Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

a luz interior

O seriado Star Trek foi lançado em 1967 e completa neste ano seus 50 anos. Dele surgiram outros seriados e vários filmes de cinema. O penúltimo episódio da quinta temporada do seriado "The Next Generation", transmitido em maio de 1992, foi considerado um dos melhores dessa franquia.


O tema Star Trek já anda bastante batido... O sexto seriado dessa franquia está sendo apresentado por um canal de TV à cabo e a no cinema houve uma renovação completa e muito bem sucedida que gerou recentemente três novas sequências. A legião de fãs é tão grande que viabiliza mais e mais produções, com audiências televisivas e bilheterias dos cinemas renovados positivamente.

Um tema tão explorado naturalmente levaria a alguns bons momentos. E quem sabe o melhor seja o penúltimo episódio da quinta temporada da série The Next Generation. Nesta série, a segunda, produzida entre 1987 e 1994, o capitão Jean Luc Picard era o comandante da Enterprise, dividindo o comando com o imediato Riker, com o andróide Data e com o klingon Worf. E havia também a conselheira Troi e a doutora Crusher, além de alguns outras personagens eventuais

Em um mundo cerca de trezentos anos no futuro, a fome e a miséria foram "resolvidos", o dinheiro não é mais necessário, os homens exploram o Universo e coordenam a Federação dos Planetas. (Aparentemente, o modelo de governo não é tão democrático assim, mas isso seria tema para outro artigo!) Os klingons, inimigos da tripulação do primeiro seriado, já se tornaram aliados. Os romulanos, os cardacianos e os borgs são os inimigos da vez. Os vulcanos continuam existencialmente azedos. Os homens continuam os mesmos...

As tripulações da Enterprise, e essa em particular, sempre demonstram muita cumplicidade e lealdade. Além de doses intensas de coragem e heroísmo. Desconsiderando o fato dos componentes importantes das tripulações sempre enfrentarem as dificuldades (o que na vida real seria improvável), é certamente o clima de sucesso e a cumplicidade dos tripulantes que mantém o interesse pelo universo criado em torno da Enterprise.

Nesse episódio, The Inner Light , o capitão Picard é hipnotizado por uma sonda espacial de origem desconhecida que cruza o caminho da Enterprise. Nessa hipnose, ele vive a vida de um homem do povo em um planeta desconhecido. Ele é casado, tem filhos, envelhece. Ele vive cerca de cinqüenta anos em cerca de vinte a vinte e cinco minutos.

É claro que nos primeiros momentos ele resiste, tenta localizar a Enterprise, procura pelos computadores que estariam ao alcance de sua voz, mas não encontra ninguém além da mulher que se diz sua esposa. Com o tempo e com a ajuda de um amigo feito nesse planeta estranho, ele aceita a situação e passa a viver a vida que lhe foi imposta, acreditando ser a Enterprise um devaneio.

O episódio mostra cenas de sua vida, o nascimento e o crescimento de seus filhos, a convivência com a comunidade, a morte da esposa, Eline, e a chegada do neto. E mostra seu passatempo: tocar uma flauta típica do local onde se vê obrigado a viver. Paralelamente, os tripulantes da Enterprise tentam removê-lo desse coma induzido, sem sucesso.

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O episódio mostra também que Picard, que tem formação científica, percebe que o planeta onde vive está morrendo. É claro que os motivos expostos, e a forma como esses motivos foram identificados, se mostram infantis até, mas também não se fazem milagres nos quarenta e poucos minutos de um episódio. Interessante observar que seus costumes acabaram impressos em seus filhos. A filha mais velha também demonstra gosto por questões científica e o filho mais jovem quer seguir carreira como músico.

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Aparentemente, a estrela que esse planeta circunda está apresentando um aumento de atividade, emitindo mais energia e sufocando a vida no planeta. A atmosfera está sofrendo super aquecimento. Os habitantes têm dificuldade em enfrentar o excesso de radiação ultravioleta.

E Picard, que nessa vida imaginária (um ponto de semelhança com o filme Matrix, no qual as pessoas vivem uma vida mantida por uma simulação computacional) tem um novo nome, Kamin, tenta ajudar a comunidade, alertando para o fim iminente e dando sugestões por exemplo para uso racional da água e da energia.

Esse mundo existente na hipnose que dominou Picard, que o recebeu como Kamin, seria equivalente à nossa civilização, com aproximadamente o nosso desenvolvimento tecnológico. Esse mundo não domina tecnologias de vôo espacial suficientes para procurar um outro local para viver, em outro sistema solar, mas planeja o lançamento de uma sonda que levará informações sobre sua civilização e seu modo de vida.

E, no momento em que a população se reúne para assistir ao lançamento dessa sonda, a família e os amigos revelam a Kamin que ele já conhecia aquela sonda. Que já haviam se encontrado. Aquela sonda levaria informações que evitariam que eles fossem esquecidos.

Aquela sonda procuraria alguém para mostrar como eles viviam e impedir que eles fossem esquecidos, já que não poderiam se salvar ou serem salvos. Alguém que saberia como viveram, alguém que criasse um vínculo emocional com aquele modo de vida e que fizesse questão de contar como eram e como viviam.

Quando Picard acorda do sono hipnótico, fica feliz em retornar, mas sente saudades do mundo em que viveu uma vida inteira. Ele acorda naturalmente desnorteado, com a sensação de ter vivido cinqüenta anos em outro lugar, com outras pessoas, de um modo mais simples e menos refinado.

Dentro da sonda, após concluído o sequestro hipnótico do comandante, encontram uma lembrança. Uma flauta. A flauta que Picard tocou durante tantos anos em sua vida imaginária. Que Picard, quando recebe, aperta em seu peito. Ele logo começa a tocar essa flauta, precisando relembrar aquilo tudo que ele deixara para trás.

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O episódio termina com os acordes de flauta.

A civilização de Eline e de Kamin não sabia viajar no espaço, mas sabia tudo que era necessário saber para mostrar a Picard como viviam. Um desenvolvimento tecnológico em algumas áreas quem sabe equivalente ao nosso, mas em outras áreas bastante diferente. Souberam estimular em Picard uma ligação afetiva com essa vida imaginária.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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