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Julio Benck

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Robôs, erros e humanidades no cinema de Neill Blomkamp

Chappie repete equívocos cometidos em Elysium, enquanto mantém o estilo que consagrou o cineasta da África do Sul no cultuado Distrito 9, e que o tornou uma espécie de "reloaded" de Paul Verhoeven

Chappie

Neill Blomkamp, a grata revelação sulafricana da indústria cinematográfica, tem uma pegada interessante em seus filmes, fazendo lembrar o seu quase compatriota holandês Paul Verhoeven. Suas produções inserem elementos de falso documentário, com ampla utilização de takes televisivos jornalísticos, do mesmo jeito que Verhoeven fez em Robocop e Tropas Estelares. Um recurso que tem efeito surpreendente, se considerarmos que o risco de soar canastrão é bem alto. 

Talvez nem seja obra do acaso que a estética, principalmente de Chappie e Distrito 9, seja parecida com a dos citados filmes de Verhoeven, afinal, Blomkamp já declarou que Robocop é um dos seus filmes preferidos de todos os tempos.

A propósito, Distrito 9 é, das três grandes produções dirigidas pelo sulafricano, a que se destaca não apenas pelas quatro indicações ao Oscar - Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição – mas pela condução da ação, que não se perde em momento nenhum, ao contrário de Elysium e do seu último filme, Chappie, que padecem de um mesmo problema: seus enredos, num dado momento, esbarram em suas altas pretensões, e não conseguem dar respostas satisfatórias às grandes questões que levantam.

Ambas as produções mostram dificuldade em manter o ritmo da ação a partir do momento em que os conflitos se estabelecem. Em Elysium, quando os personagens Max (Matt Damon) e Spider (Wagner Moura) precisam tomar Elysium de assalto enquanto conspirações governamentais ganham corpo, e em Chappie, quando o robô policial dotado de inteligência artificial tem que ganhar conhecimentos e maturidade em poucos dias, para que os planos de seus “tutores” de realizar um assalto se concretizem.

O meio de campo embola um pouco, e fica estranho, por exemplo, o engenheiro Deon Wilson (Dev Patel) que desenvolveu a inteligência de Chappie, visitar regularmente sua criação sob custódia de bandidos que pretendem usá-lo para cometer crimes. Ainda que tenha algo a esconder, não parece plausível que um cientista tente resolver sozinho uma situação de alta periculosidade.

Um apaixonado por design e tecnologia

Distrito 9 tem trama e enredo igualmente ousados, mas logra êxito em manter a tensão ao longo de toda a história, e é muito mais feliz em apresentar os conflitos de ordem mais humana ao mesmo tempo em que a ação se desenrola. O curioso é que nos três filmes estamos falando de um protagonista que é perseguido ao mesmo tempo em que luta contra o tempo e grandes corporações corruptas e desumanas.

Nesse sentido, as similaridades com Robocop saltam aos olhos, como por exemplo, as empresas Armadyne (Elysium), MNU (Distrito 9) e Tetravaal (Chappie), comparáveis à OCP no clássico de Verhoeven. As inserções de falsos noticiários e algumas tomadas, principalmente em Distrito 9, em que o protagonista se dirige à câmera também são características dos filmes do holandês e as cidades em que se ambientam as histórias, Johannesburgo e Detroit, são igualmente mostradas em suas facetas cosmopolitas e algo sujas e decadentes. E não dá para ignorar a semelhança do robô ED-209, de Robocop, com o Moose em Chappie, que, assim como o filme de 1987, é um projeto de policial robô fadado ao fracasso e que entra em cena de forma desastrada. Em Robocop, quem desenvolve o robô desengonçado é Bob Morton (Miguel Ferrer), em Chappie, Vincent Moore (Hugh Jackman). Fora, é claro, o fato de robôs serem desenvolvidos para atuar junto à polícia.

O que diferencia Neill de Verhoeven é fundamentalmente a paixão que aquele nutre por engenharia, robótica e design, os quais ele utiliza com maestria nos seus três maiores sucessos. Isso é facilmente compreensível, já que Blomkamp começou na carreira audiovisual como animador, posteriormente migrando para a área de efeitos visuais.

Daria para comparar também os filmes de Blomkamp com os de Verhoeven por outra temática recorrente, a simbiose entre humano, vida alienígena e máquina perpetrada ou pelo uso de equipamentos de controle remoto ou de acidentes de ordem química. Por tudo isso, esperamos que Neill volte a apresentar em seus próximos filmes o mesmo ritmo intenso e sem firulas que o consagrou em Distrito 9. A manha é manter a tensão, mas sem errar a mão.


Julio Benck

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