escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

O Doador

Discussão sobre o a obra ficcional de Lois Lowry e seu potencial metafórico. Será que, assim como na história, aceitamos as determinações feitas para nós e como gado manso as acatamos sem questionar? Qual a diferença entre viver e meramente existir?


Um contexto futurista, não se sabe bem quão no futuro a história se dá. A sociedade era organizada e seus cidadãos recebiam através de um comitê de decisão qual seria sua função nela, baseada em observações do seu comportamento e preferências pelas atividades rotineiras. Havia os mais diferentes cargos, desde os que cuidavam da nutrição dos bebês recém- nascidos, dos idosos até o da recreação infantil. Cada aniversário da criança era premiado com um artigo novo, para mostrar a todos na comunidade o seu desenvolvimento, como por exemplo, aos 9 anos cada cidadão recebia sua bicicleta. Não havia pânico, preocupação com comida, dor aguda que não fosse aliviada por medicamento e acima de tudo, não se desenvolvia sentimentos.

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Opa. Como é? Isso mesmo. As pessoas não conheciam ou tinham sentimentos profundos uns pelos outros, como amor, raiva, ódio, e apenas se deixavam levar por sensações atenuadas deles. Gostavam das pessoas da sua unidade familiar, sentiam impaciência nas tarefas diárias e desgosto quando caíam das suas bicicletas à caminho do trabalho. Quando um homem quisesse ter uma esposa poderia se cadastrar no processo e receberia uma mulher que também estava disposta a um relacionamento e quando ambos quisessem um filho bastava se inscreverem para então serem encarregados da criação de no máximo dois. Nesse ínterim conhecemos Jonas, um garoto que beirava a cerimônia de completar 12 anos de idade e receber sua função na sociedade. Seus colegas da mesma idade receberam funções comuns como arquitetos, encarregados de idosos, ou de bebês, recreação, jardinagem, entre outros, mas durante o processo seu número foi pulado. Será que teriam se esquecido de mim? Um pouco de suspense depois, descobrimos que a tarefa a qual Jonas foi designado foi Doador de Memórias.

A verdade é que nesse contexto as pessoas comuns não guardavam as memórias de gerações passadas, das experiências que tiveram, do bom e do ruim. Elas eram poupadas. Para não sentirem dor ou desconforto. E toda essa responsabilidade, de ser o guardião de todas as memórias das gerações passadas, era depositada no Doador de Memórias. Jonas fica inquieto ao descobrir tudo isso e impaciente com o seu treinamento, que seria com o Doador anterior a ele, um senhor de idade que já frequentava a Casa dos Idosos (os idosos, uma vez que já tinham cumprido suas obrigações e designações para com a sociedade eram levados para lá para que fossem cuidados e devidamente respeitados). Pouco a pouco Jonas recebe do Doador as memórias, como por exemplo, de neve caindo, de uma Ceia de Natal com bastante comida e troca de presentes entre a família, uma escorregada de uma montanha coberta de neve em um trenó. Porém, como sabemos, nem só de memórias boas se faz a história do homem, e o Doador também transmite a Jonas memórias de dor, guerra, sofrimento, fome, sede e frio, sentimentos que ele próprio nunca havia experimentado dentro do regime de Mesmice implantado pelos coordenadores da sociedade. Uma vez munido de memórias tão poderosas do passado dos homens, Jonas começa a se perguntar como seria o mundo fora de onde estava. Em outro lugar. Em outra sociedade, se é que havia alguma. Seria a ignorância de fato uma bênção, como o ditado popular propõe?

memory-771967_1280.jpg "Cada momento pode ser uma memória."

Pensar. Jonas começa a pensar. Efetivamente pensar. E o momento em que ele começa a questionar a si próprio e ao sistema que o governa é decisivo no rumo da história. Esse momento em especial serve de inspiração para pensarmos no quanto nós nos resignamos com as situações e muitas vezes ficamos desencorajados a agir. Será que sermos poupados das lembranças ou então dos fatos presentes nos faz bem? Sentir dor e desconforto obviamente não é o desejado, porém se colocarmos em uma balança, o quanto crescemos interiormente na adversidade e na felicidade percebemos que não se aprende tanto assim dando risadas. As dificuldades nos arrancam da zona de conforto e nos fazem repensar todo o impensado até o momento. Isso é exatamente o que acontece com o garoto Jonas ao sair da Mesmice e aprender com as memórias como os hábitos do mundo passado eram diferentes dos que conhecia e aceitava de forma pacífica.

Sem dúvida alguma a memória de um floco de neve caindo é mais agradável do que uma trincheira de guerra, pergunte a Jonas. Porém a memória que o fez se rebelar contra a forma como a sociedade era coordenada com certeza não foi a da neve. Dor. É ela que move as pessoas para fora do casulo. Enquanto tudo está bem, lindo e maravilhoso porque me mexer? Por que fazer alguma coisa quando estou confortável? Quando chegar a hora de resolver um problema, por pior que pareça ser, busque a sua força e equilíbrio interior, converse com pessoas que ama e confia, entenda o quanto tudo é efêmero e que se a felicidade não é eterna não há motivo para a dor ser. Permita-se metamorfosear. Cada experiência sua molda quem você é, mas quem você decidirá ser depende só e exclusivamente de você. A ignorância então, é sim uma bênção, porém se torna um fardo quando o conhecimento acerca de algo o tira da escuridão.

*Primeira imagem utilizada meramente para fins de divulgação (Título original: The Giver Copyright © 1993 por Lois Lowry Copyright da tradução © 2009 por Editora Sextante Ltda) e segunda imagem retirada de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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