espelho periódico

Espelhos não mentem, mas podem enganar

Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho.

Sobre o abismo da espera

Lembrança não é notícia. Novidade não é laço. Espera é abismo.


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- Tem notícias de fulano? Tem falado com fulana?

Não. Delicadamente respondo.

Um ‘não’ tão cheio de significados. Se um dia me perguntarem o porquê, tenho certeza de que não saberia responder. Caso resposta tivesse, esta sería impulsiva e evasiva, creio eu. Algo como ‘não tenho tido tempo’, ‘não tenho visto’, ou ‘ah, vejo as publicações nas redes sociais. Acho que está bem’... Mas… não, não tenho notícias reais. Há muito não tenho oportunidade de perguntar como foi o dia, o que tem de legal para fazer hoje, o que houve lá na reunião que parece ter incomodado, ou mesmo um singelo ‘já jantou?’. Há muito as notícias não se renovam. Dia desses uma amiga em comum disse: ‘vamos mandar uma mensagem para fulano?!’. Assim, no plural, me incluindo na sua própria saudade. Vamos, respondi, incerta. Essa mensagem nunca foi enviada, é claro, pois nós logo nos ocupamos com outros pensamentos e assim se vão meses… para nós e para o destinatário.

Mas o que mais me surpreende é a pergunta inicial. Afinal, por que alguém olha para mim e algo lhe diz que eu teria notícias de fulana? Fulano, por acaso, teria novidades minhas? Eu gosto muito de notícias, parte de mim tem intrínseca a curiosidade jornalística; mas por vezes negligencio a índole em prol do bem estar. Não sei se gostaria de ter notícias. Não ainda. Por enquanto me retiro aos meus livros nos finais de semana, fujo dos que ainda possuem dedicatória, me ocupo com as minhas tarefas engenhosamente acumuladas; busco, incessantemente, uma companhia aqui, outra ali; para um chopp com pastel, um vinho com pizza ou seja lá o que for que ‘desviadoramente’ apeteça. Nem sempre encontro. Verdade. Como diria Mario Quintana:”O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.”.

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Ok. Vou perguntar! Mas, hoje é segunda-feira, nem as notícias dos jornais são interessantes. Caso perguntasse como está hoje, talvez a resposta fosse decepcionante. Deixo para amanhã, dia cheio, ficou tarde. Quarta, que afronta lembrar de mim neste dia! Quinta, chopp. Sexta, vinho. Final de semana com meus livros e lá se foi mais uma folha de calendário. Falha minha não ter notícias. Não há respostas para coisas não perguntadas. Não há repórter sem ouvinte.

Já tem tempo suficiente… eu acho. Quem sabe uma carta? Muito clichê? Um e-mail. Não. Nunca gostei de ser burocrática. Sinal de fumaça, código morse com as estrelas no céu. Um poema? Um… postal.

Eu me refaço em nova espectadora, é assim que havia de ser. Isso não vai querer dizer nada. E mesmo, eu já estou quase querendo saber: como têm sido seus dias, o que tem feito de legal, se alguém tem jantado com você… Dia desses eu escrevo. Você podia escrever também. Tudo bem. Eu espero. Mas vale aquela lembrança: desde o princípio, o combinado foi que não se esperasse muito...

“Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.” Clarice Lispector


Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho. .
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