa necessidade de restringir seus efeitos?


CONTINUAÇÃO DA PARTE 1.

Cerca de um ano antes, o Bitaco entrou então na parte da conversa que o havia motivado a convidar todos para aquele encontro. "Eu vim aqui para conversar com vocês e convidá-los para construirmos juntos um novo mundo", ele começou. "Como talvez vocês já estejam imaginando, nós dominamos este segundo modo de viajar no espaço-tempo a grandes distâncias."

"Nós não tínhamos imaginado nada", eu disse. "Eu digo isso por mim e aposto que também pelos outros aqui reunidos." O Manuca estava com uma cara de quem tinha entendido menos do que eu. O Padeguá sonhava em ser cineasta e pela sua expressão já estava imaginando alguma cena grandiosa. O Zeca tinha uma obsessão por fazer perguntas mas parecia não saber o que perguntar.

Enfim, ele continuou, nós sabemos como, quando dominarmos tecnologicamente meios para disponibilização de quantidades muito grandes e concentradas de energia, dominarmos também o primeiro modo de deslocamento no espaço-tempo. Este que dominamos já nos permite fazer coisas fabulosas. Quando dominarmos o primeiro, seremos talvez comparáveis aos deuses das antigas mitologias.

Mas essa tecnologia, ele disse, pensativo, titubeante, permitiria que conquistássemos o Universo, que conquistássemos o espaço, sei lá. É o que o Kirk e o Spok faziam em Jornada nas Estrelas, com aquela estória de "sistemas planetários escoando entre seus dedos como se fossem um punhado de areia". Eu nem consigo imaginar como seria o nosso futuro.

Sim, permitiria, ele próprio respondeu. Mas eu acredito que não devemos permitir que isso aconteça com a sociedade como a conhecemos. Eu e vários amigos envolvidos nesse processo pensamos que uma sociedade deve estar preparada para explorar o Universo e espalhar suas sementes pelo Universo.

Como assim?

Vocês não percebem que deveríamos conseguir fazer esse tipo de coisas quando nossa sociedade já estivesse mais amadurecida?

Mas e não podemos amadurecer avançando tecnologicamente?

Acho que vocês não concordam comigo. Ou então não entendem meu ponto de vista. A minha concepção das coisas é que nossa alma não acompanha nossos avanços científicos e tecnológicos. E acho que devemos mudar isso. Eu acho que nós temos uma oportunidade!

A partir daí se iniciou uma espécie de debate aberto...

Simples assim?

E porque deveria ser diferente?

Mas porque você simplesmente não destrói essa tecnologia?

Eu pretendo destruir tudo que permita que ela seja reproduzida. Nós vamos embora e vamos levar ela conosco.

Mas não podemos privar as pessoas disso.

Bem... se vocês não concordam com meus pontos de vista, agora vou dar um nó em vocês. Eu acredito que eu consegui chegar a essa tecnologia por algum motivo maior. Acho que eu, e por extensão também vocês, fomos escolhidos.

Escolhidos para quê?

Nós fomos escolhidos para protagonizar um novo recomeço.

Eu acho que isso é impossível. Não existem relatos de tentativas como essa no passado que tenham encontrado sucesso.

Ora... deixe de ser imbecil! Quando no passado houve circunstâncias como esta?

Sairíamos para nunca mais retornarmos?

Sim, não podemos deixar vestígios e não podemos retornar. Me parece o único modo de termos sucesso nessa empreitada.

Mas e se no futuro um de nós quisesse reencontrar alguma ex namorada?

E por que não a convidaríamos para nos acompanhar?

Quem aliás decidiremos que será convidado?

Quem quisermos. Na verdade, eu acho que deveríamos ter um critério. Mas se começarmos a criar critérios chegaremos facilmente a algum estado civil policial no futuro. Então o melhor é escolhermos ao acaso. Seguindo nossos sentimentos.

“Mas qual o seu objetivo nos convocando aqui e se gabando dessas suas conquistas?”

“Vocês não percebem o que estou lhes trazendo?”

“Olha, podemos imaginar sim tudo que pode surgir disso que você nos traz, mas queremos saber as suas intenções!”

“Objetivamente, vamos escolher um local e viabilizar um novo início.”

“Um novo início? Mas em que termos?”

“Ora... eu sempre me recordo do que discutíamos aqui enquanto estudávamos no segundo grau e na faculdade. Queríamos uma sociedade justa. Uma sociedade completa. Imaginem que vocês que moram aqui pagam impostos para terem saúde pública e precisam assim mesmo pagar planos privados de saúde.”

“Mas uma coisa é você criticar problemas da sociedade e outra bem diferente é sugerir um reinício.”

“Sim. Por exemplo, que sistema de governo você vai sugerir?”

“Eu não vou sugerir nada. Eu apenas estou trazendo os meios. E tenho consciência disso. Por isso, eu chamei vocês. Alguém tem que fazer todo o resto.”

Quantas pessoas você quer levar?

Ainda não sei quantas seriam necessárias. Mas sempre é possível retornar e recrutar novos interessados. Chamar quem seja necessário...

Quando você quer ir?

Penso que podemos partir definitivamente em cinco anos.

Para onde?

Me dêem um ano.

Todos ficamos em silêncio. Estaríamos vencidos?

Temos um contrato?, ele finalmente perguntou.

O Zeca respondeu, antecipando-se, “sim, um contrato”. O Manuca completou com o que parecia óbvio... “quem diria que ainda teríamos um 'contrato em Areias Brancas'!?” Muitas perguntas e dúvidas permaneciam em aberto.

Eu repeti comigo, mas nada falei, “um contrato de areias brancas”. Eu não concordava com aquelas ideias e não via relação entre aqueles absurdos e o que nós vivemos ali tantos anos antes. Aquilo tinha sido um truque muito sujo.

Eu me vi perdido em pensamentos e percebi uma réplica de um Van Gogh na parede e a noite que caía. Eu me sentia um tanto desnorteado por tantas informações que iam além do meu conhecimento e por uma decisão que eu não alcançava.

van-gogh-night.jpg

O Manuca, um tanto isolado, em uma espécie de delírio cinéfilo, falava sozinho. Eu ouvi algo como "essa estória renderia um belo filme". Mais adiante ele sussurrava consigo mesmo uma sugestão de título para o filme... "white sands".

CONTINUA...


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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