escrevendo com a luz

e movendo fotogramas

Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog, na parte de notícias ;-)

A indiferença mata

A repetitiva tragédia da migração árabe e norte-africana em direção à Europa novamente cutuca nossos sentimentos relativos à compaixão, que é suprimida no dia a dia e acesa esporadicamente pela mídia. Sentimos, falamos muito, mas pouco fazemos. Como diria o poeta "Gentileza gera Gentileza", ou seria como diz o homem armado "Mais violência gera compreensão"?

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Se realmente nos interessamos pelo drama alheio, é bom começar visualizando sua geografia

Europa, Norte da África e Oriente Médio, historicamente, são forças em constante atração e repulsão. Desde a Idade Antiga, os fluxos migratórios são constantes entre os continentes. Quando a mão é África/Oriente Médio - Europa, via de regra, a torrente é humana, cujo marco histórico inicial é a diáspora judaica entre 700 e 500 A.C. Foi a primeira grande tragédia populacional de que se tem notícia, fazendo com que milhares de famílias fossem desterradas e relegadas a uma sub-vida. Tal como acontece hoje com refugiados haitianos, congoleses, como aconteceu com os tutsis em Ruanda, os armênios no começo do século passado, e hoje acontece com líbios e sírios. Os motivos variam, mas são a outra face de diferentes moedas: a indiferença, a crueldade, a vontade humana de explorar.

Não é novidade nenhuma a migração forçada de povos árabes e do norte da África em direção à Europa, e até para a América. Visto São Paulo, com seu expressivo contingente de sírios e descendentes – meu bisavô, inclusive foi um deles. 

Uma das raras exceções foi a invasão da península ibérica pelos mouros, iniciada por volta do ano 700, dando início a um domínio que durou cerca de 800 anos. Trata-se de uma espécie de vácuo histórico, em que uma Europa mergulhada nas trevas do feudalismo foi presa fácil para todo tipo de invasor.

A História, em seus infinitos ciclos, nos conta outra coisa. É o europeu quem normalmente pilha e saqueia. O povo árabe e africano, no máximo, ou são massa de manobra ou coniventes com a pilhagem. Num território eternamente hostil como é o Oriente Médio e a África saariana, quem por lá vive tem sempre muito com que se preocupar. Eles nunca tiveram recursos naturais nem para garantir o mínimo, água principalmente. A exceção é a quase mirágica região do Nilo, uma tripa de território no Egito em que inacreditáveis plantações florescem.

Se reclamamos de inflação a 10% ao ano, imagine que motivos esses povos não teriam para estar insatisfeitos?

Mas o que tem a ver essa história toda?

Em tempos de muita mídia e pouca reflexão, as notícias guardam em si um paroxismo emocional perigoso, que nos leva ou a epifanias ou fazem brotar um sentimento de indignação impotente e carregado de ódio. No primeiro caso, quando acessamos, por exemplo, um vídeo no facebook de um rapaz salvando um cãozinho de se afogar, imediatamente concluímos – não exatamente com essas palavras - “o ser humano tem salvação”, “que grande exemplo!”, “há esperança”. Em geral, somos condescendentes com muita coisa que lemos ou assistimos, sem que isso represente uma efetiva mudança nas atitudes diárias. 

Por outro lado, quando o que nos chega via internet é um assassinato bárbaro, ou um assaltante sendo morto, emerge nosso justiceiro interior. O julgamento é sumário, e ninguém se pergunta o teor de verdade do que acabou de ler ou assistir. O ser humano é assim, adora o conforto de sair do lugar comum à custa alheia. É bem provável que a maioria dos que se sentem detentores da justiça social, ao sair às ruas, mal voltem seu olhar para aquele homem sujo deitado embaixo de papelões, o que não significa um comportamento errado ou reprovável. Não é culpa de ninguém e ao mesmo tempo de todos nós a tão normal miséria urbana. 

Claro, ninguém sozinho tem a capacidade de resolver o mal da pobreza. Todos trabalhamos duro ao longo do dia, e sentimos que fazemos jus a uma vida boa, isentos de qualquer responsabilidade para com os outros. É justo, e uma armadilha que se impõe em sociedades que prezam a competição como parâmetro. 

Quando a colonização europeia fatiou África e Oriente Médio em estados seculares com mapas desenhados abusando de linhas retas, agiu em interesse próprio e, como tal, indiferente às questões das tribos e povos que lá já estavam. Etnias rivais foram forçadas a viver num mesmo país, sob uma mesma bandeira e a cantar um mesmo hino. Tribos foram divididas por fronteiras inopinadas, impostas por gente que veio de muito longe.

Não é de hoje que a tragédia humanitária acontece. Na verdade ela acontece aqui, no caminho para o trabalho, nas favelas em que pessoas se amontoam, muitas delas vivendo em condições similares às mais pobres nações do mundo.

A imagem de Aylan, o menino sírio, é de cortar o coração.

Mas e com os nossos Aylans, o que fazer com eles?


Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog, na parte de notícias ;-).
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