esbónia catedrática

Há um senso crítico (pedagógico) no caos da reflexão! Arte, Política e Sociedade.

Luiz Phelipe Fernandes Morais

Tirando o fato de ser advogado e professor de Direito, a arte e a literatura justificam quase todas as minhas (outras) escolhas. Enquanto entusiasta do conhecimento e das vicissitudes cotidianas, viver tem sido meu melhor ofício

MAGRITTE, “OS AMANTES” E AS INFINITUDES DO SURREALISMO: NÃO BANALIZEMOS A EXISTÊNCIA!

Mais que um modelo artístico, o surrealismo tem a ver com a liberdade! René Magritte exerceu esta expressão com propriedade. A subjetividade da obra não é mero recurso estético, mas desdobramentos psicológicos intencionais. Reinterpretamos "Os Amantes" a fim de concluir que René, Freud e Breton, não se propuseram a significados da realidade, mas significâncias da experiência.


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The False Mirror

René François Ghislain Magritte foi um artista belga entre os grandes representantes do surrealismo. O movimento influenciado, com proeminência, pelas ideias de Freud e André Breton envolve coisas distintas e igualmente complexas: 1. A arte e a singularidade das sensações; 2 . A “psiquê” (como processo psíquico humano, capaz de transformar realidades, inventar mundos paralelos etc.) – a este respeito a cabeça do homem é capaz, por exemplo, de obrigá-lo a dar fim à própria vida, em absoluta contradição à sua natureza animalesca, que instintivamente tende a lutar pela sobrevivência por todos os meios. Muito me impressiona o que é capaz a mente humana. Muito me impressiona o que é capaz a arte. Sou apreciador do surrealismo por diversos motivos, ouso concluir que a junção dessas (supramencionadas) duas exuberâncias da existência, seja determinante.

O surrealismo inspira a liberdade. Entendo como arte tudo aquilo que, sob a perspectiva do artista – colocando intenção na matéria-prima que transforma – nos desperte sensações. O surrealismo vai além. Nele o surrealista cumpre o papel convencional e o extrapola, quando permite com que nossas sensações sejam não apenas uma troca de emoções com uma pintura, mas a oportunidade de escrever a nossa própria história e sermos coautores de uma obra sem termos tocado o pincel. Se Magritte atribuía um significado específico para cada uma de suas obras quando as produzia (e para isso existe um crítico para escrever e pontuar o que “exatamente” dizem todas elas – respeitamos a importância desse trabalho), duvido muito que ele, René, esperasse uma resposta castrada como “explicação” para elas. O surrealismo deixaria de ser surrealista e René deixaria de ser, entre tantos, surpreendente. Nada contra os críticos, a resistência é contra a crítica enquanto definição. O que entendo de “Ceci n’est pas une pipe” hoje, poder ser (e será) completamente diferente do que enxergarei amanhã. Existe algo de muito grandioso nisso, de forma que as explicações pontuais e conclusivas dos especialistas não são capazes de suprimir.

Já caminhamos nas definições (e em respeito à própria ideia do texto - que são minhas e eventualmente diferentes dos livros) agora vou além, "metautilizar" o meu próprio discurso e traduzir em produção a interpretação livre que o movimento artístico em apreço sugere. Peço licença para convocar Magritte e convidá-lo para reinterpretarmos histórias. Eu e Magritte conversaremos com você entre imagem e texto, cores e palavras, o que traduz agora (porque logo mais pode ser completamente diferente) uma de suas mais aclamadas obras, “Os Amantes”:

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Acompanhe...

E tudo começa com um toque de mãos... Mas sabemos bem como é, nunca para por aí. A mão encontrou os detalhes do braço e seguiu o percurso sem rumo. O seu corpo era um caminho tentador e suas curvas uma viagem sem coordenadas. Apalpou suas penas. As mãos sobem, a temperatura ascende, a respiração é ofegante e ela solta murmúrios que, pela forma desconcertada, não se permitem serem gemidos e altos demais para serem suspiros. Emitem ruídos. Um som abafado por sinal – um grito que ninguém pode ouvir (fatalmente traduzido como apelo). Enquanto ambos os braços passeiam eles elaboram cenas, fetiches… Visualizam as em mente até que cada um deles acredite. Isto é a carne que grita, é o coração que pede é a pele que responde sem optar pelo “não”. O corpo é inconsequente e deveras irritante, busca o hedonismo mútuo sem obrigação nenhuma com o pudor. É a carne, eu digo, é a carne! Pulsando o sangue, guiando os músculos, libertando a mente… É a carne! Na medida em que se dá continuidade ao ato, eles se sentem ainda mais sufocados, ambas as bocas se pressentem e se procuram, mas não se encontram. Tocam-se, mas há algo entre eles, há algo entre os rostos, há cordas cotidianas nos pescoços, há duas vidas há tempos vistas entre “nós”. Não se enxergam nem se beijam e já não concluem os desejos. Talvez seja uma vedação definida pelo compromisso de um matrimônio, talvez seja a mente imaculada de um adúltero no auge do ressentimento. Talvez sejam vendas pré-estabelecidas, tapando-lhes os rostos, inibindo a possibilidade de sanarem a cede e reduzindo-lhes a capacidade de enxergar além. Uma porta se abre aos fundos, se separam tão rápido quanto se abraçam e, ainda atordoados, cada um segue seu rumo, sem rumo, esperando que o amor explique o que há de pior. Aguardando que o desejo e o sentimento lhes desatem os nós.

(...)

Tomei a liberdade de dizer sem acabar. Falar sem explicar. A arte não demanda um significado, mas significâncias. O surrealismo patenteou a plena liberdade de expressão e faço gosto de usufruir disto. Ao desdenhar da realidade e se permitir (permitindo!), René Magritte, Salvador Dali, Luis Buñuel [...] disseram com genialidade que a racionalidade da expressão (calcada com afinco na razão) é nada mais do que a reprodução daquilo que aprisiona. Mente livre, corpo livre, arte livre, em tempos em que a tutela em desmedida das liberdades ganha forma. Sair das amarras, com doses de surrealismo, para não exercemos a reflexão paradoxal de que a existência reflete a lógica.


Luiz Phelipe Fernandes Morais

Tirando o fato de ser advogado e professor de Direito, a arte e a literatura justificam quase todas as minhas (outras) escolhas. Enquanto entusiasta do conhecimento e das vicissitudes cotidianas, viver tem sido meu melhor ofício.
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