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para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

A catástrofe é necessariamente um cenário sempre presente: “O Filho de Saul”

“A verdadeira escolha com relação ao trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele: os traumas que não estamos dispostos a ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. É necessário então aceitar o paradoxo de que, para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo”.


HIJODESAULFTGRM1.jpg cena do filme retirada do google imagens

Conhecemos o bicho homem: esse animal pronto a arrancar o tampão do dedo na mesma pedra 150 vezes, sem remorso. Decorre daí a furiosa capacidade da perversidade humana se fazer sempre presente e, curiosamente, a necessidade de retratá-la nas grandes telas do mundo.

E esse seria o motivo de ainda desbravamos mares emocionais tortuosos para retratar o holocausto no cinema? "A lista de Schindler", "O diário de Anne Frank", "Arquitetura da destruição"; o nazismo pulula nas telas da sétima arte há bastante tempo, com diferentes olhares e abordagens. Contudo, de que forma o exercício de lamber as próprias feridas pode ser novamente desafiador?

20140117_152551.jpg arquivo pessoal

O longa-metragem húngaro Saul Fia (O Filho de Saul, no Brasil), ganhador do Globo de Ouro e concorrente ao Oscar 2016 na categoria de melhor filme estrangeiro, não deixa sombra de dúvidas a respeito do potencial de igualmente retratar uma realidade insuportável, não tendo o desejo de tão somente gerar medo, heroísmos, raivas. A intenção é embaralhar o sentido de ser/estar espectador, nos fazer sofrer/agonizar juntamente com os personagens.

Não há mistérios, suspenses, efeitos especiais. O diretor László Nemes revela um dia e meio da vida de Saul, judeu aprisionado em um campo de concentração que é forçado a conduzir os presos às câmaras de gás, recolher os cadáveres, limpar o sangue e os pedaços dos corpos, e encaminhar o resultado do trabalho às fornalhas. Sem o descuido de deixar spoilers ao longo do texto - afinal o diálogo que se pretende estabelecer nesse espaço não se resume à análise crítica do filme - importante registrar que a história se desenvolve em torno do encontro de Saul com o filho morto e a necessidade incontrolável de encontrar um rabino para que o menino seja enterrado com alguma dignidade.

Sem a menor dúvida, o próprio enredo do filme não é convidativo para um programinha de casal em uma tarde ensolarada. Em alguma medida, temos o desejo (in)consciente de manter um sorriso amarelo estampado no rosto por acharmos que o tempo de hoje é bom, pura e simplesmente por já não ser tão ruim quanto o era antes. Por outro lado, é preciso certo nível de consciência de que a barbárie bate seletivamente à porta de cada um de nós nos dias de hoje, não adiantando construir esconderijos [ainda que emocionais].

No caso do holocausto, a barbárie tem assento [de novo] na perseguição aos judeus, na expropriação de bens pessoais, nos asilos forçados, nos campos de concentração, na intensa tortura psicológica, na adesão/inação social e, principalmente, na vista grossa/inércia da comunidade internacional.

20140701_100851.jpg Museu Memória e Tolerância, Cidade do México – DF (arquivo pessoal)

Enredos cinematográficos como esse eletrocutam qualquer flerte com o conformismo e a alienação. Seria interessante, assim, que absorvêssemos de uma vez por todas, conforme frase atribuída a Hegel, que “o ser humano aprende da história que não aprende nada da história, mas aprende tudo do sofrimento”. A história de Saul nos lança nesse tormento. À medida que sugamos sua respiração sufocada, vamos nos permitindo sentir o sofrimento de novo, as alteridades sequestradas e assassinadas, o enredo cheio de fúria de um projeto criminoso de Estado levado às últimas consequências. Não se sai da sala de cinema sem sobressaltos, pensamentos sombrios e muito ingrediente para reflexão.

“A vida não tem de ser assim!”: uma possível conclusão. Para muito além de qualquer flerte com a inação, é preciso assumir algum tipo de compromisso com o mundo. Por outro lado, até que ponto a ingenuidade e a paixão da utopia de “começar de novo” nos conduz a projetos sensíveis e radicalmente observadores dos direitos humanos? Há quanto tempo o projeto de modernidade (e/ou pós-modernidade?) se faz presente no extermínio de povos, massacres culturais, sobreposição de primeiros e terceiros mundos, padrão norte-sul de recorte do mundo?

Mudam não os passos, mas apenas sua intensidade, sua propaganda, a nossa memória do horror. E, nesse sentido, “O filho de Saul” nos permite relembrar, ou seja, saber; saber que não somos inocentes!

Como leciona o filósofo esloveno e agitador social Slavoj Zizek, no seu “Bem-vindo ao deserto do real”, “a verdadeira escolha com relação ao trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele: os traumas que não estamos dispostos a ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. É necessário então aceitar o paradoxo de que, para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo”.

E, nesse cenário de lembrança, de que maneira vamos conceber uma forma digna de viver? A situação de Israel no cenário do conflito/disputa com os palestinos e muçulmanos de forma geral ainda é delicada, triste e altamente perturbadora. Quem são os novos bodes expiatórios do mundo globalizado? Um olhar rápido pela Europa e pelo Oriente nos remete necessariamente a uma expressão: Estado Islâmico! O que decorre daí? De que forma o passado vai nos conduzindo a uma avanço no processo civilizatório?

O perspicaz sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no seu “Vida em Fragmentos”, traz a lição de que não foi a ausência de progresso, mas, pelo contrário, o desenvolvimento – técnico-científico, artístico, econômico, político – que tornou possíveis as guerras totais, os totalitarismos, o crescente abismo entre a riqueza do norte e a pobreza do sul, o desemprego e os novos pobres.

Nosso suposto progresso também é fatal. Nosso único mundo de fato conhecido entulha certo desapreço por esperança. Devemos admitir que, nessa altura do campeonato, já não há espaço para ingenuidades de qualquer espécie.

GEDC1274.JPG arquivo pessoal

Basta ver que, espremidos nesse pontinho, já somamos mais de 7 bilhões de cabeças. Produzindo 70 trilhões de dólares por ano, o que seria suficiente para termos uma renda per capita de 10 mil dólares; mas convivemos com quase 1 bilhão de pessoas passando fome ao redor do mundo; quase 900 mil seres humanos sem acesso à rede tratada de esgoto; com um sem fim de conflitos étnicos por aí afora. A catástrofe é um cenário presente, nosso olhar sobre a realidade é que, não raras vezes, nos faz acreditar no mundo como fábula.

Torço, porém, para que a travessia para a terceira margem não termine como na história do “inafundável” transatlântico, conforme alegoria de Jacques Attali: “o Titanic somos todos nós, a nossa sociedade triunfalista, cega, autocongratulante, hipócrita, impiedosa com os pobres – uma sociedade em que tudo é previsto, exceto os meios de prever... Todos nós supomos que há um iceberg à nossa espera, escondido em algum lugar no futuro nebuloso, contra o qual nos chocaremos para em seguida afundarmos ao som de música”.


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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