Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

o matador de dragões na emergência para queimados

Aqueles últimos dias haviam sido particularmente difíceis. A sexta à noite trouxera um desses eventos climatológicos que fazem os especialistas discutirem por uma denominação mais adequada. Esse 'tornado' ou seja-lá-o-que-for devastou completamente a cidade. Um rapaz chamado Marco encontrou forças para liderar uma primeira reação ao desastre.


Naquela sexta, ele havia se liberado dos compromissos de trabalho mais cedo que o usual e estava retornando para casa. Na estrada, a paisagem ampla já permitia antever o cataclisma que se abateria sobre a região. Nuvens densas, escuras, profundas, que pareciam muito altas e ao mesmo tempo excessivamente baixas quase tocando o solo. Nuvens com gomos que pareciam ser sólidos, escuros, profundos, como uma massa que se expandia pretendendo engolir tudo que encontrasse à sua frente.

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Uma imagem que não sairia de sua cabeça. Cruzando o caminho até em casa, pela estrada que percorria todos os dias ao longo dos últimos anos, viu nesse prenúncio de fim do mundo uma cena de uma árvore com galhos amplos espalhados em todas as direções sobre um fundo tormentoso que ficou impresso em sua memória. Um raio ao longo percorreu seu caminho de cima para baixo e sua luz contra um fundo escuro se propagou adiante de seus limites. Em sua memória, esse raio se misturava com os galhos, se cruzavam, se abraçavam.

Pouco depois do anoitecer, alguns diriam que os céus se projetaram sobre o solo, tamanha a força com que os elementos se fizeram presentes naquela região. A chuva veio intensa, com grande quantidade de precipitação, com um volume excepcionalmente grande de água. No dia seguinte, os noticiários anunciavam que chovera mais do que a média mensal em algumas poucas horas. Um resultados de massas de ar com diferentes temperaturas que se misturaram rapidamente e que tiveram sua umidade rapidamente transformada em água líquida.

Rajadas de vento muito intensas levantavam telhados, arrancavam janelas e paredes inteiras, empurravam pessoas e carros. As ruas logo foram ocupadas por fortes correntes de água que cobriam carros e engoliam pessoas e pequenos animais. Telhas arrancadas de casas da região caiam sobre o solo. Chapas metálicas de pavilhões industriais voavam livres ao sabor dos ventos. Carros se empurravam flutuando nas águas que ocupavam espaços antes não ocupados. Casas eram arrancadas e empurradas sobre as casas vizinhas.

O tempo se acalmou um pouco quando a madrugada já se encaminhava para o alvorecer. Um rastro de destruição mostrava casas transformadas em escombros, carros destruídos, corpos eventualmente entre o que se espalhava pelo solo. Além disso, não havia energia elétrica nem fornecimento de água. Algumas pessoas já caminhavam olhando um tanto incrédulas a uma paisagem que mais parecia ter saído de algum filme sensacionalista ou mesmo parecia ter sido resultado de intensos bombardeios aéreos.

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Ele não conseguira dormir durante a madrugada. Sua casa havia sido das poucas que permaneceram íntegras após a tempestade, mas ele saíra às ruas e retornara várias vezes, observando o que acontecia e eventualmente ajudando pessoas que estivessem procurando ajuda. Ele e sua esposa até mesmo albergaram algumas pessoas em casa, durante o período em que os ventos sopraram com mais intensidade. Com o raiar do dia, seu lugar seria na rua, ajudando as pessoas, concentrando os esforços, liderando os sobreviventes.

Todos o conheciam como Marco e ele de fato logo assumiu a liderança natural dos trabalhos. Pediu lonas e telhas para cobrir as casas destelhadas e para iniciar os consertos nas menos atingidas. Atendeu as pessoas que precisavam de pouco mais que uma palavra de apoio. Respondeu aos questionamentos de repórteres e explicou, até onde ele tinha informações, sobre a extensão dos estragos. Organizou a divisão de mantimentos doados e de materiais de construção entre os mais necessitados.

Nos dias seguintes, o panorama de tragédia continuava instalado na região porque o fornecimento de energia elétrica não havia sido completamente restabelecido e o fornecimento de água seguia inexistente. Marco esteve em famoso programa de TV comentando sobre as dificuldades e solicitando que as autoridades fizessem sua parte o mais rapidamente possível. As estimativas indicavam um total de 200.000 pessoas ainda sem energia elétrica, mesmo tendo transcorrido mais de três dias após a trágica tempestade.

Algumas pessoas já sugeriam seu nome nem como vereador, mas como deputado estadual. Alguns falavam mesmo em uma candidatura ao Senado. Ele ainda estava sem energia elétrica em casa e não assistia TV, mas sua mãe havia comentado que vira seu nome sendo comentado pelos apresentadores de noticiários. Falavam que os corruptos seguiam respondendo processos por corrupção e desvios de recursos mas que as condenações não vinham ou não eram cumpridas à risca. E o país seguia carente de novas e comprometidas lideranças.

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No sexto dia após a tempestade, quando o fornecimento de energia elétrica finalmente fora restabelecido, ele estava reunido com amigos que dividiram os encargos de organizar a reação. Era um grupo de cerca de dez pessoas. Todos traziam suas opiniões, mas a posição de liderança de Marco era quase inquestionável. uma liderança natural e transparente. Quando um homem chegou educadamente com um pacote na mão e perguntando pelo "sr. Marco". Quando o encontrou, disparou três tiros.

Era um homem baixinho e troncudo. Ele trazia um pacote na mão e o apontava na direção de Marco. Foi tudo muito rápido, mas os que estavam ali relataram que provavelmente havia uma pistola dentro da caixa. Disseram que os tiros saíram de dentro daquela caixa. Nada foi encontrado, nem cartuchos nem a própria arma. O atirador correu até sua motocicleta e fugiu. Disseram depois que todos haviam ficado tão chocados, que o homem teve tempo de subir calmamente em sua moto, acionar o motor e fugir em alta velocidade.

Horas depois surgiram testemunhas dizendo que tinham visto um motoqueiro em postura suspeita procurando por quem aceitasse doações para a comunidade. Esse suspeito seria posteriormente identificado como o autor dos disparos. O assassino tinha na moto, colado no tanque de combustível, um desses adesivos com um dragão dentro de um círculo, rodeado por chamas. Escrito em torno desse adesivo, em um manuscrito muito rústico lembrando ideogramas japoneses, havia letras dizendo "dragon killer".


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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