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Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog, na parte de notícias ;-)

Tarantino vem aí, o bicho vai pegar

O fim do ano nos reserva mais um disparate de um dos mais, se não o mais, criativos diretores da fábrica norteamericana de cinema. Ainda bem que existe Tarantino!

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Sob sério risco de chover no molhado, a primeira observação que conviria fazer sobre os filmes tarantinescos seria a mais simplória possível, e a que cabe para início de conversa: são fimes que falam mais dele do que de qualquer outra coisa. Tudo que se encontra nas cenas, da palheta de cores até os enquadramentos, é revelador da personalidade do seu maior artífice.

Grande Hotel (Four Rooms), por exemplo, nos faz entender um pouco melhor sobre Tarantino e seu colossal talento por que chega a ser uma covardia colocar uma história sua entre outros três cineastas, embora talentosíssimos, que são Robert Rodriguez (Machete, Sin City), Allison Anders (Gas, Food Logging) e Alexandre Rockwell (13 Moons, Alguém Para Amar).

Aliás,  a história de Tarantino não está entre, mas no final do filme, o que impacta ainda mais quem assiste. É brutal o ganho dramático, em parte porque o próprio Quentin atua, pra variar, no papel de um cara sujo  e de caráter duvidoso, ainda que magnetizante e carismático.

Essa é uma das características de seus filmes que os tornam sui generis;  quando atua, Tarantino invariavelmente se coloca no papel de vilão ou no do cara que se dá muito mal, como em Um Drink no Inferno, Django e o próprio Grande Hotel. Uma das raras exceções é À Prova de Morte (Death Proof), em que interpreta o tipo “fanfarrão da galera”.

Sobre À Prova de Morte, cabe uma ressalva.Tarantino já disse em uma entrevista que esse seria seu pior filme, no que me permito discordar veementemente. Pode ser, claro, que um detalhe técnico ou outro esteja dissonante em relação à sua obra de uma maneira geral, mas dizer que é o pior, tanto técnica e pior ainda, cinematograficamente, é um grande exagero.

Pelo contrário, À Prova de Morte é talvez o filme mais intenso de todos, em que elementos como diálogos verborrágicos, violência estetizada e humor negro e ácido estejam mais vivos do que nunca. Kurt Russel, se não convence tanto como um dublê psicopata, cumpriu bem seu papel, e fez um personagem pelo menos competente.

 

O início de tudo: O Aniversário de Meu Melhor Amigo

 

O primeiro filme de Tarantino foi o curta em P&B, My Best Friend’s Birthday, de 1987, pelo menos o único já visto pelo público. Existe um de 1983, Love Birds in Bondage, que permanece obscuro.

Um dos primeiros grandes sucessos do cineasta foi justamente True Romance (Amor à Queima Roupa), de 1993, que tem como primeiras cenas uma espécie de continuação do filme de 1987, e é protagonizado pelo ótimo Christian Slater e a igualmente ótima Patricia Arquette. Na direção, o mito Tony Scott, irmão de Ridley Scott, morto em 2012.

Se você ainda não assistiu o primeiro filme de Tarantino aproveite enquanto ainda está no Youtube.

Em que pontos podemos entender Tarantino em seus filmes?

 

Na maioria das suas produções, principalmente as ambientadas nos Estados Unidos, um elemento é quase onipresente, o posto de gasolina enfiado no meio de uma estrada deserta. Sabemos que Tarantino nasceu e passou parte da infância em Knoxville, capital do Tenessee, estado tipicamente do interior norteamericano, de perfil algo conservador e de certa forma isolado do mainstream em todos os sentidos. Ou seja, um lugar onde não acontece muita coisa e que tem como principal feito cultural ser a terra de Elvis Presley, não por acaso, uma das maiores referências musicais nos seus filmes.

Outro dado bastante relevante na sua filmografia é que as histórias são, via de regra, originais. Partem quase sempre de um roteiro escrito e minuciosamente retrabalhado por Tarantino, o que evidencia a opção do insano diretor em seguir uma via própria de desenvolvimento. Outra prova disso são as recusas em dirigir blockbusters logo no início da carreira, quando se isolou para a gestação de Pulp Fiction.

Sendo assim, podemos reconhecer nos filmes de Tarantino dois traços seus: independência e percepção de isolamento, de ser diferente.

Mas há outros elementos. Por exemplo, pelo menos dois de seus filmes, Pulp Fiction e Jackie Brown, serviram para reviver as carreiras de dois atores que estavam no ostracismo; naquele, John Travolta, em Jackie Brown, Pamela Grier. “Ressuscitar” Pamela foi também, de certa forma, trazer de volta um pouco do gênero blaxploitation – e do filme Foxy Brown - cujos elencos são predominantemente de atores negros, que fizeram sucesso na década de 1970. Outra evidência de que Tarantino foi influenciado pelo gênero é a participação de Fred Williamson em Um Drink no Inferno e a suprema reverência, o filme Django, uma espécie de redenção negra no cinema de Tarantino.

 

Culto ao passado

 

As pinceladas no blaxploitation podem ser entendidas como outro traço dos filmes de Tarantino, e que podem ser reveladoras ou de uma propensão a reminiscências ou de uma estratégia maquiavélica para “agarrar” o público. Quem não curte, afinal, uma obra retrô, ainda mais inserindo com maestria fatores até certo ponto inesperados nesse tipo de produção, como sexo e violência?

Pois Tarantino, dono de uma memória privilegiada, sabe como poucos utilizar referências do passado em seus filmes, seja pela fotografia, onde predominam cores vivas e chapadas, seja pelos longos diálogos, ao mesmo tempo carregados de tensão e de falsa elegância. Outra característica marcante do sentimento revival que permeia sua obra são as trilhas sonoras, como o tema de abertura de Jackie Brown, a envolvente Across the 110th Street, composta por Bobby Womack em 1972.

Seus últimos filmes são outra prova de que o passado está vivo. Bastardos Inglórios e Django põem literalmente o dedo na ferida de temas quase sempre comentados ou produzidos no cinema com excessivo respeito, o nazismo e a escravidão.

 

E a violência?

 

Não se pode falar sobre filmes de Quentin Tarantino sem mencionar talvez sua mais constante característica, a violência. Embora ele justifique dizendo que a finalidade das cenas violentas é puramente entreter, ele faz isso de um jeito peculiar. Nas cenas de violência de Tarantino, ao contrário de boa parte do cinemão, não existe aquele retardo na hora de desferir o golpe certeiro e matador. Não há perdão e nem cavalaria, a execução é sempre sumária, como no estupro de Marsellus Wallace (Ving Rhames), em Pulp Fiction, e nas inúmeras execuções perpetradas por Beatrix Kiddo (Uma Thurman) nos dois volumes de Kill Bill.

O que se poderia dizer de positivo é que Tarantino busca ser o mais honesto possível em relação à violência. Ela existe, é uma característica humana, e talvez seja até mais anti educativo tratá-la de forma escamoteada, como se pudéssemos compensar de alguma maneira apenas minimizando a forma como acontece.

O próximo filme de Quentin Tarantino, The Hateful Eight ,  já está sendo produzido, o oitavo de sua linhagem (o "eight" seria nesse sentido? A conferir). No elenco, o preferido de Quentin, Samuel L. Jackson – sobre o qual Tarantino disse ser o ator que melhor entende seus diálogos – Kurt Russel , Michael Madsen – que esteve em Kill Bill e Cães de Aluguel - e Channing Tatum.

A história, a exemplo de Django, ambienta-se no velho oeste norteamericano, no período pós-guerra civil, por volta de 1865, e conta a trajetória de um caçador de recompensas em fuga. A previsão de lançamento é no final de 2015, e, claro, estamos todos pra lá de ansiosos para acompanhar mais uma das loucuras desse mestre do cinema. O público agradece!


Julio Benck

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