Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

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Era uma decisão difícil. Mas na verdade nem tanto. Deixar tudo para trás? Ou ficar talvez mesmo sem motivos para ficar? Talvez não fosse difícil trocar quase nada por algo desconhecido. Ou talvez esse quase nada valesse mais que algo desconhecido. A decisão deveria depender dos motivos corretos.


CONTINUAÇÃO DA PARTE 2.

Aproximadamente cinco anos depois, fui avisado que a última reunião ocorreria naquele mesmo lugar, naquela mesma praia, naquela mesma casa. Eu segui respondendo mensagens e comunicados, mas me tornei distante e me comuniquei cada vez menos com o Zeca, o Manuca, o Padeguá e o Bitaco.

Eles seguiram me avisando de todos os passos do grupo, mas deixaram de me cobrar posicionamentos quando souberam que eu tinha perdido minha mãe para um daqueles casos longos de câncer e, alguns meses depois, a Nena e o pequeno Lucas para um violento acidente na free way, a caminho da praia.

Esse último encontro serviria para iniciarem a execução das atividades que foram planejadas nos anos anteriores, relativos à retirada deles, de suas famílias e de todas as pessoas escolhidas para seguirem para essa nova vida, seja lá onde for, que eles vinham construindo com tanto vigor.

Eu, confesso, não sabia se preferiria não ir por não concordar com o modo intempestivo com que as decisões vinham sendo tomadas. Ou por não querer simplesmente deixar tudo e todos para trás, levando comigo segredos e maravilhas da ciência e da engenharia que deveriam estar ao alcance de todos.

Ou por simplesmente não querer deixar para trás esse mundo onde todos que eu tinha aprendido a amar tinham vivido, onde todos tinham respirado, onde eles todos tinham morrido nesses últimos anos. Eu tinha receio de estar abandonando as lembranças que ainda me restavam deles. Eu tinha receio mesmo que eu parecesse a alguém estar abandonando eles próprios. Ou para mim mesmo.

A minha vida havia sofrido fortes transformações. Eu agora estava sozinho, absolutamente sozinho. Ao mesmo tempo, talvez como reação, talvez como consequência, eu também me tonava cada vez mais recluso. Eu havia comprado um Volkswagen antigo, dos anos 70, meio que como uma resposta a toda essa modernidade galopante. Acho que também como resposta a Areias Brancas.

Os meus dias se sucediam em rotinas infindáveis, que eu havia estabelecido para não ter muito tempo para pensar no que eu poderia fazer ou no que eu gostaria de fazer. Aos sábados pala manhã inevitavelmente eu subia a serra para almoçar em um determinado restaurante em Três Coroas. depois eu seguia para um hotel em Nova Petrópolis. No dia seguinte, preguiçosamente, eu retornava para Porto Alegre e para a rotina de trabalho que se iniciaria na segunda.

Às quintas, eventualmente, senão às terças, um chope com alguns conhecidos. Às quartas, todas as semanas, um churrasco com outros colecionadores de antiguidades automotivas. Às sextas eu sempre tentava ficar em casa, revendo os fatos da semana enquanto duas pedras de gelo derretiam em um copo que nunca ficava cheio com um uísque que eu aprendera a apreciar.

A reunião final ocorreria em um sábado à tarde. Eu já nem me sentia mais parte daquele grupo já que eu não participara durante os anos anteriores do processo de preparação. Eles pretendiam mesmo partir. Eu pretendia denunciá-los. Mas para quem eu os denunciaria? Eu acho que no começo eu acreditava que aquilo tudo era um absurdo. Depois eu pensei que fosse inacreditável. Talvez por nem eu mesmo entender eu tivesse ficado sem ação. Mas tanto anos sem ação?

A minha rotina para os sábados à tarde já estava estabelecida há muito tempo e eu não sentia em mim energias para transgredi-la. A verdade quase infame era quase exatamente essa. Eu me sentia preguiçoso e não queria mesmo sair de minha rotina. Eu não queria me afastar de minha zona de conforto. Eu preferia nas tarde de sábado passar horas em estradas.

Acabei me decidindo por escolher um restaurante no caminho da praia e depois seguir para a tal reunião. As horas de estrada transcorreram até rapidamente demais. Eu esperava que aquele intervalo de tempo fosse distendido, quem sabe para ficar preso justamente ali sem ter que chegar, sem ter mesmo que retornar. Eu me sentia esgotado para ter que responder às demandas que me seriam apresentadas. Eu sentia mesmo antes do momento uma pressão que eu preferiria poder fugir do que enfrentar.

Chegando na praia, ainda rodei meio sem rumo pelas ruas, entre lembranças das férias de infância e a felicidade de sentir mais uma vez aquela umidade no rosto, aquela umidade tão característica de cidades do litoral. Passei em frente a uma casa que havia sido de minha família por muitos anos. também passei em frente à casa de alguns amigos.

Decidi então estacionar o carro nas proximidades de nosso ponto de encontro. Aquilo tudo já me incomodava porque se tornara um suplício. O peso das demandas já se insinuava sobre meus ombros e uma decisão se tornava necessária. Desci do carro, fechei a trava da porta, comecei a caminhar em direção à casa. Uma névoa parecia me acompanhar, turvando minha visão.

Estaquei no meio do caminho finalmente, na calçada, dando-me conta da decisão já tomada. Eu me virei lentamente e fiquei como que a meio caminho do ponto de encontro e do meu carro antigo. Aquele carro, de cor clara, me chamava àquilo que realmente se mostrava importante para mim. Independentemente de crimes que meus amigos estariam cometendo e que eu seria conivente.

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Retomei a caminhada então, agora na direção do meu carro. Já aliviado, já tranquilo, livre da pressão daquilo que eu não queria fazer. Abri a porta, entrei no carro, sentei-me. Tinha esquecido o rádio ligado e a estação sintonizada reproduzia uma música de sucesso de uma cantora falecida anos antes que dizia "no, no, no". Isso mesmo... não, não e não. Independentemente de ciência e de tecnologia, de futuro ou de passado, de alternativas ou de tendências. A decisão seria minha!


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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