escreviagem

Para compreender as entrelinhas há que viajar no trânsito das opiniões.

Klash

Turismóloga e entusiasta da escrita. Inconformada por natureza, cheia de opiniões formadas e em formação. Adora dar pitacos onde não foi chamada e odeia escrever dela mesma na terceira pessoa

A TRUPE CHÁ DE BOLDO TEM MUITO A DIZER

A Trupe Chá de Boldo foi uma excelente descoberta. Apesar de já estarem trilhando essa estrada há anos, chegou aos meus ouvidos recentemente como uma grata surpresa e é com muito prazer que compartilho minha opinião e os convido a compartilhar as suas.


Banda paulistana, com 10 anos de estrada com seu último álbum lançado no início de 2015, formada por 13 integrantes, a Trupe não tem gênero definido e por ter tantas influências seria leviandade definí-los. Além de uma musicalidade inquestionável, que vai desde o samba à guitarrada, os vocalistas mostram ser intérpretes, colocam sentimento no que dizem. Esses profissionais sabem o que estão fazendo com suas vozes e instrumentos, inclusive em suas composições. Mergulhados na atualidade, falam bastante de amor e seus conflitos com inteligência e poesia, o mesmo fazem ao questionar a cultura de consumo.

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Para saber se gosta ou não, o melhor que pode fazer é escutá-los. Em seu site oficial permitem o download de todos os seus álbuns gratuitamente nesse link, o que reforça as letras de algumas de suas músicas que criticam a cultura consumista já impregnada em nossa sociedade. Em “Diacho” perguntam o porquê de tanto Dior, tanto Armani, tanta Prada se “...o melhor da vida a gente faz sem renda, se renda ao calor, se renda”. É um convite a rever os próprios valores, em como não se pode colocar um valor monetário ao melhor da vida.

Ainda nessa temática, em “Meu Tesão É Outro”, a composição está voltada para a situação que qualquer mulher, e alguns homens, já viveram, sabe aquele sujeito que acredita que seu poder financeiro seja sua melhor arma de sedução? Que tenta conquistar alguém com seu poder de compra. Com seu status. Mas é claro que existe razão em existir esses tipos, já que há quem, literalmente, venda seu tempo e afeição em troca do que o dinheiro e o status podem proporcionar, e se o valor dele está no dinheiro é exatamente esse tipo de pessoa que irá atrair. O que a canção traz à reflexão é que quem age dessa maneira só poderá atrair a atenção daqueles que capitalizam o próprio sentimento. Mas para aquela que canta não sobram dúvidas no refrão “Pode tentar, pode tentar, vai ficar só na ostentação” que ela está rindo, e rindo muito, das crenças e valores do sujeito com carrões e mansões, mas não para por aí, ela e explica também o porquê: “O que me tenta é o téte-a-téte, tente algum outro refrão, eu não sou o seu tesouro, ‘Cê não é o meu tesão”. Para quem quiser curtir, logo aviso que o refrão não sai da cabeça.

Em “Bárbaros” o trecho final nos dá um vislumbre do que seria um espírito livre: “enfie uma faca no meu peito, mas não uma bandeira no coração”. O coração não pode ser território de ninguém e por isso não pode ser regido por leis, na frase inicial diz: “Não vem querer botar lei no meu coração”. Trata-se de desapego, não de desamor. Amor incondicional está mais próximo disso do que muitos poderiam supor, pois ao tomarmos o outro como posse, ao querer estabelecer regras, diminuímos nosso sentimento exponencialmente pelo que genuinamente nos fez despertar o próprio sentimento amoroso.

Em sua mais divulgada e conhecida canção, “A Garrafa”, afirma que “não quero gota, quero você gostoso todo na garrafa” e ainda “não quero ponta, quero você feito fumaça na minha boca” e tudo “pra ver se chapa”. Metáforas interessantes em se tratando de amor. Clara alusão ao álcool e à maconha, ou a ponta de outra coisa fumável, mas acredito não ser o caso. Parece mesmo que suas composições contam com o ingrediente Hipocrisia Zero, o que os torna mais interessantes e menos comerciais.

Em “A Vida Que Te Beija” enfatiza e incentiva o ato de se entregar: ”Em busca de beleza, corre, anda, rasteja, só não deixa fugir a vida que te beija. Vem cantar como quem resiste, resistir como quem deseja”. Em tempos de joguinhos de amor, nos fala em como é bobo priorizar seus medos e orgulhos em detrimento de sua felicidade.

Dando unidade a esse pensamento a canção “Se Eu For Parar” diz: “Exito, não canto, nem rio, nem vou, se eu for parar pra pensar.” Valorizando a impulsividade, um pouco à la Chico Buarque como “...aja duas vezes antes de pensar...”, a Trupe coloca em pauta muito do sentimento sufocado pelas regras e padrões sociais, nos alerta que a vida está sendo levada à sério em demasia, sobrando pouco espaço para que expressões verdadeiras e espontâneas possam se manifestar. Entre outras tantas canções é uma banda notável, pela sua maneira de expor ideias, na unidade que existe entre suas obras e com muitas verdades poetizadas sem censura. Um som para fazer refletir, mas principalmente se divertir. Bastante dançantes e originais trazem para a cena musical algo diferente.

Pode-se dizer que o Brasil tem as melhores e as piores músicas do mundo, desde a rica MPB até as profundezas dos proibidões dos bailes funk. No meio do caminho estão aqueles artistas comerciais que conquistam massas com seu carisma e produção, fechando o pacote com suas letras rasas, a novidade é sempre mais do mesmo, as rimas caídas “que vida boa, sapo caiu na lagoa”, ou “o nosso amor é azul como o mar azul” “caraca, moleque, que isso”, todas cantadas em coro em algum MegaShow. Toda essa infestação de músicas sem mensagem alguma está a sufocar o cenário musical brasileiro. Sem ofensas aos referidos artistas, mas estamos precisando de composições mais profundas, pensadas, criativas e com alguma poesia.

A Trupe Chá de Boldo foi uma excelente descoberta. Apesar de já estarem trilhando essa estrada há anos, chegou aos meus ouvidos recentemente como uma grata surpresa e é com muito prazer que compartilho minha opinião e os convido a compartilhar as suas.


Klash

Turismóloga e entusiasta da escrita. Inconformada por natureza, cheia de opiniões formadas e em formação. Adora dar pitacos onde não foi chamada e odeia escrever dela mesma na terceira pessoa .
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