escreviagem

Para compreender as entrelinhas há que viajar no trânsito das opiniões.

Klash

Turismóloga e entusiasta da escrita. Inconformada por natureza, cheia de opiniões formadas e em formação. Adora dar pitacos onde não foi chamada e odeia escrever dela mesma na terceira pessoa

O ABISMO CULTURAL E A POLÊMICA DE CRISTIANO ARAÚJO

Sobre o abismo cultural refletido na comoção nacional de um artista conhecido por muitos e desconhecidos por muitos outros, o famigerado Cristiano Araújo.


Nenhum brasileiro frequentador de redes sociais, espectadores de TV e ouvintes de rádio ficaram sem saber quem foi Cristiano Araújo nos últimos dias que sucederam o falecimento do cantor. Mas antes disso...

Bem, a polêmica já deve ter chegado aos seus ouvidos, ou timeline, muitos brasileiros, como eu, não sabiam quem era aquele que estava sendo noticiado de maneira insistente, mas fizeram com que conhecêssemos. A polêmica se deu quando a indagação de quem seria o referido cantor que mobilizou tanta gente foi entendida como ofensa pessoal. É verdade que muitos foram mesmo desrespeitosos, mas muitos fãs também caíram numa de retrucar com ofensas e fica todo mundo errado na história.

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O abismo se dá justamente nesse ponto. O apresentador Zeca Camargo foi extremamente criticado por seu texto, fui ouvir, acho que ele pediu para ser esculachado mesmo. Houve um tom arrogante em seu discurso, deu sugestões de quem deveriam ser nossos ídolos, alguns até posso concordar, outros nem tanto, fez ainda uma infeliz comparação com os livros para colorir e uma exposição desnecessária da opinião pessoal sendo ele uma pessoa pública. Mas não pude deixar de concordar com algumas questões levantadas em seu texto.

Entre os que amam e os que nem sabiam de sua existência criou-se um clima tenso. O fato é que o falecimento do rapaz ganhou um peso desnecessário, desrespeitoso de ambas as partes. Rebobinemos um pouco mais a linha do tempo, lembra do MC Daleste? Não? Nem eu! Não sei cantar uma única música. Era um cantor de funk ostentação que morreu assassinado, de fato, não aprecio o gênero, mas houve um mimimi onde quem não conhece quer sempre criticar e quem gostava se ofendeu e respondeu com mais ofensas. Polêmica bola de neve que ignora as reflexões e alimenta a discórdia.

Para falar sobre o cantor, pesquisei um pouco (pouco mesmo, não me aprofundei), não gosto do gênero, então me ative ao que diziam as letras de algumas de suas músicas, o que encontrei foram rimas fracas, algumas falando de amor ou paixão, outras de muita pegação, xaveco de sedutor barato, outras para dançar mesmo porque a letra nem sentido fazia e ainda fez algo chamado de serta-funk ou funknejo, não tenho certeza. Você não precisa ver isso, é sério! Mas se quiser digite o nome do cantor no youtube que encontrará.

O que as letras tinham em comum eram as palavras todas simples e de fácil compreensão, pouca ou nenhuma poesia, não desperta interpretação, é mesmo um papo reto, sem curvas, sempre rebolantes ou beirando o romântico-brega de pouco vocabulário. Não acredito ter sido uma grande contribuição em se tratando de obra artística, mas também respeito quem discorde de tudo isso. Também tenho gostos que muitos julgariam duvidosos e os entendo, mas continuo curtindo meu som, sem me ofender com quem não conhece ou desgosta. Existem até argumentos válidos para me convencer que algo que curto não seja bom, mas se a música me toca de alguma maneira, seguirei incluindo na minha playlist sem o menor pudor e independentemente de qualquer opinião.

Para elucidar o que quero dizer quanto à interpretação de letras e basear meu posicionamento, vou fazer comparativos pautados na MPB, que é uma de minhas preferências pessoais e não necessariamente a melhor opção para todos, comparativo injusto, é verdade, mas suficientemente claro para exprimir do que realmente se trata esse abismo cultural refletido nos gostos populares.

Sobre o apego:

Cristiano Araújo “...Você vai ficar em mim/Pode crer, não dá pra esquecer/Um amor tão forte assim/Quando vem, faz a gente se perder...”

Chico Buarque “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem/Que é pra te dar coragem/Pra seguir viagem/Quando a noite vem...”

Falando ao velho amor sobre o novo amor:

Cristiano Araújo “...Foi ela quem me ajudou a levantar quando eu caí/Foi ela quem enxugou as minhas lágrimas, me fez sorrir/Ela me aceitou do jeito que eu sou/E é com ela que eu estou...”

Vinícius de Moraes “...Agora vá sua vida como você quer/Porém, não se surpreenda se uma outra mulher/Nascer em mim, como no deserto uma flor/E compreender que o ciúme é o perfume do amor...”

Sobre a “sofrência”:

Cristiano Araújo “...É que eu também passei/Por esses maus bocados/Sofri, chorei, largado/E não te esqueci, não, não, não, não...”

Djavan “...Meu bem querer/Meu encanto/Estou sofrendo tanto/Amor, e o que é o sofrer/Para mim que estou/Jurado pra morrer de amor?”

Perceberam como fui injusta? Claro que fui, confesso! Mas ainda assim alguns se sentirão ofendidos, não se pode agradar a todos e peço desculpas se passei da raia, não é mesmo a minha intenção. O que quis deixar claro é que para se ter parâmetros musicais precisamos antes ter contato com as mais diversas formas de música, entre harmonia, letra e poesia, para então formar opiniões mais sólidas. Se não sabemos interpretar textos é natural que não nos interessemos por letras que nos exijam um mínimo de interpretação.

Por outro lado, se está falando de amor, acho bom, coisas boas precisam se propagar nesse mundo, o repertório dele e da maioria dos sertanejos falam de amor e principalmente do sofrer por ele. Mas não podemos ignorar que em sua obra encontramos também letras bem mais chulas com nenhuma mensagem realmente aproveitável, banalizando relacionamentos ou mandando a moça dar uma empinadinha. Não gosto e não ouço, mas se há quem goste e ouça, qual o problema?

Problema nenhum! Mas colocar o cantor em um pedestal de maneira exagerada como um grande artista que contribuiu imensamente para nossa riqueza cultural é tão incoerente quanto os que atacam aqueles que simplesmente gostam dele e de sua música desrespeitando sua memória, família e fãs.

Faltou tolerância de ambos os lados, mas o que ficou evidente é que o mundo está precisando de mais poesia e menos discursos acalorados para defender o próprio ponto de vista. Fique à vontade em discordar, em concordar, em criticar ou dar um adendo, mas as ofensas, como deve ter notado, essas eu dispenso, pois não ajudam em nada a ter outras perspectivas sobre o assunto que for.


Klash

Turismóloga e entusiasta da escrita. Inconformada por natureza, cheia de opiniões formadas e em formação. Adora dar pitacos onde não foi chamada e odeia escrever dela mesma na terceira pessoa .
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