Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

seus gases não serão ouvidos (ou mesmo percebidos) no espaço...

As ondas mecânicas não se propagam no vácuo do espaço e, por isso, os sons e ruídos não podem ser ouvidos. Ao longo dos anos, vários filmes e seriados de TV desrespeitam leis da física, em favor do espetáculo ou por pura ignorância. Mas alguns, em alto nível, as respeitam. Um divertido comercial de TV recentemente mostra um astronauta em apuros por conta de seus gases serem percebidos por um monstro extra-terrestre... pelo marketing e pelo espetáculo!


O comercial de uma marca de feijões enlatados veiculado há alguns anos mostra alguns astronautas na Lua fincando uma bandeira e sendo surpreendidos por um monstro rosáceo e enfurecido, que sai de uma cratera e vai caçando os astronautas uma a um com muita ferocidade. Seus rugidos e mesmo os gritos dos astronautas são ouvidos ao longo dos poucos e rápidos segundos do comercial. Até aí, tudo bem, porque muitos filmes e seriados de TV (abertamente ou não) usam os sons no espaço exterior em favor do espetáculo.

Quando os astronautas foram dizimados e o monstro rosáceo pode retornar ao seu descanso, a câmera se afasta e mostra ainda um último astronauta escondido atrás de uma rocha lunar. O comercial quer vender feijões enlatados, práticos por exemplo para longas viagens, mas mesmo assim ainda feijões. E então o astronauta ainda escondido não consegue segurar os efeitos dos feijões que havia ingerido ao longo de sua longa viagem. E os gases liberados chamam a atenção da fera. E então o comercial se encerra... um 'efeito' dos gases que não seria possível!

Esse comerical pode ser visto, por exemplo, em youtu...hKDiPp2aCQk.

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Filmes de ficção científica são produzidos já há bastante tempo! Filmes respeitando as leis da física, e mesmo aquelas leis que se afastam do senso comum, relacionadas com a teoria da relatividade, vêm se tornando mais frequentes. Ainda assim, vários privilegiam o espetáculo e incluem efeitos sonoros no espaço exterior. 2001, Uma Odisséia no Espaço, foi o primeiro filme a produzir cenas no espaço exterior sem efeitos sonoros, e ficou famoso por vários motivos e também por essa razão. Abaixo, uma cena desse filme do diretor Stanley Kubrick.

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Alien foi um filme dirigido por Ridley Scott e produzido com alto nível de detalhamento, mas as cenas externas mostravam a astronave Nostromo em movimento e produzindo ruídos. Depois, o módulo de salvamento também produzia ruídos quando seus propulsores eram acionados. Mesmo assim, um livro contando a história do filme e elaborado por Alan Dean Foster trazia como subtítulo 'seus gritos não serão ouvidos no espaço'. [Abaixo, à direita, a capa do livro 'o oitavo passageiro', com o referido subtítulo. À esquerda, uma cena da personagem principal e de seu antagonista, mas retirada de sua segunda sequência no cinema.]

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O seriado de TV 'Battlestar Galactica' foi produzido com extrema atenção às leis da física e inseriu efeitos sonoros em cenas no espaço exterior abertamente aceitos em favor da qualidade do espetáculo. Esse seriado foi recordista de audiência e muito bem recebido pela crítica! Recentemente, o filme Gravidade mostrou explosões no espaço sem efeitos sonoros. Os filmes Interestelar e Ad Astra também tiveram esses cuidados. Por outro lado, é difícil imaginar os filmes da série Star Wars produzidos de um modo diferente, já que uma parte importante de seu impacto, principalmente em salas de cinema, é devido aos efeitos sonoros.

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Gases me fazem recordar de uma circunstância interessante e muito peculiar, quando eu entendi que podemos influenciar as pessoas de modos variados e muito diferentes. Eu ainda era jovem e estava em uma confraternização com uma turma de colegas. Era um salão que ficava ao lado da pequena igreja do bairro e cujo principal atrativo era uma grande churrasqueira. Entre umas cinquenta pessoas reunidas em pequenos grupos, eu estava interessado em uma colega que se encontrava com outras amigas em posição aproximadamente central nesse salão. Eu estava com alguns amigos próximo à entrada, mais para a periferia desse grande grupo. E talvez mais umas cinquenta pessoas estariam para chegar, entre amigos, colegas, parentes e outros convidados.

Eu estava interessado por ela e meus sentidos estavam focados em sua direção. Perto de mim, conversavam sobre as perspectivas para a Copa do Mundo que se aproximava, sobre as novas medidas econômicas do governo, sobre pequenas novidades apresentadas pela Universidade para o vestibular, entre outras trivialidades incapazes de me desviar de meu objetivo final. Mas na verdade algo me distraía... os gases e ruídos que eram consequência da janta do dia anterior. Era inverno e fazia frio e a janta da noite anterior havia sido uma feijoada completa, degustada com apetite e mesmo com curiosidade. E as consequências se faziam presentes ali naquela confraternização. O intestino ainda lutava contra a grande variedade de ingredientes e diferentes fibras naturais.

Em determinado momento, eu tive que traçar uma estratégia, pensando em permanecer ali naquela confraternização ainda por algum tempo. Nunca se sabe se por alguma trama do destino eu não acabaria conseguindo me aproximar dela. Se eu tivesse que sair, aí sim as probabilidades de uma aproximação cairiam a zero. Então eu decidi por uma estratégia de liberação controlada de gases, tentando ao menos não produzir ruídos. Essa estratégia minimizaria possíveis impactos sociais e me permitiria ganhar algum tempo. Quando me dei conta, já estava executando a estratégia traçada ali mesmo, dentro da trincheira.

Eu segui prestando uma atenção periférica aos amigos mais próximos, mantendo a atenção concentrada nela, que estava a poucos metros de eu estava. Havia em determinado momento aceito um copo de plástico com um quentão felizmente quente e muito saboroso. Quando eu comecei a perceber que a minha estratégia de alívio controlado de pressão começava a espalhar um aroma fétido nas imediações. Até que veio a frase devastadora... eu ouvi uma colega que estava próximo a ela, em seu pequeno grupo, dizendo 'como é que esse cheiro de bicho morto está chegando aqui dentro?' e alertando todos que estavam à sua volta.

Essa influência, no espaço, não seria possível... kkk


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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