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Julio Benck

Se você leu até o final, significa que consegui captar sua atenção. Muito obrigado e, quando tiver um tempinho, acessa lá meu blog ;-)

Assisti Hateful Eight (Os Oito Odiados). E agora?

Resumir o resumo é a tarefa a que Tarantino, inventivo como sempre, se propõe, brincando com o oito, um numeral similar ao símbolo de infinito. Ele nos mostra que nenhum final é completo e que nenhuma história é fechada. Um diretor raro e digno das mais estudiosas análises.

Há algum tempo, publiquei aqui na Obvious Mag, esse prestigioso veículo do qual me orgulho em fazer parte, um artigo estilo resumão sobre o Tarantino, pegando um gancho no iminente lançamento de Hateful Eight, ou Os Oito Odiados, na tradução brasileira. Se você não acompanhou, vai lá e dá um confere, se assim convir.

Pois bem, assisti o filme, e como não poderia deixar de ser, há pitacos fervilhando. Mas antes, seria legal comentar o título da produção, talvez a sacada mais genial de todas do oitavo filme do mestre Quentin.

Vejamos: Hate, em português, é o verbo ódio, odiar. Full quer dizer total, cheio, completo. E eight, o numeral oito. Hateful, ora bolas, no idioma de Camões, significa detestável, então, temos a tradução imediata transcrita para nossa língua, além de foneticamente hate soar parecido com eight. Os Oito Odiados, ou detestados, seja lá o que for, é uma mensagem com um baita duplo sentido.

Por isso, falando de Tarantino, convém sempre termos muita calma e paciência, antes de tomarmos conclusões a respeito do que esse homem é capaz de fazer.

Como sugerido, o título não se vale apenas do que parece ser numa primeira leitura. É preciso reler, ter mais atenção e chegar às minúcias, como o próprio filme vai te sugerir, caso não o tenha assistido. Não se trata apenas dos oito caras que se reúnem numa cabana e revelam suas personalidades, mas sim da totalidade, full eight, camaradas. A obra de Tarantino está quase cheia e nesse filme corre sério risco, em tempos de ação escalafobética e de efeitos especiais explodindo cidades e países, parecer anacrônica, chata e deslocada.

Ele já disse a plenos pulmões que pretende encerrar a carreira quando exibir seu décimo filme. Se chegamos ao oitavo, está claro que o fim se aproxima, e que o consagrado diretor/produtor/ator/realizador/pica das galáxias encontra-se na curva descendente da sua trajetória. Trocando em miúdos, quase dando o que tinha para dar.

Então, o que tem demais nesse título?

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Nada é óbvio no cinema de Tarantino. Ele sempre dialoga com seu tempo, e, agora, a mensagem parece mais clara ainda. Paciência, calma, detimento, é o recado que ele aparenta querer dar com Hateful Eight. Um filme lento, de mais de duas horas de duração, das quais mais da metade são dispendidas numa longuíssima sequência de montagens em que quase nada acontece, a não ser muitos papos e o clássico blablabla. Dá pra encher o saco, se você nunca assistiu um filme by Tarantino ou não faz ideia do estilo do cineasta.

Mas, espere o creme. As coisas não se resolvem de uma hora para outra. Tudo tem explicação. E é isso, mais uma vez, que o louco do Tennessee (dois enes, dois esses e dois “e”, foda) quer nos dizer. Nada nesse mundo existe por si só, tudo tem uma explicação prévia, ou algo que o antecede. Tarantino diminui, propositalmente, o ritmo das piadas jocosas, a escatologia, a violência, a ação, em prol de uma intenção, que é fazer parar, pensar e analisar com mais calma as coisas. Num palpite, arriscaria dizer que tudo é reflexo da proximidade do fim e da idade pesando para o autor. O ciclo da vida se completando e a morte, esse elemento tão presente nos seus filmes, se aproximando.

Ao contrário da ensandecida loucura de outros filmes seus, Tarantino não vai nos conduzir à base de choques elétricos na sua oitava produção. Agora ele quer conversar (claro, em meio a algum sangue, sempre), e nós, que o acompanhamos por toda uma carreira, devemos ouvir.

Como todo gênio, ele vai falar e poucos entenderão o que quer dizer. Sua intenção talvez só seja realmente compreendida dentro de muitos anos, quem sabe apenas por uma parcela empertigada de acadêmicos dentro de suas faculdades, cheios de si e de seus títulos. Mas e daí? Ele sabe que já atingiu em cheio corações e mentes, e que sua influência dentro do cinema perdurará para sempre.

Não espere, em Hatefull Eight mais ação e mais “crash, boom, zaaas”, do que tem se visto no cinemão hollywoodiano. Tarantino sempre vai na contramão, como que alguém querendo nos dizer “há opções“. Ainda bem que existe Tarantino!


Julio Benck

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