escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

"Eu te amo." "Hum... Obrigado."

O que se tornou o relacionamento amoroso? Se você conhece alguém que já disse ou ouviu um "obrigado" depois de um "eu te amo" engasgado sabe o quanto ele é doloroso. Uma provocação em favor de entender esse medo constante da rejeição e de nos envolvermos emocionalmente com alguém.


Quem nunca amou sem ser amado que atire a primeira pedra! Verdade seja dita, cada um de nós precisa de um tempo diferente para se envolver com uma pessoa. Imagine que você acabou de conhecer alguém. Quanto tempo leva para você poder dizer com todas as letras que está apaixonado? Boom! Isso varia. Os que acreditam no amor a primeira vista que o digam! Porém, vemos no nosso dia-a-dia casais que após uma semana juntos já declaram a plenos pulmões que amam um ao outro, com mensagens intermináveis nas redes sociais munidas de fotos e muitos coraçõezinhos. Certo. Pausa.

Qual a diferença entre estar apaixonado e amar uma pessoa? Não sou grande estudiosa do assunto mas posso dizer com alguma segurança que se apaixonar é, como diria o grande Luís de Camões, "um fogo que arde sem se ver", é um flash quando comparado a duração de um relacionamento. Ah, mas o amor? O amor, caro colega, é um sentimento que chega de mansinho e vem abrandar toda a chama de estar apaixonado. É sorrateiro, leva tempo para se solidificar e é construído um dia após o outro, é conquistado a cada beijo, abraço, gesto, briga, reconciliação e assim por diante. Vejo e sinto o amor quando olho para meus avós, já tão velhinhos e juntos há mais de cinquenta anos. Nesse meio tempo criaram cinco filhos, ergueram uma casa com cada um recebendo seu salário mínimo e ainda conseguiram ter um cão labrador que viveu quase quinze anos. Cumplicidade. Se fosse possível resumir esse sentimento (o que, infelizmente, não é) diria que essa seria uma das minhas primeiras apostas.

padlocks-337569_1280.jpg Os famosos cadeados do amor colocados por casais apaixonados, tradicionais em cidades como Paris.

Já que cada um precisa de um tempo diferente para aceitar o outro em sua vida integralmente, é preciso tolerância para lidar com as divergências de opinião e sentir qual o timing do relacionamento. Às vezes pode ser assustador fazer declarações de amor muito cedo, e assim deixar a outra pessoa sem graça e sem saber o que fazer e dizer em retorno. Errado mesmo só é iludir alguém, dando esperanças de um compromisso quando a parte menos interessada está em um momento em que quer sair para baladas com os amigos, se envolver com várias pessoas ao mesmo tempo e viver experiências que não favoreçam a vida a dois.

Quer um exemplo mais clássico e memorável do que a conversa presente no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's - 1961) entre Holly Golightly (Audrey Hepburn) e Paul Varjak (George Peppard), quando Paul entra na biblioteca em que Holly está lendo um livro e pede para conversar com ela, e diante da recusa da moça de sair de lá para conversarem acaba então soltando um (aparentemente) impulsivo "Eu te amo!" para depois não ouvir nada além do silêncio de Holly? É tão real que inclusive no cinema e na literatura podemos ver situações parecidas. Por que não lembrar da premiada série Big Bang: A Teoria (The Big Bang Theory - 2007), especificamente da cena cômica em que a personagem de Leonard Hofstadter (Johnny Galecki) diz à sua parceira Penny (Kaley Cuoco) que a ama? Para a surpresa dos espectadores a moça começa a piscar mais rápido e exclama "Obrigada!", visivelmente desnorteada por não esperar esse tipo de declaração.

A personagem de Leonard deixou claro no episódio que sentiu medo da rejeição de Penny após dizer que a amava. Quem nunca a sentiu? De acordo com a minha opinião, esse receio de não sermos aceitos existe não só em relação ao amor, mas de um modo geral. Tememos a desaprovação, e assim erguemos muros bem altos ao nosso redor para que ninguém possa ultrapassá-los (pelo menos não sem o nosso consentimento).

Por que precisamos agir assim? Para nos protegermos da mágoa, desilusão e de ter (mais uma vez) o coração partido. Leva tempo, pede calma e colo esse tal sentimento chamado amor que nasce de um singelo gostar. Não se pode querer apressar algo natural, como uma flor ainda em botão, esperando o momento certo de desabrochar. Para sabermos como funciona nosso coração não há outra forma melhor que a "tentativa e erro", nos refazendo e reerguendo a cada tropeço, para podermos acreditar na cumplicidade que uma vida a dois pode oferecer. E assim, se nos conhecermos e cultivarmos cada vez mais o amor próprio, teremos menos "obrigado!" e mais "eu também te amo."

E para encerrar, nada mais justo que as palavras de um grande mestre português do movimento modernista, Fernando Pessoa (1888 - 1935):

"Enquanto não superarmos

a ânsia do amor sem limites,

não podemos crescer

emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos

a dor de nossa própria solidão,

continuaremos

a nos buscar em outras metades.

Para viver a dois, antes, é

necessário ser um."

*Imagem retirada de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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