escrivetando

Paranoia da sala à cozinha

Carol Tasca

Das gavetas de Minas pra cá

Último pôr do Sol da Candelária

A última parada do ônibus 174 foi a primeira vez que Sandro teve destaque na sua vida. Paradoxal. Ele nasceu. Ele viveu. Ele morreu. Ele não tinha nada a perder, então não sabia quando parar. Sandro Barbosa do Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, viveu no mundo e morreu na tela da sua televisão. E entre esses três espaços de tempo, o mundo foi tudo que ele teve.


ultima-parada-174[2].jpgCena de "Última Parada 174

Sua casa, era a rua. Seu banheiro, o chafariz da candelária. Seu relógio, o da igreja. Seu despertador, o balde d'água que jogavam nele para acordar pra mais um dia. Ou menos um dia. Não tinha como saber. A esperança, para o ele, era a luz amarela na cabeça do cristo redentor. Queria ser conhecido pelo mundo inteiro com suas rimas. E foi. Mas não por suas rimas, muito menos do jeito que esperava. Ele nasceu.

Viveu. Em seus últimos momentos de vida, ressaltou a cena que viveu em 1993, a inquietação ao lembrar do que aconteceu há anos estava nitidamente aflorada em sua pele. Sandro foi um dos sobreviventes da chacina na candelária, viu matar, viu morrer. Viu a injustiça em todo canto da sua vida, desde quando sua mãe foi morta em sua frente, até o momento do assalto do ônibus 174. Foi por isso. Foi esse ônibus, foram esses números que fizeram Sandro ser conhecido pelo Brasil inteiro.

sandd.jpg Cena de "Última Parada 174

Ele morreu. Sua casa, virou casa de outros. Seu banheiro, continuou sendo banheiro para alguns. Seu relógio, celebrava mais um casamento. Seu despertador, passou a jogar água em outros pra mais um dia. Ou menos um dia. E Sandro via isso tudo. Agora, ele está onde a luz amarela nasce. A luz amarela na cabeça do cristo. No dia 12 de junho de 2000, o Rio não foi em flor de janeiro, Carlos Drummond que vá desculpar...


Carol Tasca

Das gavetas de Minas pra cá.
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