espelho periódico

Espelhos não mentem, mas podem enganar

Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho.

Precisamos falar sobre Carol

Em sua 88ª edição, o Oscar perpetua, em sua lista de indicados, os estereótipos do que uma sociedade preconceituosa gosta de ver premiados. Brancos, héteros, grandes superações masculinas e muitos efeitos especiais. Que a Academia não prestigia as minorias, está explícito desde muito tempo, situação essa que tem levado a Cerimônia de entrega dos prêmios a sofrer boicotes; mas que ela aprecia vê-las sofrendo nas telas nunca esteve tão claro. Afinal, gays não amam em Hollywood.


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Sessenta e três anos se passaram desde o lançamento do polêmico romance de Patrícia Highsmith até a estreia da trama nas grandes telas de cinema no ano passado. Originalmente publicado como ‘The price of salt’ sob o pseudônimo de Claire Morgan, o livro causou alvoroço na sociedade altamente patriarcal norte-americana nos anos 50, por tratar sobre a homossexualidade feminina e a partir de um ponto de vista feminino. Além disso, o suposto final feliz não tinha precedentes na literatura lésbica. Ou uma das partes ‘deixava de ser gay’ e casava-se, ou morria, o que, convenhamos, é quase a mesma coisa. O fato é que, mais de meio século depois, a história ainda aborda questões atuais (principalmente para a sociedade brasileira, que retoma a discussão do conceito de família e os direitos do público LGBT) mas permanece vista como uma temática não relevante aos olhos dos grandes nomes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, vulgo, o tão prestigiado Oscar. 

Carol Aird é uma mulher madura, pertencente à uma alta classe, casada e mãe. Therese Belivet é uma jovem adulta, balconista em uma loja de departamentos e aspirante a cenógrafa (fotógrafa no filme). Elas se conhecem desempenhando seus papéis sociais; a primeira, compradora, a segunda, vendedora. Do primeiro encontro em diante desenvolvem um relacionamento de companheirismo e tensão. Até o décimo quinto capítulo do romance, não se sabe se a relação tem ou terá caráter sexual, apesar de a dúvida permear constantemente os pensamentos de Therese, fluxo de consciência narrador do romance literário. Daí a tensão: ambas são hesitantes, até que deixam de ser.

O romance seria como qualquer outro, não fosse a proibição elevada ao status de crime e doença mental da atividade homossexual nos Estados Unidos durante o pós guerra. A lei, que ainda esteve em vigor em alguns Estados norte-americanos até 2003, aplicava-se aos homens, enquanto as mulheres eram apenas taxadas de degeneradas e imorais, acusação que, no caso de Carol, custava o casamento e a guarda da filha de quatro anos. A chantagem por parte do marido era fácil e eficaz num processo de divórcio regido por homens. 

O filme, dirigido por Todd Haynes e estrelado por Cate Blanchett e Ronney Mara, é brilhante ao mostrar o cenário urbano da Nova Iorque dos anos 50. Filmado através de vidros e janelas (olhar cinematográfico inspirado pela fotografia de Vivian Maier e Saul Leiter), com maravilhoso figurino de Sandy Powel, a atmosfera é impecável. Os detalhes da trama, nem tanto. Muitos personagens e momentos foram suprimidos para que a história coubesse nas duas horas de longa-metragem, fazendo com que a narrativa seja reduzida às duas personagens principais e seu romance, deixando de lado as vivências de cada uma e os sentimentos muito particulares que levaram-nas a se envolver.

Opiniões pessoais à parte, o filme foi aclamado pela crítica, ovacionado de pé no Festival de Cannes, indicado a mais de 100 prêmios ao redor do globo, dos quais foi vencedor de mais de 40, mas negligenciado pelas grandes categorias da Academia (Melhor Filme e Melhor Diretor). O Oscar não se importa com Carol. É um longa-metragem sobre mulheres. Mulheres gays, com uma roteirista e um diretor gays, baseados em uma escritora gay, que fala sobre o amor e seu significado e significância num universo estritamente gay.

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Há décadas de cinema a temática é restrita e consagrada para a comédia. Ser homossexual é fazer rir, é o personagem secundário e extravagante, criado para divertir os enredos ou ser motivo de chacota. No caso de duas mulheres ainda existe o grande nicho da indústria pornográfica, que nem vale a pena incluir na equação. Gays não amam em Hollywood. Eles têm romances lindos em filmes de baixo orçamento, que sequer chegam às telas de cinema e são voltados para um público muito específico, independente do esforço que se faça para levá-los às grandes salas. Carol é um amor de, relativamente, alto investimento financeiro (quase 12 milhões de Dólares). De grande impacto e importância, e, acima de tudo, de enorme distribuição. Em breve será, inclusive, um amor em blu-ray! Mas fala um idioma muito gay e feminino para os votantes da Academia, em sua maioria brancos, homens e velhos. Vernacular demais, afinal, quem consegue compreender uma trama em que os papeis masculinos são secundários e antagônicos e o romance principal se foca em duas mulheres que não têm, sequer, a decência de dormir com homens, sofrer tragicamente ou morrer no final?! E olha que são personagens brancas e norte-americanas.

É a mesma Academia que não premiou O Segredo de Brokeback Mountain dez anos atrás, mesmo tendo, surpreendentemente, colocado a trama na lista de indicações à Melhor Filme; e a mesma que sequer indicou ‘A Garota Dinamarquesa’ para as grandes categorias deste ano. E veja bem, apenas oito das dez vagas para indicações a Melhor Filme foram preenchidas na 88ª edição dos prêmios. Desde 2005, apenas dois títulos com personagens homossexuais integraram essa categoria: o drama/comédia ‘Minhas Mães e Meu Pai’, que na verdade centrava a história no fato de que um casal de crianças, filhos de mães lésbicas, aproximava-se de seu pai biológico, que durante o enredo acabava envolvendo-se com uma das mães; e ‘Clube de Compras Dallas’, que tem um personagem transexual, portador de HIV, como pano de fundo para a história de um homem hétero que aprende a ser tolerante.

Para não soar esnobe, vale a pena apontar que nas categorias menores também não se pode comemorar muita coisa. Na história do Oscar, apenas dois atores foram premiados por interpretar personagens homossexuais que sobrevivem para ver o final do filme. Pode-se dizer então que já existe uma ponta de esperança considerando as indicações de Cate Blanchett e Rooney Mara a Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Ou as nomeações a melhor roteiro adaptado, fotografia, figurino ou trilha sonora. Está perdida a chance de torcer por Carol na noite do Oscar para que seja um filme ‘com estatueta de relevância’ para a história da causa, entretanto, pode-se torcer pela equipe que fez do projeto o que ele acabou sendo: o longa-metragem com maior número de indicações à prêmios do ano, que a Academia esnobou.


Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho. .
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