Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

leis da física - segunda parte

O motivo de tanto incômodo parecia ter vindo à tona, mesmo contra o sendo comum que prevalecia naquele momento de que não conseguiriam enfim entender o que estaria acontecendo. A indecisão e o marasmo só pareciam estar sendo superados pela surpresa dos poucos que tinham entendido!


Continuando, então... quando todos disseram em uníssono que havia algo errado, conscientizaram-se também que algo precisaria ser feito. Mas o professor tentou acalmar os ânimos. (O apresentador de TV continua falando.)

O PROFESSOR: Eu acho que não devemos levar a sério tudo isso. Ele não fez nada além de valorizar os feitos de uma ginasta, que foram espetaculares. Pensem bem, ela tem origem humilde, derrotou dificuldades sociais, venceu em um campeonato mundial de alto nível. E faltou palavras aos repórteres para elogiarem seu trabalho.

O HOMEM: Mas é isso que nos incomodou. Se lhes faltaram palavras, porque outras pessoas não estão ocupando esses lugares, pessoas que saibam as palavras certas?

A OUTRA MULHER: Se eu entendi bem, então nós é que sabemos pouco. Ele usou uma força de expressão e nós achamos que ele falava a verdade.

O HOMEM: Pois é... que mal pode existir em dizer algo com as palavas erradas? Ou em não dizer algo com as palavras certas?

O PROFESSOR: Os maiores tiranos da História alcançaram posições de poder e mataram muitas pessoas dizendo o que queriam dizer com palavras apropriadas.

O menino acompanhava tudo com muita atenção.

A OUTRA MULHER: Eu acho que estamos perdendo tempo. Estamos discutindo abobrinhas.

Todos se olhavam, sabendo que algo acontecia mas sem entender exatamente o que deveria ser feito.

O OUTRO HOMEM: Eu acho que devemos começar do começo... o que estamos discutindo, por que estamos discutindo e onde queremos chegar. Alguém pode responder essas perguntas simples?

O PROFESSOR: Eu acho que essas perguntas deveriam mesmo ser respondidas, mas discordo quanto a serem simples.

O OUTRO HOMEM: Professor, não complique a nossa situação. Vamos por partes...

A MULHER: Eu acho que estamos discutindo sobre a ginasta que ganhou aquelas medalhas. Aliás, que acho que ela mereceu as medalhas...

A OUTRA MULHER: Sua imbecil, em primeiro lugar, a ginasta ganhou apenas uma medalha. Em segundo lugar, estamos discutindo o que o apresentador disse.

O OUTRO HOMEM: Por favor, vamos nos tratar como pessoas civilizadas que somos.

A MULHER: Desculpe-me, eu tenho péssima memória.

A OUTRA MULHER: Não é problema de memória, é de massa cinzenta.

O OUTRO HOMEM: Chega!

O HOMEM: Eu acho que estamos nesse "vai e vem" por causa do que ele disse. Ele disse que a ginasta desafiou leis da física e isso causou um mal estar em alguns de nós.

O PROFESSOR: E permita-me completar seu raciocínio, isso causou um mal estar por que é impossível desafiar as leis da física. O que a menina ginasta fez foi justamente conhecer seu corpo e as leis da física e se aproveitar desse conhecimento para executar manobras de ginástica que enchessem nossos olhos. Ela executou manobras espetaculares!

O OUTRO HOMEM: Aí é que está! Se o apresentador tivesse dito que ela havia executado manobras espetaculares soaria melhor do que dizer que ela havia desafiado as leis da física.

A OUTRA MULHER: Vocês têm tempo para perder com bobagens, hein?

O HOMEM: Acho que o problema está em conhecimento. Na falta que temos de conhecimento.

Nesse momento, ouve-se nos bastidores alguém anunciando aulas particulares de física. Ouve-se: "Aulas particulares de Física. Saiba tudo sobre as leis que regem o Universo. Cursos relâmpago de preparação para concursos e para vestibulares. Esclareça suas dúvidas! Preços baixos e em prestações. Últimas vagas."

A MULHER: Aí está! Vamos estudar... não é o que precisamos?

O PROFESSOR´(INSEGURO, NITIDAMENTE PRECISANDO PENSAR MAIS PARA RESPONDER): Eu não sei. Qual é a formação de vocês? Quais as suas idades? Quais as suas formações?

A OUTRA MULHER: Que formação o que... vá se encontrar...

O HOMEM: Acho que pode ser bom estudarmos física. Vamos conhecer como funciona o Universo.

O OUTRO HOMEM (DIRIGINDO-SE AO PROFESSOR): Não lhe parece estranho que ele tenha falado em esclarecer dúvidas?

O PROFESSOR: Ahn? O que foi?

O OUTRO HOMEM: Putz, tudo isso por uns adjetivos a mais...

A multidão no palco aos poucos se movimenta em direção aos bastidores, à procura da voz que anunciava aulas particulares. O menino acompanhava tudo em silêncio. Os homens pareciam empenhados em tomar a decisão que agradasse às mulheres, que pareciam empenhadas em estudar Física. O professor permanecia um pouco atrás, em dúvida entre continuar sua caminhada junto com a multidão ou permanecer no palco. Por fim, todos saem. O apresentador continua falando. Desce a cortina. Quando todos começam a se levantar para sair, pode aparecer detrás da cortina um riponga oferecendo balas de hortelã e dizendo "vai uma balinha para espantar esse gosto amargo que ficou na boca?"


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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