espelho periódico

Espelhos não mentem, mas podem enganar

Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho.

A solidão: do Tinder a Edward Hopper

Nós usamos o Tinder por todos os motivos errados.
Não procuramos diversão e prazer se não apenas companhia ou algo que preencha esse imenso vazio em que nos transformamos. Somos personagens em pinturas de Hopper, desfrutando a nossa própria solidão.


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É inquestionável o quanto nos tornamos antissociais, não importa a quantas redes sociais estamos conectados. Nos distanciamos cada vez mais da realidade e tornamo-nos aquele fragmento de ser humano ultra feliz e bem sucedido que as pessoas podem ver na tela do computador ou telefone. Já somos tão antissociais que sequer saímos de casa quando queremos interagir e, quando saímos, permanecemos com os celulares nas mãos.

O grande erro é que não queremos diversão, e sim companhia, disfarçada de um encontro casual ou (e agora atenção) de amor. Em suma, somos desesperadamente solitários. Buscamos preencher esse gritante vazio em nossas vidas com pessoas tão vazias quanto, por algumas horas de nossos dias. E assim vamos indo, de ‘match’ em ‘match’, tentando, sem sucesso, afastar a solidão e essa carência, que insiste em ser característica dos seres humanos sensíveis.

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O Tinder é a triste substituição do ir ao bar sozinho e, timidamente, puxar conversa com alguém que pareceu interessante. É o antigo esperar ansiosamente por um telefonema ou mensagem. É o esbarrar em um estranho na rua e achá-lo atraente o suficiente para ganhar um sorriso. É aquele velho conhecer alguém porque tem amigos e interesses em comum e assim a vida colocou ele(a) no seu caminho.

É ir à festa e levar para casa qualquer um que esteja disposto a te acompanhar; ou sentar sozinho num café, lançando olhares para qualquer pessoa que os retribua.

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Este aplicativo é a realidade virtual da solidão. Lá nós somos descolados, simpáticos e desinibidos. Bem sucedidos na arte do flerte. Claro, não sejamos drásticos, por vezes as pessoas dão sorte e encontram o amor da sua vida! (Já ouvi histórias. Um amigo de um amigo de um amigo meu). Mas a maioria de nós só quer passar as próximas horas tendo o privilégio de dizer que está acompanhado de alguém que não faz parte da sua ‘friendzone’.

Edward Hopper foi o artista que melhor retratou a solidão em suas obras. Os olhares distantes, os elementos urbanos e locais melancólicos, cenários da vida moderna. Seus personagens não estão, necessariamente, tristes, apenas sós. Entretidos em seus próprios pensamentos.

São pessoas como nós, vivendo seus cotidianos, conscientes de sua própria solidão e fazendo o possível para desfrutá-la.

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Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho. .
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