escrevi cotidiano

Sobre o dia a dia, artes, cinema, música e relacionamento humano

Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres.

Pessoas são como música

Você, eu, seu vizinho e até mesmo seu chefe somos diferentes em vários aspectos. Por que não nos comparar à música? Cada particularidade é uma nota na partitura de cada um.


Outro dia estava parada no portão de casa, à toa na vida e esperando a banda passar e talvez por ser um raro momento da vida em que não tinha muito o que fazer eu parei para prestar atenção na minha vizinha. Avental (que um dia foi branco) engordurado amarrado com descuido em sua cintura, chinelos de dedo que batiam de um lado para o outro ecoando a barulheira de seu falatório incessante. Ela, com certeza, seria uma música agitada, se música pudesse ser. Seu cabelo vermelho e estridente embaixo do lenço de bolinhas seria a parte das notas mais agudas e os momentos de calmaria em que lava os pratos sujos do almoço, as mais graves e sérias da música que é ela toda.

Há pessoas de quem gostamos mais, com personalidades que se encaixam com mais harmonia à nossa, a fala é suave e o riso fácil. Com essas pessoas pode-se até fazer um mash-up, e mesmo assim, as letras e ritmos conversariam entre si sem dificuldade, criando uma música nova estilo Frankenstein, parte daqui e outra parte dali. Pessoas assim como aquele amigo de faculdade com quem costumava passar todos os dias e qualquer programa parecia ser o máximo, desde o barzinho na esquina até escalar montanhas no inverno. Acredito que a palavra chave quando se trata de música é harmonia. Para tocar uma música corretamente é preciso respeitar o tempo de cada nota, observar quais serão naturais, sustenidas e bemóis e prestar atenção no encadeamento delas no decorrer da música. Já que pessoas podem ser vistas como música, é impossível gostar de todos os gêneros musicais, mesmo o mais eclético dos seres humanos possui uma preferência quando liga o rádio. É impossível gostar de todas as pessoas, basta nos esforçarmos para entender as nuances de cada uma, as notas mais agudas e graves e cada oitava que compõe personalidades.

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Assim como nossa melodia não é monótona do começo ao fim, é esperado que passe por modificações pelo meio do caminho. Pense o quanto seria chato ser sempre o mesmo, ter as mesmas ideias e não aceitar novos conceitos! Sábias palavras de Raul Seixas quando afirmam "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo." É saudável decidir trocar de instrumento, de músicos e até mesmo mudar a banda toda se em dado momento perceber que não se convence mais pelas ideias antigas. Recomendaria também a todos passearem por vários gêneros musicais antes de definir qual o representa, a variedade é tanta que seria um tremendo desperdício de oportunidades se fechar em apenas um, nascer e morrer sendo rock internacional, por exemplo. Aquele que ainda não desfrutou de blues, jazz ou até mesmo MPB e axé realmente não está a par dessa diversidade tão linda chamada música!

Nasci pop rock. Fui escrevendo minhas notas pela pauta musical e quando me tornei adolescente fui totalmente punk rock. Durante a fase da adolescência descobri tantos outros gêneros musicais que não sei mais qual escrever na minha pauta. Ela está uma confusão de notas fora de harmonia, não sei mais o tom em que devo tocar e nem sequer me encontro na clave de Sol ou de Fá. Quando a indecisão tirar seu foco, escolha o ritmo mais adequado para o momento no qual está. Se o momento pedir um samba, sambe suas notas com a alegria de um passista. Caso esteja em uma agitação muito grande, talvez seja uma boa ideia investir em heavy metal. Mas se estiver em um momento pacífico da vida a melhor ideia pode ser recostar em uma poltrona macia com uma xícara de chá quente entre os dedos vacilantes e brincar nas notas de uma música clássica. Cada fase pedirá um arranjo diferente, o mestre da sua composição é você mesmo.

E então, a cada pensamento diferente haverá rasuras na sua pauta. A cada mudança de ideia, um borrão impaciente. O importante é lembrar que sempre haverá mais páginas para serem viradas no seu caderno de partituras, apenas esperando para serem preenchidas com a música mais incrível: a sua.

*Imagem retirada de domínio público.


Paula Cremasco

Professora de inglês formada em Letras e apaixonada pelas artes. Escrever é um lazer desde a infância e devido a isso, tudo pode se tornar um bom tema. Acredita fielmente que o bom humor e um sorriso largo fazem milagres. .
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