Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

infinita highway

A viagem de retorno para casa transcorria com muita tranquilidade, quando uma Mercedes cruzou pelo nosso caminho. E depois outra Mercedes, e ainda outra mais adiante. Todas na mesma cor e do mesmo modelo. Estaríamos presos em uma espécie de descontinuidade do espaço-tempo?


Estávamos retornando de alguns dias em Montevidéu pela Ruta 9, numa viagem que estranhamente parecia não ter fim. Talvez porque nós não quiséssemos que tivesse fim. Haviam sido cinco dias realmente ótimos, mas na verdade quatro em Montevidéu. De Porto Alegre a Montevidéu, de carro, somam-se quase doze horas, de modo que é necessário reservar um dia inteiro para a ida e outro para o retorno.

Decidimos ainda em Porto Alegre, antes de vir, desviar durante o retorno em um trecho da Ruta 9 para conhecer a avenida beira mar de Punta Ballena a Punta del Este. Um desvio que somaria poucos quilômetros a mais ao longo percurso de viagem, mas que permitiria conhecer uma região "interessante".

Quando já havíamos efetuado o desvio e já vislumbrávamos as paisagens de Punta Ballena aconteceu pela primeira vez. Uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem exatamente o modelo (era recente e pronto, essas coisas a gente percebe), numa cor "amarelo claro aguado", cruzou pelo nosso veículo.

Sim, não há como comparar... O meu é um modelo Fiat Palio. Parece trazer inscrito em seu chassi que abre caminho para as Mercedes, apenas para perceber os turbilhões na massa de ar provocados pelo seu movimento. O modelo não percebi, fiquei hipnotizado pelas linhas aerodinâmicas e pelo seu fino acabamento.

Maria, ao meu lado, olhava a paisagem. Começava a me apontar uma casa antiga, em tijolos à vista, comum na região. Ou então a calçada à beira mar, ou os barcos ancorados em uma pequena enseada. Ela não vira aquela Mercedes. Eu próprio, em poucos momentos, já não lembrava mais... mas percebi porque era uma Mercedes!

É claro que uma Mercedes, ou um Mercedes, tem seu valor. Mas afinal de contas, é apenas um carro, um automóvel. Talvez um símbolo social, sucesso e tudo mais. Um símbolo de status. Um marco de conquistas. Mas tantas e tão boas outras coisas há na vida... eu nunca havia prestado atenção em automóveis, mas aquelas linhas...

O desvio da Ruta 9 mostrava-se muito interessante. Já chegávamos próximo de Punta del Este. Eu conduzia o carro em baixa velocidade. Um colega de trabalho sempre comenta sobre os prazeres de viagens de carro em baixa velocidade. As praias, as casas, a calçada, a paisagem. Tudo encantava, pela beleza e pela elegância.

Então aconteceu... um Mercedes (ou uma Mercedes!) dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo. Eu tive uma sensação daquelas... como é mesmo? Um dejà vu. Olhei para o lado e Maria mirava o mar. Ela não havia percebido.

Continuamos... baixa velocidade, casas, a praia, o mar. Maria contou-me algo sobre quando sua família passou um verão em Punta Ballena, ali bem perto. Passaram ela, os pais e os irmãos, cerca de um mês em uma casa de um colega de seu pai. Haviam alugado uma casa muito boa, com três quartos e dois banheiros.

E mais uma vez. Uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo. O número da placa me pareceu conhecido. Algo como SAV 0143. Um dejà vu? Talvez todas as Mercedes produzidas com esse tom de amarelo estavam no Uruguai.

E aconteceu então que outra Mercedes, dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo mais uma vez. Aí ela percebeu que essas passagens se repetiam... “O que é que está acontecendo? Essa Mercedes já não tinha passado por nós?”

Sim, eu respondi. Na verdade, acho que você não percebeu, já fomos ultrapassados por Mercedes várias vezes nesses últimos quilômetros. E todos com essa mesma cor amarela aguada e, eu acredito, do mesmo modelo. Que corzinha feia, hein?, ela comentou. Rimos juntos. Temos que conferir letras e números das placas.

E então uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, insisto, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo. Está acontecendo de novo, ela disse. Eu ri mais uma vez, pelo tom espetacular e surrealista de tudo que estava acontecendo. O que poderia estar acontecendo?

Eu acho que nós estamos presos em algum tipo de lapso de tempo em que tudo se repete, indefinidamente, ela tentou teorizar. Um filme, há um tempo atrás, contava a estória de um homem que acordava todos os dias no mesmo dia, e assistia todos os acontecimentos do dia se repetirem. Algo como uma descontinuidade do espaço-tempo.

Pode ser, mas essas coisas só acontecem na ficção, em livros e em filmes de cinema, eu disse, tentando acalmá-la. Como é que você pode dizer isso?, ela perguntou. Você que tanto gosta de filmes de ficção científica, de jornada nas estrelas, de guerreiros imortais, essas coisas, eu retruquei. É impossível!

Essas coisas todas são escritas para nos divertir, eu continuei. Nós assistimos esses filmes, ou lemos livros, e pensamos sobre o que eles trazem de novo, sobre o que eles questionam ou sobre o que eles tentam construir. Mas tudo aquilo é ficção, ou pelo menos imaginamos que seja, eu disse, percebendo que já não me sentia tão convicto em relação ao que estava dizendo.

Mais adiante o tom dessa conversa foi amenizado quando nos distraímos com os detalhes do prédio de um cassino. E quando estávamos distraídos, adivinhem, uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, eu insisto mais uma vez, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo.

Nós nos perguntamos “o que está acontecendo?” Perguntávamos um ao outro e para nós mesmos o que em tudo ao nosso redor nos parecia estranho. E mais um pouco nem nos perguntávamos com palavras mas nos olhávamos e em nossos olhares haviam apenas perguntas. O que poderia estar acontecendo?

Foi quando ainda outra Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, insisto, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo. A placa era outra, era de Maldonado. Inclusive comentamos como as placas no Uruguai podiam ser diferentes de um Departamento para outro. Enfim...

Os Departamentos no Uruguai são como os Estados no Brasil, mas com dimensões um pouco maiores que a média dos municípios. Até porque o próprio Uruguai tem dimensões de um Estado brasileiro. Como na verdade foi, no passado, no século dezenove, a Província Cisplatina, do Império do Brasil.

Outra Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo porque nada havia escrito na traseira do automóvel, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo. E como que para troçar de nós uma outra Mercedes passou por nós logo depois do anterior. E ainda mais uma, acelerando... devia estar atrasada!

A sensação de confusão pareceu retornar, mas também sentíamos como se tudo fosse confuso já há muito tempo. Eu continuava trafegando a baixa velocidade. Antes o fazia para aproveitarmos o passeio, agora por simples confusão. Talvez por simplesmente não saber para onde ir ou o que fazer. O que estava acontecendo?

Acho que podemos mesmo estar perdidos em algum lapso de tempo, disse Maria. Isso sempre aparece em filmes de cinema, ela continuou. Alguma coisa de verdade pode mesmo existir nisso tudo. Será que quem escrevia os episódios daquele seriado antigo que você falou não poderia ter se baseado em estórias contadas por pessoas que vivenciaram situações como esta? O que, afinal, está acontecendo?

Eu achei incrível ela me dizer isso. É absurdo. Ela se referia ao seriado idealizado por Rod Serling nos anos 60, The Twilight Zone, em que cada episódio era um conto fantástico, de terror ou de ficção científica. Mas talvez fosse a única coisa que fizesse sentido em tudo aquilo. Eu me perguntava agora se sobreviveríamos, a exemplo daqueles que possivelmente tenham contado suas estórias para o senhor Serling. Eu continuava conduzindo o carro a baixa velocidade.

Eu comentei que um episódio muito interessante do seriado “a nova geração”, continuação de “Jornada nas Estrelas”, relatava uma situação em que a tripulação ficava presa acidentalmente em um lapso de tempo, que sempre terminava com a destruição da Enterprise. Um dos comandantes havia entendido o que os prendia e enviava mensagens para si próprio no futuro, nas intermináveis repetições dos fatos, para que uma decisão acertada fosse tomada e finalmente os tirasse do lapso. O comandante, depois de muitas repetições, finalmente entendia as mensagens e os retirava do lapso de tempo.

Acho que se você parasse o carro talvez nós conseguíssemos sair desse lapso, ela arriscou uma teoria. Você acha mesmo?, eu perguntei, nitidamente incrédulo, mas na verdade já dando o braço a torcer. Tudo naquilo já soava impossível, a própria situação e inclusive a própria saída sugerida por ela.

Foi quando mais uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, eu volto a insistir, na cor amarelo claro aguado, apareceu no espelho retrovisor. Nossos olhos se cruzaram, mais por eu ter estampado um horror inominável em meu rosto, e eu disse a ela o que aparecia no espelho.

road-near-beaches.jpg

Ela olhou para trás e então percebemos que o automóvel tinha filmes de absorção da luz no pára brisas e nas vidraças laterais e traseira, impedindo que víssemos quem eram os passageiros. Nós estávamos trafegando lentamente e a Mercedes aproximou-se a uma velocidade um pouco maior e logo nos deixou para trás.

Nós continuávamos trafegando em baixa velocidade. A Mercedes passou por nós. Nada conseguimos ver dentro dela.

Mas por que não conseguimos sair disso que nos prende?, perguntei. Nós nem prestávamos mais atenção na paisagem ou nas casas.

Acho que não estamos presos. Eu digo nossas consciências.

Você acha que nossas conversas se repetem?

Será que é apenas nosso carro que está preso? Talvez.

O que pode estar acontecendo que atrapalha nossas idéias ou que nos impede de ver o que realmente está acontecendo?

E, então, uma Mercedes dos modelos mais recentes, não me perguntem o modelo, na cor amarelo claro aguado, cruzou pelo nosso veículo.

Escute aqui... ainda há pouco eu sugeri que parássemos. Isso poderia nos livrar. Por que você não parou essa droga de carro?

Mas nós continuamos conversando. Nós nos distraímos da paisagem. Por isso eu não parei o carro. Eu sei lá...

Bem, se não pararmos, quem sabe tudo isso acaba quando o combustível no tanque do automóvel chegar ao fim.

E mais uma Mercedes cruzou pelo nosso carro, exatamente igual às anteriores, mesma cor, mesmo modelo, mesma velocidade. Eu já tratava o automóvel como o Mercedes e como a Mercedes. Já não distinguia o gênero, talvez pelo momento, quem sabe pelo masculino e pelo feminino representarem coisas diferentes.

Mais alguns minutos e estávamos acalmados. Maria logo abriu um pacote de bolachas, dizendo que se não nos alimentássemos não conseguiríamos prosseguir em nossa viagem. Dali a pouco voltamos a prestar atenção nas casas, na praia e nas pessoas. Logo terminamos o desvio e continuamos nossa viagem para casa. É como se tivéssemos saído de um transe. É como se o lanche que fizemos nos tivesse tirado do pequeno lapso de tempo em que estivemos retidos por algum tempo. Chegamos bem em Porto Alegre e nossas vidas continuaram.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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