espaço da música

sobre a boa e sempre atual música popular brasileira

Gabriel Elias

História de um amor: a vida turbulenta de Dalva e Herivelto

O casal de artistas mais famosos da música popular brasileira, sem sombras de dúvidas, é Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Paixão, romance, drama, traição, separação, ofensas, calúnias marcaram não somente a vida dos dois, mas também a obra musical de cada um. Herivelto compunha as próprias músicas, já Dalva dava-lhes vida em suas interpretações que ganharam destaque no Brasil e em toda a América Latina.


A história começa nos anos trinta, quando os dois fizeram sucesso com o Trio de Ouro formado em companhia do cantor Nilo Chagas. Mesmo após milhões de discos vendidos e sucessos gravados e regravados por vários artistas, o relacionamento dos dois entrou em crise por conta de muitas intrigas, fofocas e traições. Mesmo depois da vinda dos seus filhos, Dalva não suportava as traições do marido e Herivelto não suportava o descontrole emocional da esposa que se entregou ao alcoolismo.

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Após a dissolução do casamento no final dos anos quarenta, começaram as músicas de “indiretas”. As letras dos sucessos cantados pelos dois eram desabafos e reclamações, escritas na forma de segunda pessoa “tu” (ex.: “...mas foste tu mesmo o culpado...”). Dalva começou a briga de forma mais tranquila, apenas regravou “Segredo”, música composta pelo marido no início da carreira do Trio, que foi seu primeiro sucesso. Esta era uma leve reclamação sobre as composições do marido, que levava para o público os dramas de seu casamento desgastante:

“Teu mal é comentar o passado/ Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois/ O peixe é pro fundo das redes,/ Segredo é pra quatro paredes. / Não deixe que males pequeninos / Venham transformar os nossos destinos...”

Herivelto, descontente, também começou de forma sutil, mandando a mensagem de que ele estava se desfazendo aos poucos do seu casamento, cantou:

“Não! Eu não posso lembrar que te amei/ Não! Eu preciso esquecer que sofri/ Faça de conta que o tempo passou/ E que tudo entre nós terminou/ E que a vida não continuou pra nós dois/ Caminhemos...”

Esta composição foi interpretada pelo seresteiro Francisco Alves. Após isto, ele fez várias outras músicas e ofereceu para vários artistas interpretarem, dentre eles o novato Nelson Gonçalves, cantor de grave acentuado, que virou um intérprete fiel de Herivelto. Ao voltar separada de uma viagem ao exterior no ano 1950, ela abandona a Odeon e grava uma composição feita por José Piedade e Osvaldo Martins, que a compuseram baseada na história contada por Dalva para um dos compositores.

“Tudo acabado entre nós, já não há mais nada/ Tudo acabado entre nós, hoje de madrugada...”

Para Herivelto, isto foi a maior afronta, pois Dalva era a estrela e a voz principal do Trio, sem ela as coisas ficariam mais difíceis. Ele acreditava que o sucesso estava nas suas composições e que, sem ele, sua ex companheira iria provar o amargor do insucesso. Aí começaram as composições com o jornalista David Nasser:

“Mas acima de tudo atiraste uma pedra/ Turvando esta água/ Esta água que um dia, por estranha ironia / Tua sede matou/ Atiraste uma pedra no peito de quem / Só te fez tanto bem”

No Brasil, do final dos anos trinta aos anos cinquenta ficou reconhecido como “Era de Ouro do Rádio”, onde o Governo Vargas incentivou a difusão daquela tecnologia no Brasil, a exemplo dos países em desenvolvimento. Como sabemos que o mercado vende o que sai com maior facilidade e se aproveita de tudo o que ocorre com os artistas para promovê-los (como mercadoria) e arrancar destes tudo o que puder dar lucro, naquele tempo o mercado fonográfico não era diferente! As gravadoras começaram a ver que a briga entre Dalva e Herivelto virara uma radio novela, em que os personagens eram imprevisíveis e escandalosos. O mercado de discos foi se aproveitando de tudo e patrocinando os compositores (muitos deles eram locutores de programas musicais). Num tempo de milhares de cópias sendo vendidas em semanas, veio o segundo grande sucesso da carreira solo de Dalva “Que será”, dos amigos Marino Pinto e Mario Rossi, em que eles contam toda a tristeza que a amiga passava com o término do casamento.

“Que será da minha vida sem o teu amor/ Da minha boca sem os beijos teus/ Da minha alma sem o teu calor/ Que será da luz difusa do abajur lilás/ Se não vieres para iluminar outras noites iguais...”

Este foi, com certeza, o maior golpe no peito de Herivelto. Marino Pinto era seu amigo íntimo e ia com frequência a sua casa. Daí ele começou a desconfiar da fidelidade da esposa, e por descontentamento compôs:

“Senti agora que os amigos que outrora/ Sentavam a minha mesa / Serviam sem eu saber / O Amor por sobremesa…”

Ela acusava a mulher de um possível adultério com seu amigo em “Caminho certo”. A música foi recebida com reprovação pelo público e os dois trocaram ofensas gravíssimas em entrevistas. O caso foi ao extremo e Herivelto foi levado à delegacia para prestar depoimentos após denúncias de sua ex companheira, além de ter brigado na justiça pela guarda dos filhos, fazendo Dalva sofrer casa vez mais com o álcool.

Inconformado, o sambista Ataulfo Alves compôs a ofensiva “Errei sim” e isso continuou a irritar Herivelto que fez “Teu exemplo”, sobre estrelas que fracassaram no sucesso e acabaram na lama, como que estivesse invejando o sucesso da antiga amada. De forma mais sóbria ela recebeu uma composição de Paulo Soledade e Marino Pinto que denunciava todas as inverdades divulgadas pelo ex marido:

“Quiseste ofuscar minha fama/ E até jogar-me na lama/ Só porque eu vivo a brilhar/ Sim, mostraste ser invejoso/ Viraste até mentiroso/ Só para caluniar.”

Herivelto continuou com músicas como “Adeus”, “Consulta teu travesseiro” e “Não tem mais jeito”. E Dalva, de forma irônica, interpretou o clássico “Palhaço”, de Nelson Cavaquinho, que fazia referência à antiga profissão do marido, que era palhaço e trabalhava em uma pequena temporada no subúrbio do Rio quando se conheceram.

“Não Te Esqueças/ Que És Um Palhaço/ Faça a Platéia Gargalhar/ Um Palhaço Não Deve Chorar”.

Os anos foram passando, as brigas foram sanando com a separação e a mídia já não via mais lucro em noticiar o que já havia noticiado aos montes, até fazer o público se cansar de tanto relatar e até incentivar as brigas. Tanto Dalva quanto Herivelto estavam ofuscados pelas novas ondas que foram surgindo no Brasil. Com o rock and roll e com as inovações da música negra norte-americana, aqueles cantores de voz mais potente foram sendo substituídos pelos mais jovens, que já nos anos 1960 estouravam versões de músicas em inglês no movimento beatlemaníaco da Jovem Guarda e com as composições moderninhas da Bossa Nova. Não havia mais lugar nas gravadoras para os românticos e seresteiros.

Em oportunidade de ter canções gravadas, ainda no final dos anos 1950, Nelson Gonçalves defendeu “Cabelos brancos”, em que Herivelto desabafa sobre as dores que enfrentou e todo o desgaste provocado pelas brigas e composições trocadas:

“Ninguém viveu a vida que eu vivi/ Ninguém sofreu na vida o que eu sofri/ As lágrimas sentidas, os meus sorrisos francos/ Refletem-se hoje em dia nos meus cabelos brancos...”

Embora já estivesse casado e com filhos com a sua segunda esposa, Dalva continuou amando Herivelto, seu primeiro amor. Ela então gravou uma versão do bolero latino “Historia de un amor”, que foi ao encontro de tudo o que ela havia passado naquele caso mal resolvido.

“Já não está mais ao meu lado, coração/ E minh’alma está cansada de chorar/ E se já não posso ver-te / Por que Deus me fez querer-te/ Me fazendo sofrer mais”

Dalva faleceu no início dos anos 1970, devido a complicações do câncer. Ela não estava no seu melhor momento como cantora. Os novos movimentos a tiraram dos holofotes. Conta-se que ela chamava por Herivelto no hospital e esperava por uma visita do seu amado, que não aconteceu. Nos anos 90, o compositor no programa “Ensaio” diz que tinha muito arrependimento dentro dele e fez uma curta declaração sobre a primeira esposa. Ele faleceu naquela mesma década ao lado da segunda esposa e dos filhos.

Assim se fez a história de amor de Dalva e Herivelto. Foi a primeira e, talvez, a maior história amorosa cantada no Brasil. A história de amor virou livro e minissérie da Rede Globo, fazendo o público mais jovem conhecer um pouco da vida de dois astros da música popular brasileira.


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