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Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog ;-)

As fraquezas do poder com o Superhomem

Em que medida somos obrigados a nos esconder, a fingir ser o que não somos? Entre os super heróis com identidade secreta, Super Homem é o que melhor simboliza como o tecido social se encarrega de mutilar capacidades.

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"Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent? Ele é fraco, inseguro e covarde. Clark Kent é uma crítica do Super-Homem à raça humana.” 

Bill, em Kill Bill volume 2

Numa das séries de desenho animado mais bem construídas de todos os tempos, a Liga da Justiça Sem Limites, o último episódio da segunda – e infelizmente última – temporada é revelador sobre o que é o Super Homem. Em meio a uma briga épica com Apocalipse, o Homem de Aço diz mais ou menos assim: 

“Eu tomo cuidado todos os dias para não ferir as pessoas nem quebrar nada. Esse mundo para mim é como um castelo de cartas e se não me vigiar, posso destruir tudo. Mas com você, eu posso me soltar e mostrar a real extensão do meu PODER! (segue um golpe violentíssimo, que faz Apocalipse atravessar uns 5 prédios)” 

Superman, in Liga da Justiça, ep. 39 “Destruidor

Ora, temos aí a evidência cabal de que o Super Homem vive escondendo o jogo. Ele acaba confirmando a teoria exposta por Bill, e revela claramente nessa cena o que todos desconfiam: Superhomem é um frustrado. A tese é estabelecida por Umberto Eco, que explora o Mito do Superman. O escriba define bem que a identidade de Clark Kent representa tudo que o Superhomem gostaria mas não poderá nunca realizar. A sociedade o força a esconder seus poderes, e ele, para poder extravasar de vez em quando sua necessidade por usar habilidades que o tornam quase um deus, resolve colocar seus dons a serviço da humanidade. Quase um “vocês deixam eu me exibir um pouco, e em troca limpo as besteiras que vocês fazem”. 

Na verdade, essa relação Superhomem / humanidade é de fato o que acontece diariamente. Todos temos poderes que acabam sendo suprimidos pela coletividade, que odeia ver gente que se destaca por alguma coisa. Ou melhor, gente conhecida, do trabalho, da família, do círculo de amizades. As possibilidades de mostrar a real extensão do nosso PODER diminuem dramaticamente em meio a gente conhecida e essa é uma armadilha muito difícil de se desvencilhar. Porque no final, mesmo que sejamos no fundo todos Superhomens – e mulheres – o que importa mesmo é o reconhecimento, em forma de dinheiro, de poder, de respeito. Pagamos um preço alto demais para nos integrar. 

Gente poderosa por si só não tem graça nenhuma, há sempre de existir uma fraqueza, e nem precisa ser kriptonita. A propósito, a maior vulnerabilidade do Superman ser verde não é por acaso. 

Christopher Reeve, um capítulo à parte

Christopher Reeve foi um dos maiores atores injustiçados de Hollywood, por ter começado com ele o estranho conceito de “ator que ficou marcado por um papel de super herói” e pela ironia do destino, que o fez cair do cavalo e ficar tetraplégico. Reeve, de certa forma, encarnou em vida talvez algo que aconteceria se o Superhomem quebrasse o pacto de não-agressão à humanidade – entendida como exibição livre de seus poderes. Christopher era perfeito demais como Superhomem. Seu rosto anguloso e másculo, olhos vivos e azuis e porte atlético faziam parecer até que o criador do desenho se inspirou nele para criar o personagem. Era o protótipo do herói.

E não é que Christopher foi um grande ator, ofuscado pelo brilho do Superhomem? Tal qual um disfarce, Reeve jamais pôde mostrar a real extensão do seu PODER como ator, porque Superman não deixou. Tem até um filme em que ele interpreta um jornalista, e não é o Clark Kent, chamado Street Smart – Armação Perigosa no Brasil – em que apresenta-se um ator visceral, em cenas urbanas, evidenciando toda a sordidez dos becos novaiorquinos. Nem dá para dizer que o diretor de Street Smart, Jerry Schatzberg, tenha escolhido Reeve por causa do perfil galã. A filmografia de Jerry comprova que seu estilo é mais de mostrar a sujeira das ruas do que admirar super heróis musculosos, como o filme Panic in Needle Park, protagonizado por um jovem Al Pacino no papel um personagem drogado, louco, irresponsável e vagabundo.

A cena derradeira do primeiro Superhomem, em que ele, dando giros velocíssimos ao redor da Terra faz o tempo voltar, ressuscitando então sua amada Louis Lane, é, na verdade, a assinatura do contrato com a humanidade que acabara de salvar. O alerta de Jor-El, na voz de um fantasmagórico Marlon Brando era sábio “É proibido interferir na história da humanidade!”


Julio Benck

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