espaço das letras

Universo aberto

Clarice Leão

Brasileira, mineira e artista (bailarina contemporânea, musicista e atriz). Alimenta a fotografia e a escrita como hobbies. Cinéfila, leitora, viajante e viciada em café. Metamorfose ambulante e sobrevivente do cotidiano.

A Causa e a Consequência: o jogo da depressão

"Talvez, você não precise mudar as coisas que gosta, mas sim tentar se abster dos sentimentos que elas te proporcionam. E isso não é insensibilidade: É auto-controle.".


O que é a Depressão? Uma doença psíquica... Mas o que a desenvolve? Qual é a fonte, o combustível? O que a alimenta integralmente?

Um efeito de causa e consequência que perpetua ao longo do tempo e cria traumas. A depressão não é um vício, não se finge de "coitado". Quando se tem a doença (principalmente a nível crônico, o que posso falar com maior propriedade por ser uma paciente) tem-se um imã para melancolias e sentimentos tão sensíveis que a maioria das pessoas não conseguem perceber: ou por falta de reparar ou por falta de cansaço.

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E isso não é romantizar: ser melancólico não é nada bonito, não te inspira a criar abstrações, não te inspira a escrever melhor. Ser melancólico te inspira a ser estático, a não conseguir fazer ou continuar absolutamente nada que tente começar, a ser um pseudo-resiliente. Ser melancólico te mata aos poucos...

Digo "efeito de causa e consequência" porque é unânime: uma pessoa depressiva está mais sujeita a cotidianos tristes, a gostar de dias nublados, a assistir filmes dramáticos e odiar filmes de ação, a ouvir músicas com melodia empregadas em tons menores e arranjadas com instrumentos acústicos, a usar cores neutras e a morar em apartamentos nos andares mais altos (onde se tem maior ventilação e uma visão aérea cotidiana.). Você, deprimido, que está lendo esse texto pode falar: nós odiamos muitos barulhos e muita claridade.

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E afinal, sempre tem aquela pessoa que nos fala que o modo como tratamos nossa doença é questão de escolha (e não, não é.). Geralmente são pessoas que não convivem com esse tipo de sensação ou a mantém possivelmente controlada.

A verdade é que não se escolhe os níveis de depressão. Ninguém quer o "prazer" de tê-la em um estado completamente profundo e perigoso. Mas sim, escolhe-se o "querer mudar", o "up": por mais que exista maiores tentativas de mudanças frustradas, sempre há alguma que não falha e nós sabemos disso, tendo a encontrado ou não.

Há uma diferença entre "estar deprimido" e "ser depressivo" que muitas pessoas não conhecem... É como a diferença do "estar feliz" e "ser feliz". Não há uma definição certa para o que sentimos, mas conhecemos muito bem como é anormal. Claro, os sintomas físicos nos colocam em pânico: um depressivo vai a um bilhão de médicos por ano, faz um trilhão de exames e, no final, acaba descobrindo que é a depressão quem causa o suor nas mãos, as taquicardias, as dores de cabeça irradiando pelo corpo, os tremores passageiros, a fraqueza nas pernas e as faltas de ar.

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Logo depois de um filme como "A Lista de Schindler" entramos no banheiro e não conseguimos sair mais de lá (choramos até com "O Fabuloso Destino de Amelie Poulain".). Absolutamente nada na nossa doença é fragilidade para nós: enfrentamos tudo até agora.

Gostamos mais do cair da tarde e do ambiente noturno, mas é nele que geralmente ocorrem as crises. Gostamos do silêncio e dos apartamentos altos, mas é olhando as pessoas se movimentando lá embaixo que nos sentimos solitários. Gostamos das cores neutras, mas são elas que nos colocam em metástase. Gostamos de músicas em tons menores e filmes melo-dramáticos, mas são eles que alimentam ainda mais nossa melancolia do dia-a-dia.

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Mas acredite... Talvez, você não precise mudar as coisas que gosta, mas sim tentar se abster dos sentimentos que elas te proporcionam. E isso não é insensibilidade: É auto-controle.


Clarice Leão

Brasileira, mineira e artista (bailarina contemporânea, musicista e atriz). Alimenta a fotografia e a escrita como hobbies. Cinéfila, leitora, viajante e viciada em café. Metamorfose ambulante e sobrevivente do cotidiano. .
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