espelho periódico

Espelhos não mentem, mas podem enganar

Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho.

Uma Boa Mentira: Papai Noel vai ao Sudão

Eles eram simplesmente conhecidos como "os garotos perdidos". Órfãos devido à brutal guerra civil no Sudão, que iniciou em 1983, estes jovens viajaram mais de 1.600 quilômetros a pé em busca de segurança. Quinze anos depois, um esforço humanitário traria 3.600 meninos e meninas para a América.


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Por vezes ficamos tão focados em dar conta dos grandes títulos que a mídia martela em nossas telas, que deixamos de ver filmes incríveis, pelo simples fato de que não estiveram na corrida pelo Oscar. Em tempos de crise nas fronteiras e a nossa constante e imperdoável falha em refugiar adequadamente pessoas imigrantes de países em guerra, é indispensável que se assista “Uma Boa Mentira’”. Lançado em 2014 e subestimado em muitos aspectos, o filme é de uma delicadeza incomparável, nos fazendo rever conceitos e comportamentos que muitas vezes são naturalizados e tomados por certos em nossa cultura capitalista.

Em "Uma Boa Mentira", Philippe Falardeau, (escritor e diretor de "Monsieur Lazhar", indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) dirige a história destes jovens, sua sobrevivência e triunfo na vida, através de roteiro escrito por Margaret Nagle, baseado em fatos reais. A vencedora do Oscar, Reese Witherspoon, estrela ao lado dos atores sudaneses Arnold Oceng, Ger Duany, Emmanuel Jal, e o estreante Nyakuoth Weil, os quais também eram crianças que viveram a guerra.

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Na trama, Mamère e Theo são filhos do chefe em sua aldeia no sul do Sudão. Quando um ataque organizado pela milícia do Norte destrói sua casa e mata seus pais, o filho mais velho, Theo, é forçado a assumir o papel de chefe e levar um grupo de sobreviventes, incluindo sua irmã Abital, para longe do perigo, através do hostil terreno desértico. Enquanto o grupo faz sua caminhada em direção ao campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, eles encontram outras crianças em fuga, criando um vínculo com Jeremias, que, aos 13 anos, já é um homem de fé, e Paulo, cujas habilidades tornaram-se essenciais para a sua sobrevivência. Treze anos mais tarde, agora jovens adultos, eles têm a oportunidade de deixar o acampamento e refazer suas vidas na América. Ao chegar em Nova Iorque, são separados de Abital, que, por ser mulher é enviada à Boston para ser acolhida por uma família, enquanto os homens recebem refugio no Kansas, onde buscarão trabalho. Carrie Davis (Witherspoon), uma conselheira em uma agência de empregos, é designada a encontrar ocupações para este difícil grupo, que, até então, sequer conhecia interruptores de luz ou telefones.

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A trajetória dos jovens sudaneses, da sua partida do campo no Quênia a seus primeiros contatos com a cultura ocidental, é um imenso turbilhão para nós, acostumados com o conforto e comportamento ‘civilizado’. O uso de talheres, a comida embalada, o conceito de comunidade, de família e de responsabilidade para com a mesma; tudo é incrivelmente novo e encarado como mais uma forma de adaptação, como se tivessem apenas sido enviados para um novo deserto, onde precisam proteger-se a partir da observação do território e o comportamento dos nativos desta tribo.

O mais surpreendente e tocante no filme é o grande choque cultural e o enorme despreparo dos norte-americanos em lidar com a recepção destas pessoas, que são ingênuas em todos os sentidos possíveis; solidários e verdadeiros aos seus princípios e valores, causando vergonha em qualquer um que tenha crescido em um mundo que acredite ser certo jogar comida fora, pois não é mais possível de ser vendida e que doar seria, simplesmente, muito incômodo. O intenso bombardeio de novas informações culturais, por vezes, pode ser implacável com estes estrangeiros, que acabam sucumbindo à raiva, a saudade de suas famílias (quando elas sobrevivem) e seus países. Em tristes casos, entregam-se às drogas e ao crime, esquecidos pelo sistema. De uma maneira humorística, mas muito sensível, o longa-metragem expõe todos estes delicados momentos na vida de um refugiado.

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Todos nós já passamos por algum refugiado pelas ruas de nossos países. Sejam vendedores ambulantes, atendentes, trabalhadores de linhas de produção. Anônimos, que subestimamos, e, em alguns casos, até mesmo desconfiamos. Sim! É triste, mas é a verdade. Desconfiamos de uma pessoa sobre a qual sequer sabemos a história, ou que idioma fala. Pessoas que não sorriem em vão porque não têm motivo sincero para o fazer. Que são incapazes de mentir, porque foram educadas a não o fazer; valor que muitas vezes dificulta sua ascensão social em uma cultura como a nossa. São indivíduos que não sabem o dia em que nasceram, mas são capazes de cantar e dançar frente qualquer adversidade da vida. Conhecendo suas histórias a partir do que lhes é ensinado por gerações, mesmo que não possam sequer lembrar o som da voz de seus pais. Pessoas que têm imensa gratidão e a expressam de maneiras que são peculiares aos nossos olhos. O Sudão é o terceiro maior país da África e quase um quinto de sua população vive abaixo da linha internacional de pobreza, vivendo com menos de U$ 1,25 ao dia. Em tal país, uma fruta tem um valor inigualável; imagine o gesto de ser presenteado com uma.

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Junto ao lançamento do longa-metragem, foi criada a iniciativa filantrópica ‘The God Lie Fund’, que recebe doações a serem revertidas para ajudar os quase quatro milhões de crianças que ainda sofrem com os conflitos, as doenças e a fome no sul do Sudão.

“Uma Boa Mentira” nos alerta sobre a importância dos valores do outro, que, por mais peculiares, jamais são menores que os nossos. Convencê-los de que mentir por uma boa causa é aceitável (até Huckleberry Finn o fazia para se livrar de situações arriscadas), é triste; mas nada supera a nossa gritante ignorância a respeito do alcance da nossa própria cultura e a nossa necessidade de enxertá-la no cotidiano dos outros. Afinal, quem é que acredita que o Papai Noel vai ao Sudão?


Fernanda Miki

Jornalista, gaúcha, amante das artes e do vinho. .
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