Daiane Schirmer

Amante de todas as artes e uma eterna curiosa.

UM GRÃO DE TRIGO: a independência do Quênia e o colonialismo

Esse artigo, que não pretendeu se apresentar como sinopse e sim como crítica. Fala um pouco sobre as impressões causadas pelo livro "Um grão de trigo", o terceiro do escritor queniano "Ngugi Wa Thiongo", que esteve na FLIP de 2015. Esse texto surge como uma tentativa de atrair o interesse dos leitores para autores não tão conhecidos no Brasil, assim como, divulgar um pouco do que foi assunto da FLIP no ano de 2015, através desse artigo e de outros que serão publicados.


Ngugi_18g.jpg Fonte:http://www.bigsas.uni-bayreuth.de/en/events/photos/ngugi/index.html

Um grão de trigo é um livro que te prende do começo ao fim, seja por te apresentar uma realidade bem distante da nossa, pois se passa numa vila do Quênia em 1963, seja pelos personagens que parecem ser tão de carne e osso como nós mesmos.

A história acompanha a vida do solitário Mugo, que esteve preso por ter participado das revoltas pró-independência queniana. No entanto, esse personagem tão cinza, nos aproxima de uma personalidade muito mais real que fictícia. Podemos sentir suas angústias e dúvidas , e pensar em nós mesmo tendo que lidar com as mesmas questões. Por isso mesmo ele nos encanta, pois não encarna a personificação do herói que todos na tribo acreditam que seja. Mais do que muitos que participaram do movimento mau-mau, Mugo se prova cada vez mais distante da expectativa de outros membros da vila. E isso, durante o livro, só acaba por angustiá-lo mais, e aumentar seu sentimento de culpa, do qual não é desprovido, apesar da sua aparente apatia. Ao longo do livro, vamos descobrindo um caráter simplista de um homem que tem poucas aspirações e ambições na vida, quer apenas um pouco de paz, em meio a tantos conflitos e turbulências.

As questões raciais também ficam muito aparentes na história, pois são mostradas as relações conflituosas que se dão entre colonizadores e colonizados.Tais relações provam que, apesar da aparente harmonia que demonstram algumas desses contatos entre homens brancos e negros, na verdade o que havia era uma submissão forçada frente a violência do processo colonizador, dito civilizatório. O autor queniano debate questões do racismo e do preconceito, ao criar personagens que figuram como o típico homem branco colonizador que via o negro como ser inferior, desprovido das características ditas do homem civilizado. Ele acaba por fazer referências às próprias teorias racistas desenvolvidas no campos antropológico e sociológico do século XIX, que na verdade serviam apenas para corroborar e para manter o processo colonizatório.

A participação das mulheres na história é bem relevante e nos faz pensar nos vários papéis que desempenham naquela sociedade retratada no livro. Se por um lado, temos mulheres que são verdadeiras mantenedoras do lar e que vão à roça plantar, por outro, vemos uma personagem anciã tendo papel ativo nas decisões do movimento de independência junto com outros anciões da tribo. Mas, independente de sua natureza mais bélica ou passiva, a maior parte das personagens femininas possuem uma personalidade forte e uma importância grande no livro. No fundo, são elas que dão a palavra final do desenrolar dos acontecimentos.

Enfim, “Um grão de trigo” é um livro recomendadíssimo, tanto para quem gosta de histórias bem contadas, como para quem quer conhecer um pouco da cultura sul-africana no Quênia e de sua história, lendo e imaginando suas belas paisagens . Além disso, o livro nos faz pensar um pouco que, não importa quão afastados estamos por credos, culturas ou etnias diferentes de outras sociedades, nós acabamos nos aproximando, já que como seres humanos compartilhamos das mesmas incertezas, anseios e sonhos.

Segue abaixo um trechinho do autor na FLIP 2015:


Daiane Schirmer

Amante de todas as artes e uma eterna curiosa..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Daiane Schirmer