esbónia catedrática

Há um senso crítico (pedagógico) no caos da reflexão! Arte, Política e Sociedade.

Luiz Phelipe Fernandes Morais

Tirando o fato de ser advogado e professor de Direito, a arte e a literatura justificam quase todas as minhas (outras) escolhas. Enquanto entusiasta do conhecimento e das vicissitudes cotidianas, viver tem sido meu melhor ofício

Descontentamento complacente: existir talvez seja a grande dádiva

A vida é uma trajetória desafiadora... Não entendemos os percalços, os desafios e as dores. Não reconhecemos o legado que a existência - proporcionando descobertas - nos trouxe. Mas há de existir uma maneira de assimilarmos a complexidade das vicissitudes. Claro que a ignorância é uma zona de conforto e que a descoberta de si mesmo é angustiante, mas enxergar-se como parte do universo é complacente. Entendamos que essa é a grande contradição da vida: De um lado a beleza da perfeição que é existir e do outro, a dureza em suportar seus dessabores.


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Vivia em conflito consigo. Buscava de tudo, mas nada fazia sentido. Fazia o certo e o resultado não era bem vindo. Realizou exatamente o que exigiram. Conquistou o impossível, segundo diziam. Mas nada correspondia. Nada despertava as sensações (para as quais sequer havia nome) – aquele sorriso sem aviso, aperto no peito desinibido, sensação de vida inundando os pulmões sem motivos.

Cumpriu os deveres, atingiu as metas, garantiu o disputado emprego. De nada convencido de seus méritos, o único a enxergar até mesmo o próprio fracasso. O que para a sociedade era uma nova vitória, para si a aquisição de mais um motivo para sentir-se aflito. Queria pouco. Queria o quê? Amava a naturalidade das coisas, apaixonado por banalidades e tudo aquilo que, embora em abundância, nunca lhe permitiram adquirir. E nunca lhe permitiu identificar.

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Às vezes tinha a impressão de que a vida ficava lhe testando, como se tudo fizesse parte de um jogo e perambulasse por aí como alvo em potencial, mas a ideia era abstrata demais. O importante era concluir que o percurso “inter vida” é um tanto dificultoso, mas a poesia já alertara que é comum nos depararmos com pedras.

As pessoas o diziam com certa benevolência que tudo era simples, natural, harmônico e nós é que complicávamos. Ingênuo, não? – pensou. A aleatoriedade com que acontecimentos podem se desencadear num pequeno intervalo de dias (oscilando em bons e ruins) o assustava. Não convinha discutir se era destino nem argumentar, aos que assim acreditavam, se seria ou não “obra de Deus”. O que importava era a realidade fática e as circunstâncias vividas, não fazendo diferença alguma sabermos ou não de onde elas vieram e sob qual pretexto. Não parecia fácil, mas entendia que não estaríamos no mundo se não fosse possível.

[...]

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Passou boa parte do tempo procurando a fórmula para simplificar a vida, ciente de que a maioria dos outros entusiastas partiu sem êxito nesse objetivo. Apenas caminhemos... – pontuou. Haverá provações. Situações que se revestem como dádiva, para depois se desmascararem na tragédia. Desde a perda de um ente querido, até algo menos “inevitável” que isso. Os dias ruins no trabalho, a insuficiência do salário, as divergências do relacionamento. Referia-se à possibilidade de ver sumir de vista o que (quem!) acreditava ser o trajeto incontestável para a felicidade. Tudo se potencializava exatamente no fato de não saber como lidar com dores, fins e afins. E claro, o descontentamento em aceitar a ausência de algumas “habilidades” humanas e as consequências desumanas dessa fragilidade.

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Haveria um significado para o sofrimento? – insurgiu. Há justificativas. Não há respostas – ponderou. Ora, embora inseridos num coletivo demasiado de “negações”, nem tudo pode ser ruim. No mínimo uma conclusão tomou, pois não seria possível que estivéssemos predestinados a percorrer o espaço entre o nascimento e a morte tendo um dia-a-dia tão perrengue. Pensava que devia ter uma coisa boa em tudo. Não podemos simplesmente sofrer por sofrer, assistir a tragédia acontecer como expectadores da fatalidade. Eis o necessário otimismo ambivalente para a existência, justificando-a como um fim em si mesmo.

E quanto a angustia, entendeu como um ciclo reiterado que o permitia acordar sabendo que já conhece alguns rancores e embora não possa evitá-los, por eles se fortalece. A ideia do sofrimento parecia ser justamente a necessidade de tirar dele um alicerce plausível e abstrair de toda aquela sensação “Dantesta” a certeza de que dali em diante seria de fato uma pessoa melhor para si e para o mundo. Não tinha certeza se ia conseguir nem como fazê-lo, mas queria crer, de uma vez por todas, que morreria tentando. Concluiu ainda que o antídoto para as suas inquietações seria evoluir em vida, para não depender de anjos. Aprender a se relacionar com o universo é reconhecer a beleza e as fraquezas de ser humano.

- Fechou a janela e voltou a dormir. Amanhã já não seria (mais) apenas um dia no trabalho. A felicidade era simples, exigia pouco e poupava bastante. A existência é um fenômeno que precisa ser entendido com contentamento, mas não justificado. Existir, para ele, foi perceber que nós somos uma extensão do universo, se olhando no espelho e se reconhecendo como vida (que transborda).

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Luiz Phelipe Fernandes Morais

Tirando o fato de ser advogado e professor de Direito, a arte e a literatura justificam quase todas as minhas (outras) escolhas. Enquanto entusiasta do conhecimento e das vicissitudes cotidianas, viver tem sido meu melhor ofício.
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