Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

o vaso e o caminho

Em Matrix, sucesso do cinema, o "pretenso escolhido" Neo tem uma experiência transcedental quando é levado a conversar com a Oráculo. Nesse encontro, entre o que é dito e o que é entendido, Neo é confrontado com um destino que ele em parte não acredita e que em parte não quer assumir.


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Vamos recordar duas cenas do filme Matrix. Dessas cenas, a primeira faz parte do encontro de Neo com a Oráculo, quando esta lhe diz para que não se preocupe com o vaso. Neo, desconcertado, se move perguntando qual vaso, e esbarra com o braço derrubando um vaso que estava colocado sobre um balcão. Em seguida, a Oráculo comenta: “o que vai mexer com você é o seguinte: você teria derrubado o vaso se eu não tivesse avisado?”

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Nada mais certo! Por mais que acreditemos que tomamos todas as decisões em nossas vidas, e o próprio Neo julga ter controle sobre seu destino, os acontecimentos, os menores e mesmo os maiores, são em grande parte definidos pelo que nos é dito ou pelo que nos é apresentado. Quantas pessoas passam anos de suas vidas lutando contra um destino que se mostra inevitável e que existe pelo que se ouviu do pai, da mãe, da esposa ou do marido, da namorada ou do namorado ou de um chefe no trabalho.

E quantas pessoas são imensamente (e mesmo indesejavelmente) suscetíveis a comentários do tipo: “você acha que ele seria mesmo capaz de lhe afrontar?!” ou “você já imaginou o que diriam de você se tivermos sucesso?!”

A segunda cena é a que vem em seguida ao impacto de um helicóptero pilotado por Trinity contra a fachada de um prédio. (Aliás, um marco em efeitos especiais no cinema.) O helicóptero havia sido utilizado para resgatar Morpheus das mãos dos agentes chefiados por Smith. Neo puxa Trinity, que está pendurada em um cabo depois de ter sido resgatada do helicóptero em um lance proporcionado por uma ação muito rápida de ambos.

Quando Trinity finalmente é resgatada e está na cobertura de um prédio com Neo e Morpheus, este se aproxima e comenta “Você acredita agora, Trinity?” (dando a entender que Neo era realmente o Escolhido). Neo se antecipa e diz “Morpheus, o Oráculo disse que eu não sou o Escolhido!” E Morpheus responde “o Oráculo disse exatamente o que você precisava ouvir, Neo!” E complementa com “conhecer o caminho é diferente de trilhar o caminho”.

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A Oráculo na verdade disse a Neo que ele tinha o dom mas que parecia esperar alguma coisa, “quem sabe a próxima encarnação”. E disse apenas indiretamente que ele não era o Escolhido, concordando com uma afirmação do próprio Neo, tentando não parecer ridículo por seguir as idéias de alguém, Morpheus, que acredita cegamente em alguma coisa que parece não ter sentido.

A Oráculo, citando o vaso, afirmou que definiria o futuro de Neo, e pela inserção deste na estória, afirmou que definiria o próprio destino da humanidade. E o que disse depois ressonava com a personalidade de Neo, uma personalidade com baixa auto estima mas com grande capacidade de realização. Morpheus depois confirmou que o que havia sido ouvido era o que se mostrava necessário ouvir para trilhar o caminho que deveria ser trilhado por alguém predestinado. Um caminho no qual as limitações devem ser superadas e as habilidades devem ser exploradas.

Essas situações levam a reflexões sobre destino. E também sobre fatos que podem definir o destino... e sobre coincidências... Haveria realmente algo como um destino já estabelecido? Haveriam destinos privilegiados? Por que alguns seriam predestinados? O que seria essa predestinação? E predestinação para quê? para qual tipo de atividade ou função?

Ao que tudo indica Morpheus e Trinity também tiveram seus destinos definidos pelo que foi dito pela Oráculo. Morpheus pareceu estar condenado a acreditar nas profecias sobre o fim da guerra entre homens e máquinas, e que esse final estaria ligado ao predestinado. Trinity pareceu ser um guia para Morpheus, já que sabia que se apaixonaria pelo Escolhido.

Essa coisa de predestinação parece levar à discriminação. Por que raios alguns devem ser melhores que outros? Ou por que alguns devem ser predestinados enquanto a outros nada parece estar reservado? Por que alguns são escolhidos enquanto outros são esquecidos?

Bem... se pensarmos que cada um pode ter um papel numa trajetória comum em que a comunidade ao final sai ganhando, então a ideia de predestinação soa melhor. Cada um estaria predestinado a cumprir seu papel. E quem sabe daí poderíamos aceitar um escolhido, para alguma tarefa especial, alguma tarefa que poderia exigir um grande sacrifício pessoal.

E se pensarmos que palavras certas em momentos certos podem mudar destinos, concluiríamos que algumas pessoas em alguns momentos da História quem sabe tenham conquistado influência ou poder excessivo. (O que sem dúvida não deixa de ser responsabilidade dos que ouviam.) Por outro lado... se pensarmos que as pessoas são diferentes, algumas mais impetuosas que outras, algumas mais espirituosas que outras, algumas mais interessadas que outras, algumas mais preocupadas que outras, algumas mais cigarras e outras mais formigas, então fica mais fácil mesmo aceitar que alguns estão condenados a iluminar enquanto outros devem ser iluminados.

O engraçado é que o segundo e o terceiro filmes jogam as interpretações épicas ao espaço, dando a entender que Neo foi o escolhido não para ser um herói, mas simplesmente para concentrar todos os motivos pelos quais Matrix poderia falhar. E justamente por isso ele seria a causa do sucesso de Matrix.

Na verdade, as continuações não jogam ao espaço as "interpretações épicas". É como se simplesmente prosseguissem com a discussão sobre porque alguns podem ou devem ser escolhidos e outros não. na verdade, ainda, a configuração de um caminho é algo que se apresenta para todos.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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