Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

leis da física - primeira parte

Algumas pessoas estavam nitidamente incomodadas como o modo como as coisas estavam acontecendo, sem entender os fatos, por mais simples que poderiam ser, mesmo sem parecer simples. Outros simplesmente repetiam aquilo que estavam sendo pagas para fazer, sem questionar.


Uma pequena pausa nos textos de costume... Abre a cortina. O palco está nitidamente dividido em duas partes: uma à direita e outra à esquerda do público. À direita, uma tela de projeção branca fosca e um projetor parecem esperar por alguma coisa. À esquerda, quatro ou cinco (não seriam seis?) pessoas do povo gesticulam e falam baixinho, discutindo algum assunto.

Então entra pela esquerda um apresentador de programa jornalístico de TV, vestido impecavelmente com um terno azul escuro e um sapato preto reluzente, muito bem escanhoado e penteado, caminhando calmamente. Ele passa pela frente das pessoas do povo que conversavam agitadamente e toma posição levemente à direita da tela de projeção.

O apresentador de TV passa a mão pelo cabelo, pelo abdômen, assume "posição de sentido", conferindo se tudo está bem, olha para a frente, levemente para cima, como que aprovando e permitindo o início das atividades, e o projetor começa a funcionar (acionado por controle remoto pelo pessoal dos bastidores).

APRESENTADOR DE TV (ABRINDO UM SORRISO ARTIFICIAL): Uma ginasta brasileira conquistou esta semana um feito inédito, uma medalha de ouro no campeonato mundial de ginástica olímpica.

Na tela de projeção, imagens da ginasta em quadra desempenhando manobras inovadoras, que lhe valeram uma medalha de ouro, seguidas de cenas dela comemorando a conquista e ligando para casa.

APRESENTADOR (CONTINUA): Ela desenvolveu uma manobra inovadora, com um duplo giro mortal, de costas, depois de um giro simultâneo em torno da cintura e da coluna. Ela desafiou as leis da física!

Na tela de projeção, agora, um modelo computadorizado da ginasta reproduz em câmera lenta os movimentos da ginasta, com setas indicando as várias fases do movimento que lhe rendeu a medalha de ouro.

As quatro ou cinco pessoas que discutiam algum assunto passaram a prestar atenção no apresentador quando ele abriu o sorriso e o projetor começou a operar. Elas deram um passo à frente.

UMA MULHER DO POVO: Desafiou as leis da física? Que coisa espetacular...

UM HOMEM DO POVO: É, sempre dizem que as leis estão aí para serem desafiadas...

O apresentador de TV continua falando, agora sobre outras notícias. O projetor continua iluminando a tela com imagens correspondentes ao que está sendo dito. O apresentador de TV agora fala baixinho, enquanto as cinco pessoas do povo continuam discutindo.

OUTRA MULHER DO POVO (APARENTEMENTE A ESPOSA DO HOMEM QUE HAVIA FALADO): É 'desobedecidas', animal. As leis estão aí mesmo é para serem desobedecidas... DE-SO-BE-DE-CI-DAS!

UM MENINO: Mas quem desafia as leis não as desobedece? Ou se as desobedecemos não as estamos desafiando?

A OUTRA MULHER: Cala essa boca de merda, menino. Você só diz coisas erradas. E depois quer ir sozinho até a escola.

O menino se encolhe.

UM OUTRO HOMEM: Ora, vamos nos tratar melhor. É por nos tratarmos assim, desse jeito desleixado, que esse apresentador fica dizendo essas coisas com esse ar de superioridade.

O menino faz que sim com a cabeça.

A MULHER: Mas o que foi que ele disse de errado.

O OUTRO HOMEM: Não disse nada de errado. É que dizer que a menina desafiou as leis da física é uma força de expressão.

As mulheres trocaram olhares de cumplicidade e se permitiram rir.

O HOMEM: Que força de expressão que nada. Ela desafiou as leis da física mesmo. Como fazem os super heróis.

O outro homem olhou para este primeiro com expressão de incredulidade. Uma quinta pessoa, um homem distinto e bem vestido, isolado da turma por quase todo o tempo e desde o início, aproxima-se.

O PROFESSOR: Permitam-me me intrometer. Eu estava ouvindo sua conversa e preciso dizer que realmente o apresentador comentou que a menina desafiou as leis da física como uma forma de engrandecer seus feitos. Na verdade, as leis da física não podem ser desrespeitadas, e o que ela fez foi chegar aos limites de seu corpo e do corpo humano de um modo geral.

Todos se entre olharam, o menino com mais curiosidade que os outros, e passaram a prestar atenção ao professor. No fundo uma das mulheres olha para a outra e pergunta: "Memê o quê?" O apresentador de TV continua falando, acompanhado em seus comentários pelas imagens projetadas na tela.

O OUTRO HOMEM: Vocês vêem como o que esse apresentador de TV diz não tem tanto assim a ver com a verdade.

O PRIMEIRO HOMEM (SE APROXIMA, COM UMA LARANJA NA MÃO): Vocês vão ver como eu desafio as leis da física.

Ele atira a laranja, que voa até o rosto e o pescoço do apresentador e se despedaça em vários pedaços e em espirros de calda. O apresentador recebe o golpe, empertiga-se e continua falando, como se nada tivesse acontecido.

O OUTRO HOMEM: Por que você fez isso!? Agora as críticas que fizermos ficarão enfraquecidas. Dirão que somos arruaceiros e irresponsáveis.

A MULHER: Além de infantis...

O MENINO: Mas foi legal demais...

O apresentador de TV então pára de falar, adota uma expressão que parece afirmar que o programa acabou e caminha, passando pela frente das pessoas do povo, em direção à lateral do palco por onde entrou. As cinco pessoas se olham sem entender o que está acontecendo. O professor sempre afastado, de lado.

A MULHER: Acho que o noticiário terminou...

Então o apresentador de TV entra novamente, agora com um terno claro. Ele passa a mão pelo cabelo, pelo abdômen, assume "posição de sentido", conferindo se tudo está bem, olha para a frente como que aprovando e permitindo o início das atividades, e o projetor começa a funcionar (acionado por controle remoto pelo pessoal dos bastidores).

APRESENTADOR DE TV (ABRINDO UM SORRISO ARTIFICIAL): Uma ginasta brasileira conquistou esta semana um feito inédito, uma medalha de ouro no campeonato mundial de ginástica olímpica.

Na tela de projeção, imagens da ginasta em quadra desempenhando manobras inovadoras, que lhe valeram uma medalha de ouro, seguidas de cenas dela comemorando a conquista e ligando para casa.

APRESENTADOR (CONTINUA): Ela desenvolveu uma manobra inovadora, com um duplo giro mortal, de costas, depois de um giro simultâneo em torno da cintura e da coluna. Ela desafiou as leis da física!

Na tela de projeção, agora, um modelo computadorizado da ginasta reproduz em câmera lenta os movimentos da ginasta, com setas indicando as várias fases do movimento que rendeu a medalha de ouro.

A MULHER: Mas o que está acontecendo? Vai começar tudo de novo?

O HOMEM: Vai ver esse é o noticiário do meio dia. O outro era o da noite. Olha a diferença nas cores dos ternos.

Os quatro olham para o professor, que faz uma cara de quem também não entendeu nada.

O OUTRO HOMEM: Esperem aí... e a laranja? Parece que simplesmente não houve laranja.

O MENINO: Será que nos divertimos por nada?

O professor, como que esperando que todos olhassem para ele, já fazia uma cara de quem nada tinha entendido. No fundo, as mulheres comentavam que nada disso estava nos livros.

O apresentador de TV continuava apresentando notícias... As imagens se sucediam na tela de projeção. O professor pensava consigo que precisava agir. Os homens nitidamente demonstravam uma certa energia acumulada, que precisava ser dissipada. As mulheres olhavam-se e olhavam para os homens. Sabiam o que fazer mas aguardavam. Até que...

TODOS: Há algo errado!

Continua...


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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