escrevendo com a luz

e movendo fotogramas

Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog, na parte de notícias ;-)

A vida do homem desquitado é uma montanha russa

Hedonismo - Doutrina ética, ensinada por antigos epicureus e cirenaicos e por modernos utilitaristas, que afirma constituir o prazer, só ou principalmente, a felicidade da vida. Fonte: dicionário Michaelis.

Michael Douglas inseriu-se no cânon cinematográfico por fazer filmes intensos e papéis insanos, como em Um Dia de Fúria (1993) e Instinto Selvagem (1992). Em ambas as produções está lá o homem capaz de manter por algum tempo uma vida estável e próspera, mas ao mesmo tempo propenso a grandes riscos e revelando a partir de um certo ponto um comportamento errático e irresponsável. Um Dia de Fúria é, no entanto, um filme mais voltado para a ação, em que, se pudéssemos extrair uma moral, esta seria "todos têm vontade de ter seu dia de fúria, mas há um preço". Já no filme também estrelado por Sharon Stone, explora-se até o talo toda a possível loucura que um homem pode fazer por causa de uma dessas mulheres inalcançáveis, mas que se apresentam disponíveis num momento totalmente inoportuno. A propósito, convém destacar que a direção de Instinto Selvagem é do loucão Paul Verhoeven, citado por aqui em artigo sobre Neill Blomkampf

O hedonista oculto que destrói

Com direção de Brian Koppelman - que assina excelente roteiro - e David Levien, O Solteirão, (2009) filme algo desprezado de Michael, faz alusões em sua trilha sonora e em algumas cenas em que o protagonista está vestido inteiramente de preto ao cantor Johnny Cash - que também vivia usando roupas dark. Se pudéssemos fazer uma analogia, Johnny seria uma espécie de cantor de "música de corno", aqui para nós do Brasil. E se igualmente compararmos com os mais consagrados filmes de Douglas, o discreto filme se mostra uma produção além de mero apelo ao sex appeal do astro americano.

O enredo de O Solteirão nos põe em contato inicialmente com um homem conquistador, bem sucedido e aparentemente invencível, numa vibe Instinto Selvagem de high society. Isso pode causar a impressão de que vai se assistir a uma história quente e excitante, mas não será bem assim. Ao longo da trama vamos linkando a relação com o negro e com Cash, já que Ben Kalmen, o personagem de Douglas, vai se submetendo a uma sucessão de decisões precipitadas e acontecimentos infelizes que põem em xeque sua capacidade de se reinventar. Para evitar o spoiler, basta dizer que, ao ser confrontado apenas com a possibilidade de ter um grave problema de saúde, uma chave é ligada em seu interior, que o leva a seguidas traições à sua esposa Nancy, interpretada de forma, digamos, rápida, pela sempre genial e sensível Susan Sarandon. Egoísmo de Ben, que o faz se sentir no direito de fazer o que bem entende apenas por suspeitar de uma doença potencialmente limitante. Emerge então o hedonista, capaz de atropelar qualquer coisa em nome do prazer. Mas o hedonismo é um estilo de vida caro.

O que acontece com um homem que perde tudo

Michael Douglas

Onde foi que eu errei???

Como todo hedonista, Ben é uma espécie de viciado em sexo. Papa todas as meninas que aparecem em seu caminho, que representam, na verdade, seus troféus, suas Vtórias de Pirro sem esforço. Acontece que a desgraça espreita os incautos, e com Ben a coisa se desenrola de forma acelerada e abrupta. Depois de se tornar um grande adúltero, ele descobre que seu negócio vai à falência. Seria o fim da linha para o Tio Sukita, se o hedonista não fosse alguém que custa a abrir mão dos prazeres da vida, que é pródiga em lhe preparar armadilhas e oportunidades de ser menos inconsequente e valorizar o que tem.

Nesse momento, Ben, já um homem divorciado, namora uma mulher que pode ser uma ótima companheira, disposta inclusive a ajudá-lo a recuperar o que perdeu materialmente, Jordan Karsch, interpretada por Mary-Louise Parker. Fiel à sua filosofia de vida, Kalmen é teimoso e apegado ao prazer imediato. Não satisfeito em ter uma mulher que pode ser uma aliada e tanto, Ben decide, num momento de volúpia, investir em ninguém menos que a filha de Jordan, Alysson. As consequências dessa segunda grande falha serão desastrosas para o solteirão aloprado. Partindo desse ponto da trama, a casa para Ben literalmente cai. A namorada o larga e o torna persona non grata. A filha de Ben com Nancy, cansada não apenas da concupisciência do pai, mas de suas crescentes dívidas e fracasso moral, após diálogo pungente, decide abandoná-lo. Entra em cena o amigo de longa data, Jimmy, encarnado por Danny DeVito, que oferece abrigo ao já derrotado ex-hedonista. Num gesto de amizade, ele aceita o pedido de Kalmen por um emprego na lanchonete da qual é dono, localizada no campus da faculdade em que estuda a filha da ex-namorada Jordan. O campus é o epicentro da trama, cenário do tórrido envolvimento com Alysson e onde Ben passa divertidos momentos entre os jovens estudantes.

A espiral do fracasso e das novas chances

Diz-se que todo castigo para corno é pouco, embora, na expressão, corno pudesse ser perfeitamente substituído por "hedonista". Ben Kalmen, aparentemente vencido e no fundo do poço, quando começa a inspirar compaixão, se vê às voltas com a vingativa Jordan. Tomada pela dupla ira da mulher traída e que vê ameaçada a honra e integridade da filha, ela decide expulsar Ben de vez das imediações. Ela ameaça, inclusive, usar de sua influência para, se preciso for, recorrer até mesmo à força física, o que se revela necessário diante do pedido ignorado. É interessante a essa altura o diálogo de Ben com seu melhor amigo, em que ele revela ser um cético, e não acreditar nessa "história de amizade". Vale a pena prestar muita atenção a essa cena.

Podemos ter a impressão de que O Solteirão é uma comédia romântica, até pelos diálogos espirituosos e cheios de valiosos ensinamentos sobre a vida que o protagonista trava com Daniel, vivenciado por Jesse Eisenberg - o que fez o Zuckerberg - mas não é nada disso. A produção nos faz ter contato com a melancólica realidade de um homem largado, vítima de suas próprias vontades e que vai levando muita porrada até que a grande chance de recomeçar de fato apareça. O hedonismo corrente tem nesse filme um ótimo contraponto.

Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog, na parte de notícias ;-).
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Julio Benck