esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

E quem disse que a Dilma foi torturada?

Vivemos tempos de ausência de clareza acerca do país que queremos ser. Nesse cenário, questionamentos como o do título navegam imponentes na tentativa de mascarar as feridas ainda não cicatrizadas. Dedico essas mal traçadas linhas a todas as vítimas da perseguição anticomunista, às famílias destroçadas, aos sonhos destruídos, aos corpos marcados.


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Brasília-DF, 17/4/2016, Plenário da Câmara dos Deputados: “Como vota o Deputado Jair Bolsonaro, PSC-RJ?”. No microfone: “...Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff...”. Sim, foi um dia difícil! Eventual posicionamento sobre o processo de impeachment da Presidenta afastada Dilma Rousseff exigiria maior espaço e profundidade. O objetivo do presente texto, noutro sentido, concentra-se em resgatar dados e rostos da ditadura militar brasileira de 1964-1985.

1. Os golpes de Estado na América Latina

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“Algumas características da tortura. No início não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era o choque. Começava assim: ‘em 1968, o que você estava fazendo?’ e acabava no Angelo Pezzuti e na fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau-de-arara, o que a gente não aguenta por muito tempo. Então, se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina.” Depoimento de Dilma Rousseff, no dia 25/10/2001, à Comissão de Indenização de Presos Políticos do Rio Grande do Sul.

A perseguição aos comunistas, aos socialistas e aos anarquistas remonta à publicação do Manifesto do Partido Comunista, em 1848, e à Primeira Internacional, em 1864. Já no início do século XX, as Revoluções Mexicana e Russa redesenharam as estruturas de poder e o imaginário coletivo, impulsionando o ataque aos anacronismos do capitalismo e, no fundo, à imensa concentração de renda, à injustiça social na distribuição da terra e à dependência do capital estrangeiro.

Nesse cenário, não foi muito difícil propagar os sussurros e os gritos de que os vermelhinhos eram os inimigos a ser combatidos.

Segundo a precisa lição do sociólogo chileno Marcos Roitman, no livro Tiempos de oscuridad, 2013, Ed. Akal (ainda sem tradução no Brasil), os golpes de Estado das décadas de 60-70, na América Latina, foram seguidos de itinerários sufocados por tensões: primeiro a guerra psicológica – com campanhas de medo em referência ao comunismo, depois a desestabilização econômica – com a criação de um mercado alternativo e ilegal - o que gerou a evasão de capitais, revolta da população, saques, greves generalizadas... um estado permanente de caos. Tudo isso para culminar com a desordem social e a ingovernabilidade, acabando por um chamado às forças armadas para salvar a pátria.

Não foi à toa que, em meados da década de 70 , ao menos 2/3 dos países da América Latina estavam vivendo regimes militares. Nessa toada, acabamos nos tornando o resultado dos dilaceramentos oriundos dos crimes humanitários praticados como política de Estado nesse canto do mundo. Roitman faz os cálculos dos mortos e desaparecidos como causa direta da repressão:

a) Argentina: 46.000 pessoas, entre 1974-1983; b) Cuba: 20.000 pessoas, entre 1952-1958 (Ditadura de Fulgêncio Baptista); c) Colômbia: 300.000 pessoas de 1946 até os dias de hoje; d) Chile: 3.065 pessoas, entre 1973-1989; e) Guatemala: 200.000 pessoas, entre 1960-1994; e f) Haití: 45.000, entre 1958-1985.

Países como Brasil, México, Bolívia, Venezuela e outros ocultam seus dados. Entretanto, o mesmo autor pondera que podemos estar falando de aproximadamente dois milhões de mortos na América Latina, nos diferentes momentos de ditaduras entre 1945-1990. Sim, dois milhões de mortos!!!

2. O caso brasileiro e a Comissão Nacional da Verdade

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“Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Um frio do cão. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogêneo, pois estavam treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas e fomos para o hospital”.Depoimento de Dilma Rousseff, no dia 25/10/2001, à Comissão de Indenização de Presos Políticos do Rio Grande do Sul.

A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12.528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012, mais de 27 anos após o fim do período de repressão militar. A CNV teve por finalidade apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

Depois de dois anos e sete meses de atividades, o relatório final da Comissão reuniu 4.328 páginas em três volumes e foi entregue no dia 10/12/2014 à Presidenta da República. Suas descobertas, dados e recomendações? Bem, como quase sempre nesse país, tudo correu a passos largos de distância da grande massa da população brasileira. O trabalho, embora de extrema importância, tornou-se um grande livro de consulta, quando, na verdade, congrega uma fatia colossal do nosso “ontem”, das marcas do hoje e dos vários obstáculos que ainda teremos para o futuro. Ainda há muito trabalho pela frente!

3. Dilma Rousseff

“Quando eu tinha hemorragia, na primeira vez foi na OBAN, pegaram um cara que disseram ser do Corpo de Bombeiros. Foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não me bater naquele dia. Em MG, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois paravam.” Depoimento de Dilma Rousseff, no dia 25/10/2001, à Comissão de Indenização de Presos Políticos do Rio Grande do Sul.

Calcula-se que de 50 a 80% das pessoas levadas para interrogatórios na Argentina, durante a ditadura militar de 1968-1973 e do Governo autoritário de Jorge Rafael Videla, tenham sido mortas. O caso argentino foi um dos mais sangrentos da história recente. Talvez por isso a memória coletiva ainda seja tão marcada por tamanho trauma, sendo difícil encontrar pessoas que não tenham familiares e/ou amigos íntimos assassinados nos períodos elencados.

No Brasil, estima-se que entre 10 a 20% das pessoas levadas para depor nas diversas centrais e departamentos de tortura, tenham sido “desaparecidas”. Provavelmente por isso ainda tenhamos dificuldade de absorver a existência de uma profunda violação de direitos humanos durante mais de vinte anos no Brasil, confundindo não raras vezes a reação do oprimido com a violência do opressor. Se Dilma foi efetivamente torturada? Não consigo nem imaginar que tal pergunta seja uma brincadeira, mas pura e profunda estupidez.

A jovem Dilma foi presa em 16 de janeiro de 1970, aos 22 anos de idade, torturada, humilhada e completamente desumanizada durante o tempo que ficou confinada ao poder dos militares. Segundo ela mesma relatou:

“Fiquei presa três anos. O stress é feroz, inimaginável. Descobri pela primeira vez que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente o resto da vida”.

A História até pode ser o registro feito pelos vencedores. Entretanto, não se demora muito para nos depararmos com a realidade dolosamente escondida, mascarada. Todo o trabalho produzido pelas Comissões da Verdade na América Latina e mesmo toda a produção intelectual atual, revirando documentos dos períodos em referência, ainda têm muito a nos ensinar. Quem quiser ficar com a versão tradicional, meus pêsames. Quem optar por tornar tudo possível de novo, estude, pesquise. Vale a pena lamber tais feridas novamente!

4. Reflexão (pen)última

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“As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”. Depoimento de Dilma Rousseff, no dia 25/10/2001, à Comissão de Indenização de Presos Políticos do Rio Grande do Sul.

O tema é profundo e ainda obscuro no imaginário e na história do nosso país. Por outro lado, não percamos de vista a contínua necessidade de debatermos o tipo de sociedade que queremos e podemos ser.

Parece-me que a fala de Zygmunt Bauman (Vida em fragmentos, Zahar, 2011, p. 47) ainda seja válida: “Não foi a ausência de progresso, mas, pelo contrário, o desenvolvimento – técnico-científico, artístico, econômico, político – que tornou possíveis as guerras totais, os totalitarismos, o crescente abismo entre a riqueza do norte e a pobreza do sul, o desemprego e os novos pobres”.

Ditadura nunca mais!


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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