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para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

América Latina: barbárie e marginalização Parte 1. No princípio tudo era América

Esses povos de terras quentes, semi-humanos, com suas mulheres núbeis aos 8, 9 anos e decrépitas aos 20. Com seus sistemas políticos débeis e arcaicos. Ah essa gente da latrina do mundo, com essa latinidade indolente, parteira do caos e sempre periferia do sistema.


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A linguagem zoológica – para usar expressão de Frantz Fanon – sempre foi empregada pelo centro do sistema (Europa e, num momento posterior, os Estados Unidos) para se referir à América Latrina - como por certo ainda nos chamam.

Essa visão folclórica, por volta de 1748, também era temperada pela formulação do Barão de Montesquieu, n’O Espírito das Leis, pois o autor concentra grande esforço em separar os povos entre aqueles do Norte e os do Sul, os de clima frio e aqueles de clima quente.

A fixação por esses vetores era tamanha que Montesquieu chega a sugerir que os povos de terras quentes [do Sul] seriam preguiçosos e indolentes, enquanto os do Norte teriam o vigor e a fibra necessária para o bom desempenho físico, intelectual. No Livro Décimo Sexto, o escritor francês formula a seguinte hipótese: as mulheres são núbeis nos climas quentes aos oito, nove ou dez anos; assim, a infância e o casamento caminham quase sempre juntos. Estão velhas com vinte anos; logo, nelas a razão não se encontra nunca junto com a beleza. Quando a beleza pede o império, a razão faz com que a recuse; quando a razão poderia obtê-lo, não há mais beleza. As mulheres devem ser dependentes, pois a razão não pode dar-lhes em sua velhice um império que a beleza não lhes deu durante a própria juventude.

zapatistas4_Moysés-Zúñiga-S.gif meninas zapatistas, México

O secular processo de inferiorização da América nos classificou dentro da dinâmica de um poder mundial, tornando-nos distintos e inferiores ao modelo ideal: europeu, branco, homem, urbano, cristão. Desde o início fomos taxados de coisa do passado, selvagens, atrasados, domesticáveis [principalmente pela força e pela bala] e dependentes.

Diante de tamanhas barbárie e violência epistêmica, em 1903, Manoel Bonfim, no seu "América Latina, males de origem", questiona: são povos que possuem todos os elementos para ser prósperos, adiantados e felizes, e que, no entanto, arrastam uma vida penosa e difícil: por quê? Quase sete décadas mais tarde, em 1970, Eduardo Galeano, no seu "Veias abertas da América Latina", ainda nadando nas mesmas correntezas de dúvidas, reclama: somos um pedaço de chão feito rico pela natureza, mas tornado miserável pela história.

O flerte da visão do mundo como fábula talvez encante olhares acostumados a corais entoando "dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial...". Contudo, esse é o mundo como nos fazem vê-lo: concepção linear da história, em que há estágios de maturação sempre rumo ao progresso e, por que não, conforme pontuou o filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez, a conclusão de que o colonialismo não significou primariamente destruição e espoliação e sim, antes de mais nada, o começo do tortuoso, mas inevitável caminho em direção ao desenvolvimento e à modernidade.

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O mundo colonizado de terras quentes sempre existiu por oposição e por fora. E, nesse sentido, a problematização do conceito de América Latina leva em consideração a tentativa de interpretação do que se constituem, efetivamente, os povos da nossa área. O que os une? Do que se integra a fonte de experiência e de consciência das sociedades latinoamericanas?

Por outro lado, é possível identificar nosso canto do mundo muito além de um espaço geográfico determinado, e sim pela semelhança de constrangimentos e expropriações marcados pelo processo colonial [chegaremos aí na parte 2, em breve]. Colonização definida por grandes interesses econômicos e pela expansão imperialista, aniquiladora dos desenvolvimentos culturais autóctones e perpetradora do que outros autores, como Aníbal Quijano, vão chamar de colonização do ser, do saber e do poder: controle e submissão de todas as formas de subjetividade, da cultura, do conhecimento do outro.

Veja-se que o surgimento do termo Latin America se dá no contexto da coroação de Napoleão III, na França. Jornalista de sobrenome Caicedo desenvolvia, à época, muitos textos em referência à América Latina, lugar de sua origem. Isto ocorre também num momento em que a ideia de panlatinismo (união dos países de origem latina) ganha muita força na Europa, encabeçada por intelectuais franceses e pelo próprio Napoleão III.

O contexto apontado ainda é contemporâneo à guerra dos Estados Unidos com o México, em que 55% do território mexicano são perdidos. Algum tempo antes, em 1823, o 5º Presidente dos EUA proclama aquilo que ficou conhecido como “Doutrina Monroe”: aversão e combate à intervenção europeia no continente americano.

MAPA DE MEXICO EN 1830 Y EN 2014.jpg antes e depois da Guerra com os EUA

Ou seja, unindo os pontos, o conceito de América Latina, no francês, servia de combustível ao panlatinismo, pois a “união” dos povos latinos seguiria a liderança da França. No espanhol, por outro prisma, servia de oposição ao avanço intervencionista dos Estados Unidos, na medida em que a “proteção” do restante do continente indicava para o mundo que as demais sociedades latinoamericanas seriam um pretorado dos EUA.

Num passo seguinte, no século XIX, nosso continente vai ser reconfigurado pela explosão dos processos de independência e pelas tentativas de pensamento e criação da Nuestra América. Se, em alguma medida, é muito difícil não nos tornarmos exatamente aquilo que os outros pensam que somos, as visões por oposição assimétrica da América Latina ainda nos relegam a insistente imitação da cultura eurocêntrica e/ou desvalorização dos registros/marcas/culturas da nossa região. Algo do tipo: “Muda Brasil, muda para Beverly Hills!”.

Seja no francês ou no espanhol, a construção de uma ideia de América Latina parte da “sobra” do sistema-mundo, da dependência, da vulnerabilidade, da selvageria dos povos, da inferiorização (basta ver os grandes debates travados no Congresso americano contra a anexação dos territórios mexicanos, baseados enormemente em questões raciais).

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A problematização segue atual. Afinal, hoje temos consciência que a colonização se deu fortemente no imaginário e a construção da(s) identidade(s) latinoamericanas dialoga com embates permanentes, de alta intensidade e de longo prazo, sem qualquer messianismo/ingenuidade nessa afirmação.

Por isso o discurso se dá desde a marginalização e a barbárie [conforme proposta e teorização do grande filósofo latino americano Leopoldo Zea]; ele se faz na referência ao discurso desde outras expressões do homem que, por distintas, não são menos humanas. São as nossas!

Da barbárie, sempre necessário reafirmar que havia de tudo entre os indígenas da América: astrônomos e canibais, engenheiros e selvagens da idade da Pedra. Quanto aos espanhóis? Ah, eles tinham a pólvora.

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césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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