escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

Saudade: parasita amarelo

Até que ponto você deixa a saudade dominar os seus impulsos?


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A saudade é um ser microscópico, amarelo e cheio de cerdas que flutua pelo ar junto com a poeira. Assim como um parasita, logo que pousa em sua vítima a faz de hospedeiro e então começa a causar estragos. Caminha pelo topo da cabeça se emaranhando entre os cabelos, faz rapel pelo nariz e chega à boca com uma rapidez incrível. Uma vez dentro da garganta o então ser vivo invisível a olho nu cresce desproporcionalmente e vai descendo goela abaixo, causando alto desconforto a vitima. Quem nunca teve um nó na garganta não sabe o quanto ele é incômodo e letal para os que sentem a falta de alguém.

Da mesma forma que um vírus, quando se multiplica e atinge os canais lacrimais opera uma superprodução de lágrimas e uma vez sem espaço e em abundância começam a brotar no canto dos olhos, fazendo com que a vítima precise de um lenço para evitar um fluxo escorrendo bochechas abaixo. As cópias do diminuto ser amarelo que chegam ao estômago causam grande rebuliço no meio dos alimentos semi-digeridos e contrações involuntárias no seu interior, seguidas de calafrios. O maior problema está no momento no qual o parasita se aloja no coração, alcançando sua dilatação máxima e desencadeando uma série de sintomas como, por exemplo, o aumento dos batimentos cardíacos e dores repentinas, ora de longa duração ora mais rápidas.

E foi nesse momento, de profunda simbiose com esse parasita, que ele reapareceu em sua vida. Pode-se dizer que a busca de um pelo outro foi fruto de uma noite insone e mal dormida, regada a canecas de chá e bolachas de água e sal. Eu sonhei com ele. Depois de todo esse tempo a imagem dele na minha cabeça foi mais nítida do que o meu próprio reflexo no espelho. Como isso é possível? Mesmo depois de um período de silêncio de ambas as partes, ela não deveria ter ficado tão surpresa quando o viu em seus sonhos. Como se fossem magnéticos, independente do tempo afastados acabavam por se atrair um em direção ao outro, mesmo que fosse para ficarem próximos por breve período.

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As semanas correram, os dias passaram e as horas dilaceraram seu coração já apertado com a saudade que se fez imensa ao passar do tempo, com as suas cerdas pontudas espetando por dentro e causando a maior das dores. Para exterminar o parasita já hospedeiro em seu corpo, tomou a única atitude possível para que pudesse sobreviver. Jogou algumas roupas dentro de uma mala de viagem surrada e caiu na estrada. Se essa era a condição para encontrá-lo novamente, não se arrependeria nem um minuto de dirigir ao seu encontro enquanto Bon Jovi entoava melancolicamente as notas de “(You want to) Make a memory”, abusando de seu timbre rouco enquanto os kilômetros iam ficando para trás. Nesses momentos nos damos conta do quanto a distância entre os lugares é relativa, pois quando se trata de alguma visita insignificante pode-se até chegar logo no destino, porém quando o intuito da viagem é a extinção de um parasita letal em constante multiplicação, os minutos podem se converter em horas.

Dores de cabeça e batimentos acelerados depois, ali estava ela descabelada e ansiosa estacionando (ou melhor, jogando ferozmente e sem escrúpulo algum) o carro em uma vaga perto da casa dele e descendo pela porta arranhada do motorista. E agora? Andou de um lado para o outro, inquieta, sem saber o que fazer depois de ter viajado até ali. Um toque na campainha resolveu sua incerteza e quando ele surgiu de dentro da casa para abrir a porta, atônito, soube que tinha feito a coisa certa. Os segundos batiam no seu relógio de pulso enquanto ele se aproximou e com um ar surpreso, porém feliz, a segurou perto de si em um abraço apertado e reconfortante. Nesse minuto o parasita se viu exterminado e sem possibilidade de sobrevivência, deixando o corpo de sua hospedeira sem titubear, pois estava sem saída. A cumplicidade naquele olhar falou por si só, e o sorriso dele, raramente visto nesses tempos difíceis, apareceu e ficou ali, estampado naquele rosto tão querido por ela. Não se separaria mais daquele abraço e assim, naqueles braços, decidiu ficar por hoje. Fariam de cada dia um novo “hoje”.

Se começarmos a pensar friamente, cada um de nós aloja uma quantidade infinita desses parasitas dentro do peito. Quanto mais tempo se passar sem eliminá-los, mais eles se multiplicam junto com a dor. Muitas pessoas que eu conheço já foram muito ousadas quando movidas pela saudade (assim como essa moça das últimas linhas): deixar o emprego, fugir de casa, mandar carros de declarações de amor com alto-falantes, e por aí vai. Um apelo por mais conversas francas e menos "deixar como está para ver como fica"! Sentiu saudades? Ligue. Se importa com alguém? Deixe isso bem claro.

E aos poucos vamos matando um a um os parasitas que nos infestam por inteiro...

*Imagens retiradas de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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