escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

Julgue um livro (só?) após lê-lo

Uma discussão do chavão “não julgue um livro pela capa” aplicado aos tempos modernos. Quanto tempo você leva para formar uma primeira impressão sobre alguém?


Quando entro em uma livraria, esteja eu sozinha ou acompanhada, sinto como se estivesse em uma degustação de bolos. A cada estante que passo, engordo algumas gramas. Cada um dos livros, com as diversidades de capas, texturas e paginação representa para mim um passeio por entre os bolos, antes de degusta-los. Ao passo que abro um deles, a experiência de degustação começa. É tanta variedade, são tantas possibilidades, que na maioria das vezes não sei ao certo por onde começar. Isso na verdade não é um problema, pois quem bem me conhece sabe que quando entro em uma livraria (meu solo sagrado), as horas passam como se fossem minutos e devo ser tirada de lá apenas (quase) a força ou por um motivo realmente importante (como o shopping estar fechando, por exemplo).

Quando escolho os livros que levarei para casa dou início a um processo em etapas:

1- O que mais chama a atenção quando o pegamos da prateleira? A capa. As cores, a fonte usada no título e subtítulo, o desenho ao fundo (quando há algum);

2- Após termos gostado da disposição e balanço de cores e letras na capa, o que nos convence a arriscar a leitura? A contracapa. A breve descrição da história (seja ela narrativa ou não), ou uma explicação sucinta sobre o que se trata o livro;

3- O cheiro das páginas. Acredite, cada livro novo tem um cheiro único e peculiar, devido ao tipo de impressão e papel com o qual foi feito. Isso faz de cada um deles especial.

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Uma vez transpostos esses três passos eu escolho marcadores de páginas grandes e coloridos, e dou início a minha leitura. Quando ouvimos o ditado “não julgue um livro pela capa”, sou imediatamente remetida a toda essa minha experiência com livros, para então aplica-la às pessoas. Por que temos tanta dificuldade em não utilizar apenas a capa para percebê-las e senti-las? Seria hipocrisia dizer que a capa não importa, pois assim como nos livros, é a primeira impressão a que temos acesso, bem antes de sequer imaginarmos qual será seu conteúdo. O que nos impede de virá-lo e ler um pouco da contracapa, para então começarmos a emitir impressões e opiniões sobre ele?

No momento em que conhecemos alguém a aparência da pessoa nos salta aos olhos. Vamos então observar os cabelos, os olhos, o formato da boca, os dentes, os ombros, as mãos, o que está vestindo, o que tem nos pés e assim por diante. Querendo ou não, formamos um pré-conceito sobre essa pessoa, pois ainda não a conhecemos, e a partir disso colocamos rótulos. Patricinha. Filhinho de papai. Rebelde. Ladrão. Vagabunda. Desocupado. E uma vez rotuladas, muitas vezes esquecemos de considerar a “contracapa das pessoas”. Quem é aquela moça que você rotulou de patricinha? Essa da sua turma da faculdade, que usa roupa de marca e faz um rabo de cavalo com o cabelão longo e liso? O que ela faz fora dali? Será que ela é patricinha mesmo? E se for, qual o problema que você tem em relação a isso?

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E então você começa a conversar com a patricinha do cabelão liso e descobre que ela gosta de jogar xadrez. E toca violão. E é órfã de pai, trabalha meio-período e sofre para conseguir pagar a faculdade todo mês porque sua mãe é uma costureira aposentada. Cada uma das roupas de marca que usa foi comprada com o cartão de crédito em várias parcelas. Cada uma delas paga, apenas pelo fato de ela gostar de ser (nas palavras dela) “arrumadinha”. De repente não parece mais tão patricinha, não é mesmo? E a imagem que você tinha construído dela se desfez e refez novamente, pois o livro foi aberto. Já passou o prólogo. Chegou ao capítulo 3: “O primeiro emprego”, e descobriu que aos dezessete ela precisou conseguir um trabalho no turno da noite de uma loja de sapatos para ajudar a pagar as contas. A família não ia bem das pernas após a morte do pai e sua irmã era ainda muito jovem para trabalhar. Chegou desvairado ao capítulo 8: “O ex-namorado”, fechou o livro com um baque. Não, ainda não preciso saber sobre isso. Só sei que ela não é uma patricinha. É uma pessoa... Fantástica.

Quando já passamos da metade do livro, ou seja, quando os anos já correm como um rio fluido e não nos lembramos mais exatamente quanto tempo faz que conhecemos determinada pessoa, não há mais volta. Em que ano nos conhecemos? Você lembra? É, nem eu... Poxa, só sei que faz tempo. Vamos tentar lembrar juntos... Entramos na faculdade em 2010 e eu comecei a conversar com você uma vez durante a aula. Seu cabelo era longo, lembra disso?

Já sentimos em demasia o cheiro das páginas dessa pessoa. Essa sensação já está posta dentro de nós. Como em uma degustação de bolos, o sabor, o cheiro e a textura deles ficam impregnados na nossa memória e qual o mal disso? Nenhum. Prove muitos bolos, leia muitos livros, ou seja, conheça muitas pessoas. Mas espere pelo menos terminar a leitura de alguns (poucos ou muitos, isso depende de você) capítulos para dar sua opinião sobre alguém. Assim cometerá menos injustiças e julgará um livro não apenas pela sua capa, mas pelo conteúdo rico que carrega nas linhas de suas páginas cheirosas.

*Imagens retiradas de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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