espaço das letras

Universo aberto

Clarice Leão

Brasileira, mineira e artista (bailarina contemporânea, musicista e atriz). Alimenta a fotografia e a escrita como hobbies. Cinéfila, leitora, viajante e viciada em café. Metamorfose ambulante e sobrevivente do cotidiano.

A Desigualdade de Gênero no Espaço Acadêmico

"Ser fiel a uma ruptura com o passado machista é frisar e reafirmar essa nova cena feminista que surge lentamente nas universidades, mas que concomitantemente nos mostra uma força sobrenatural de permanência e ocupação do meio acadêmico."


Até hoje, as mulheres geniais enfrentam dentro do universo intelectual uma dificuldade enorme que não as deixam ser destacadas: as mestras e doutoras são silenciadas e suas publicações raramente atingem um patamar elevado de reconhecimento. As premiações científicas são reflexos dessa realidade. Durante toda a história, apenas 3% dos ganhadores dos prêmios Nobel são mulheres. Uma amostra da falta de condecoração das cientistas é a situação de Rosaly Lopes-Gautier: uma premiada astrônoma e geóloga brasileira integrante da equipe da NASA que descobriu cerca de 70 vulcões em uma das luas de Júpiter. Nós não a conhecemos porque suas pesquisas nunca foram noticiadas pelo jornalismo brasileiro.

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A nossa tentativa de ocupar o espaço científico é duramente combatida pelos próprios cientistas e por um sistema academicista luxuoso que concentram forças para prolongar a “glória masculina” nas pesquisas e estudos. Em consequência, temos o chamado “Efeito Matilda”: quando as descobertas e contribuições científicas feitas por mulheres são atribuídas a pesquisadores homens. A participação feminina é diminuída ou completamente negada.

A página “As Mina na História” fez uma pesquisa sobre o assunto e conseguiu vários exemplos históricos ponderáveis. Essa implicação foi registrada, por exemplo, na história de Trotula de Salerno, uma médica italiana dos séculos XI e XII que publicou obras sobre ginecologia e obstetrícia. Depois de sua morte, teve suas pesquisas roubadas por autores masculinos. Há situações mais recentes, como a de Lise Meitner que trabalhou com Otto Hahn e lançou as bases teóricas para a fissão nuclear. Em 1944, o Prêmio Nobel de Física foi dado a Hahn e Lise não foi reconhecida.

O caso mais famoso do “Efeito Matilda” é o de Rosalind Franklin, que foi pioneira da biologia molecular concluindo que o DNA tinha forma helicoidal. Francis Crick e James Dewey ganharam o prêmio Nobel, em 1962, sem creditar Rosalind pelo trabalho. O fenômeno foi recorrente em várias situações que são questionadas pela academia ou não foram totalmente descobertas. É necessário frisar, porém, que tal sequela continua acontecendo nas mais renomadas instituições.

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Além do “Efeito Matilda”, outra ocasião interrompe a carreira das cientistas: muitas mulheres, mesmo à frente de importantes pesquisas, são caracterizadas e apresentadas por seus aspectos físicos e não por seus aspectos intelectuais. Hedy Lamarr, na década de 1940, foi vítima desse tipo de análise. Vários títulos de matérias jornalísticas ainda são publicados como “Hedy Lamarr, a musa do cinema precursora do WIFI” (El País). Porém, no auge de sua carreira, ela era a chamada “mulher mais bonita do mundo”, seu erotismo foi explorado e seu corpo foi transformado em um “troféu” para os galãs cinematográficos.

No Brasil, a situação se agrava. Segundo dados coletados pela prof. Marlise Matos (DCP – UFMG), as mulheres brasileiras ocupam, atualmente, 60% do espaço acadêmico e têm, em média, cerca de seis anos de escolarização a mais do que os homens. É importante, porém, compreender que esse espaço ainda não nos aceita e só foi aberto ao nosso público no final da década de 1970 por pressão popular.

Há pouca representatividade no âmbito de trabalhos elaborados e de gestão pública: a Escola de Engenharia da UFRJ elegeu esse ano a primeira diretora mulher em 225 anos de instituição. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) nunca elegeu uma presidenta em seus 85 anos de existência. O Grupo de Estudos de Gênero e Política (DCP – USP) publicou várias referências sobre essa falsa simbologia: aos 102 anos, a Academia Brasileira de Ciências tem somente 14% de membros do sexo feminino.

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O sinal de atraso se relaciona com a legislação do próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) garante, no artigo 392, o direito à licença maternidade desde 1943. Porém, a legislação da CNPq analisou e garantiu esse direito somente no ano de 2011, ou seja, 68 anos depois da licença constar nas leis brasileiras.

As alianças entre igualdade de gênero, feminismo e ciência são necessárias em todos os momentos a fim de ressaltar a importância das mulheres na história da humanidade. É preciso analisar como o machismo velado no meio intelectual retardou as possibilidades de maiores avanços científicos. Ser fiel a uma ruptura com o passado machista é frisar e reafirmar essa nova cena feminista que surge lentamente nas universidades, mas que concomitantemente nos mostra uma força sobrenatural de permanência e ocupação do meio acadêmico.


Clarice Leão

Brasileira, mineira e artista (bailarina contemporânea, musicista e atriz). Alimenta a fotografia e a escrita como hobbies. Cinéfila, leitora, viajante e viciada em café. Metamorfose ambulante e sobrevivente do cotidiano. .
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