escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

Eu, professor?

Você é tão inteligente e capaz, por que não estudou para seguir outra profissão? Escolheu mesmo passar todo esse tempo na faculdade para não ter retorno financeiro à altura? Está pronto para ter dois ou mais empregos? Se você é professor e nunca ouviu nada parecido temo dizer que está habitando um planeta (ou país?) diferente do meu.


Professor, mostra sua fibra! Escolher ser docente no Brasil, na atualidade, se assemelha a se preparar para entrar em uma batalha. Colocamos nosso colete protetor, penduramos vários pentes de balas no ombro, carregamos as armas e amarramos uma faixa preta na testa, estilo Rambo. Mas isso tudo é para eliminar os alunos? Não. É para eliminar os fatores externos que eliminam os alunos das salas de aula. Prontos para mais um dia de luta e com o plano de aula na pasta, saímos ao sol, ao luar, à chuva, ao frio, ao vento ou até mesmo à neve para chegar à sala de aula. Encontramos alunos desmotivados e sonolentos, que não fizeram a lição de casa. E nesse momento, caros colegas, o professor vira um ator, cantor, membro de stand up comedy, mímico e intérprete para dar vida à aula que ele colocou dentro da pasta antes de sair de casa. Se cansa, perde a voz, enche a lousa, lida com os bocejos e desinteresse de alguns e chega ao final da aula como se tivesse corrido uma meia maratona. A recompensa disso? Ver seu aluno sorrir, dizer que entendeu, tirar uma nota boa na prova, conversar com os seus colegas dizendo que gosta da nossa aula.

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O trabalho seria mais gratificante (e reconhecido?) se não fossem as tantas pedras no caminho que, por vezes, nossos próprios colegas de profissão nos impõem. Nunca vou me esquecer de quando estava ainda no Ensino Médio e contei para minha professora de química que seguiria a carreira da docência, focando no ensino de inglês... Qual não foi a minha surpresa quando ela, com voz de desdém respondeu: “Ah, Paula... Mas você é uma menina tão inteligente, porque vai fazer Letras? Você poderia aplicar toda essa sua capacidade em outra área mais fértil.” Não preciso nem dizer que na minha inocência de 17 anos, não consegui elaborar um pensamento ofensivo à altura para retrucar, mas afirmo que se ouvisse algo parecido atualmente, minha resposta iria muito além de um sorriso amarelo. A geração anterior à minha viu a educação no nosso país com outros olhos, e talvez se não houvesse o interesse de alguns em nos desmotivar a seguir essa carreira, poderíamos então vislumbrar uma melhoria no ensino de um modo geral. Um passo de cada vez. Pais e avós aprenderam francês na escola pública e também a organizar as finanças em um caderninho (sim, isso costumava ser uma matéria), não estudavam em escola particular por não haver necessidade, dado que o ensino público ainda era de qualidade e de fato preparava os alunos com os conhecimentos básicos necessários.

Nos dias de hoje temos uma realidade muito diversa. Francês? Não tem mais na escola. As gerações que vieram depois não sabem nem sequer falar oui. E ainda por cima ouvi dizer que há a intenção de tirar o inglês da grade curricular nos próximos anos. Depois dessa nem vou comentar sobre aquela matéria para ensinar a organizar as finanças, já sabemos o que foi feito dela... A escola pública começou a ser sucateada aproximadamente no final dos anos 70 e houve o aumento em número das escolas particulares, que começaram a receber alunos cujos pais tinham condição de pagar pelas mensalidades (sendo encarecidas em progressão aritmética). O que esperar de escolas com muito pouco ou nenhum investimento por parte do governo em termos de valorização do professor? Sim, um professor da rede pública nos dias de hoje ganha um salário muito menor do que deveria ganhar e trabalha muito mais do que deveria trabalhar. A isso soma-se a insalubridade, os problemas físicos atrelados ao desgaste da profissão como a perda auditiva, por exemplo. Será que, só pelo fato de incentivar o pensamento criativo e ajudar na formação das pessoas, já não deveria o professor ser mais valorizado no nosso país? Claro, há tantas outras profissões de mérito no Brasil que são pouco pagas... Mas será que todas elas existiriam sem um professor que os ensinasse a exercer suas funções?

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Participar da formação de uma pessoa, seja em qual matéria for, desde educação física até biologia, é algo muito emocionante e não há palavras para descrever o que sinto quando acordo de manhã e me lembro que posso fazer parte (pequena, mas válida) da mudança dos paradigmas da educação. Quando comecei a faculdade decidi me tornar professora de inglês. Desde que comecei a estudar línguas estrangeiras eu desenvolvi profunda admiração pelos professores que tive e um carinho imenso em especial pelo inglês. Quando comecei não fazia ideia do tamanho do desafio, das dificuldades que enfrentaria em sala de aula e do quanto teria de estudar para lecionar. Além disso, nem imaginava naquela época como seriam os alunos que teria. Agora, 7 anos depois, posso dizer que ri, chorei, me frustrei e fui vitoriosa, planejei aulas mirabolantes que deram muito certo... E que deram muito errado também. A cada ano que passa eu me sinto mais preparada para honrar essa faixa preta (de Rambo) que uso na testa antes de entrar em sala de aula e assim poder sempre buscar um degrau a mais.

Então, na próxima vez em que perguntarem “Mas você não trabalha, só dá aula?”, sorria, conte até 10 e responda: “Não apenas dou aula, também estou trabalhando para melhorar a educação no país. Um passo de cada vez. E assim nossos filhos e netos poderão, quem sabe, receber uma educação melhor do que a nossa. Agora com licença, preciso corrigir provas.”

*Imagens retiradas de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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