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Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog ;-)

Fantasia, um gênero para cabra macho

A saga dos grandes guerreiros tem um lugar épico num filme não tão aclamado pela crítica. Em Krull, tudo a que temos direito está presente: princesa sequestrada, armamento exclusivo e vilão inacessível.

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O gênero fantasia segue aquele estilo O Senhor dos Anéis, em que um hipotético tempo passado acontece configurado de forma mágica e diferente do que realmente ocorreria em termos terrestres e reais. Num caminho inverso, temos aí o Mad Max 2015 dirigido pelo mesmo cara do original, um malucão dos bons, o médico que decidiu fazer filmes George Miller. Em ambos estilos, a distopia é a palavra de ordem e imprime a atmosfera da obra.

Como a maioria dos gêneros cinematográficos, fantasia, principalmente a histórica, não tem nada de novo. Um dos melhores exemplos disso é o épico da Sessão da Tarde, Krull.

Há no início uma certa pegada Star Wars, nada que deva se recriminar, dada a enorme influência do clássico de George Lucas em pleno 1983, ano em que a produção foi lançada. De qualquer maneira, Krull se diferencia, e passa longe de ser mera cópia de Guerra nas Estrelas, embora haja elementos claramente inspirados, como a cena no pântano desolador e a própria aparência dos soldados vilões, que lembram vagamente o Darth Vader e emitem um berro horroroso quando são mortos, ao mesmo tempo em que liberam um verme asqueroso em direção às profundezas.

O roteiro é típico de um conto de fantasia, em que um enredo heroico se desenrola em torno de um líder reunindo os melhores homens para cumprir seu grande objetivo, resgatar a princesa sequestrada, não a Leia, mas Lyssa. E, se não temos o sabre de luz, temos o Gladio, espécie de shuriken medieval imprescindível para derrotar o inimigo poderoso. Poucos filmes da mesma época se aventuraram nesse estilo, exceto A Lenda, por isso merece destaque. Uma produção bonita de se ver, dentro da proposta que lançou. E vale a pena conferir Liam Nesson num papel secundário, emprestando sua força, ainda que incipiente, a um filme predestinado a se tornar uma referência, até porque são poucos os congêneres.

Tem muitas lições em Krull, e como a vibe aqui não é spoilear, para quem não assistiu, vale a pena acompanhar e entender inclusive o papel do ladrão na sociedade. Sim, eles são criminosos, merecem ser punidos, mas na hora da guerra, e na contingência da falta de braços, é a eles que a realeza deve recorrer.

Seu diretor, Peter Yates, que nos deixou em 2011, tem extensa obra cinematográfica, que vale a pena ser revista. Seu olhar não fica devendo em nada aos melhores diretores de fantasia do cinema, como Tim Burton e Wolfgang Petersen.

 

Ciclope, ah, ciclope...

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O ciclope (Bernard Bresslaw) é um personagem que por si só mereceria um filme, quiçá um seriado à parte, tal como Saul Goodman em Breaking Bad. Seu enredo é trágico: para se safar de um tirano, a tribo ciclópica faz um acordo em que deixam um dos olhos em troca de saber o futuro. No entanto, seu interlocutor revela-se um safado. Dá a todos os ciclopes o dom de ver o futuro, mas de forma melancólica. Cada um deles têm a infeliz capacidade de saber o dia em que vão morrer.

Desta forma, o personagem Rell – inferno? – adere à saga, depois do atrapalhado mago Ergo, uma espécie de Presto da Caverna do Dragão menos bobo, e da tropa de bandidos que forma o pequeno exército do rei Colwyn (Ken Marshall). Peça importante na trama, só é menos fundamental que o mago Ynyr (Freddie Jones), que literalmente ressuscita o protagonista depois de uma não muito convincente sequência inicial em que a princesa é raptada.

 

Soldados, às armas!

 

Não tem como desvencilhar Krull, embora produção inglesa, do que preconizam os filmes heroicos dos Estados Unidos. Um homem, no início solitário, que vai arrebanhando camaradas em torno de uma causa humanitária, embora contestável e difusa, contra invasores alienígenas, fora o dever real de resgatar sua cônjuge. Uma vez instalados em Krull – nome do planeta invadido – os aliens tornam muito difícil a resistência, já que sua base migra diariamente para locais que nunca se repetem. Essa é uma sacada muito boa do filme, e um bom complicador para o cumprimento da missão.

Nesse aspecto, Krull foi convincente em colocar um bando de mercenários suicidas dentro do covil do lobo. Como boa fantasia, o pulo do gato fica por conta dos cavalos de fogo, indomáveis equinos que conduzem o tropel rumo à base virtualmente inacessível. Fotografia, ângulos de câmeras, efeitos especiais excelentes – para 1983 e um filme de orçamento não tão polpudo, 27 milhões, é um feito  – tudo colabora para nos conduzir apaixonadamente rumo ao resgate da princesa Lyssa.

A trama militar tipicamente norteamericana vai se desenrolando ao redor de uma grande saga em busca de um local mutante, que não tem lugar certo para estar. A revelação sobre isso é mística, e não desprovida de um grande sacrifício.

 

E hoje, o que tiramos de Krull?

 

Ora, tiramos um ótimo filme, que foi feliz no que se propõe, e, não menos importante, revelou Liam Nesson. Krull tem trilha sonora de primeiríssima, comandada por James Horner, um monstro com vastíssima produção musical para o cinema, uma cinematografia convincente e personagens que fazem jus ao que a história se propõe. Um clássico da Sessão da Tarde que merece ser visto e revisto!

Claro, não menos importante é a lição edificante que perpassa o filme. O tempo todo, o líder alienígena invasor tenta a princesa sequestrada com ofertas de grande poder. Colwyn e seu pequeno exército se encarregam de nos dizer que o poder por si só não basta, contanto que haja vontade de superá-lo. Poderosas e aparentemente infinitas ditaduras pelo mundo estiveram aí, e foram fragorosamente derrotadas. O puxa saco, via de regra, se dá muito mal!


Julio Benck

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