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para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Entre muros, grades e alarmes: memórias da escola

Do jardim de infância ao ensino médio, desfilamos por entre abismos, montanhas e algumas cachoeiras na travessia pela educação formal. Seja como for, aos trancos e barrancos, a experiência de vários anos na escola acaba se entrelaçando nos nossos corpos/almas/mentes para sempre.


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1. Infância

Não vou me recordar do primeiro dia de aula, mas posso imaginar os muros altos, o portão pesado, o ferrolho batendo e nos dividindo dos nossos pais – agora colocados na fronteira do espaço escolar. Devo ter sido colocado em fila junto com os coleguinhas para cantar alguma música, possivelmente religiosa, ou quem sabe o hino nacional e, depois, devo ter passado boa parte do turno sentado na cadeirinha para, como ainda acham, começar a aprender.

Eis o primeiro grande palco de transformação em que a escola atua: o corpo. O aprender antes traduzido nas mais gostosas travessuras, em enfiar os pés na terra, em desafiar a gravidade escalando os móveis da casa, em buscar os mais longínquos espaços da residência em que se pudesse enfiar o dedo ou a língua, agora se dá de maneira totalmente inesperada: sentado. Que castração!

Vagamente, lembro-me das brincadeiras e dos pequenos espaços emborrachados ou no chão de cimento mesmo, durante os tempos de jardim. Por outro lado, devo ter passado um sem fim de horas desenhando animais, pessoas, colorindo o céu... quando havia toda a natureza logo ao lado para que eu pudesse me deleitar, senti-la com todo o meu corpo, entrar em catarse.

Tabuadas, letras bem redondas – "para ficar mais bonito" - nos cadernos de caligrafia fizeram parte do caldeirão de agitações dessa minha época. Foi lá também que aprendi a responder à chamada, a pedir licença, a não falar alto e toda sorte de regras de conduta para, ora pois, ser um bom soldado cabeça de papel e não acabar preso no quartel.

Minha infância na escola deve ter sido, primordialmente, o tempo de colocar as coisas nos seus devidos lugares.

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2. Adolescência

Dos tempos de início da puberdade, já pelos idos da segunda metade do ensino fundamental, a memória já se contorce de tão viva que reage com as experiências sentidas. Ali cobraram a “boa educação” aprendida nos anos iniciais, a carteirinha entregue na entrada e recebida posteriormente - e somente ao final do dia - com o carimbo de “presente”.

Reforcei o respeito ao professor, respeito traduzido em não contrariá-lo. Flertei com as ideias dos livros. Sim, nossos gloriosos e profundos livros didáticos.

Neles aprendi sobre o “descobrimento” do Brasil, sobre a “vocação agrária” da América Latina, sobre os revolucionários americanos do Norte, sobre o nosso atraso enquanto nação. A respeito do "exotismo" do Oriente, do terrorismo que vem do Oriente Médio; sobre a nossa progressiva caminhada rumo ao desenvolvimento, afinal, "o progresso é empírico", ora bolas. Ah, a História, sempre escrita pelos vencedores... sempre linda, branca, masculina, cristã, heterossexual... quanto padrão de normatividade em nossas cabeças formadas nessas terras quentes.

Aprendi que minha escola, a escola pública, era [e ainda é] um abismo sem fim, e que nós íamos cada vez mais nos tornando esse mesmo abismo, nesse flerte diário e fatal.

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3. Início da juventude

Já no ensino médio, de saída da adolescência e de todos os desencontros mentais próprios da idade, acabei naturalizando a minha posição na linha de montagem industrial do sistema escolar.

As aulas de 50 minutos, marcadas por um sinal doentio entre uma matéria e outra, os uniformes, as chamadas [muitas vezes apenas pelo número correspondente a cada aluno], as avaliações condescendentes apenas com o prodígio da memória [como o Professor de Geografia que, numa prova oral, perguntou-me o que era um silte e, também, onde ficava o lugar mais alto do Distrito Federal].

Sim, trabalho seriado, conhecimento fragmentado, aulas chamadas de disciplinas, alarmes entre uma aula e outra, listagem de conteúdos com o nome de grade, grade curricular, avaliações chamadas de provas.

No auge do escândalo do mensalão [entre 2005 e 2006] a rotina escolar parecia a mesma. Fechados por muros, parecíamos não dialogar com a cidade, seus mistérios, seus dilemas. Não aprendíamos como nossa cidade se articulava por baixo, começando pelos serviços que colocavam em ordem nosso local, do trabalho policial ao serviço de limpeza urbana. Nosso mundo era a escola [e toda carga de problemas e frustrações que ali despejávamos], na adoração ao conhecimento abstrato.

Repensando a alegoria da caverna de Platão, consigo dizer que entramos e saímos modificados, sem dúvida, amplamente modificados, mas ainda olhando para as sombras espalhadas na parede.

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4. O que agradeço, porém

Por e apesar de todas essas amarras, não deixo de lado os bons professores que tive, as pessoas das mais variadas origens, perspectivas, credos e realidades que tive a oportunidade de conhecer [considerando ter estudado em escolas públicas].

Aprendi o quão duro todos os nossos pais davam para manter o mínimo de conforto que nós imaginávamos possível [e isso já era muito, considerando a realidade de outras pessoas], as passagens de ônibus, o dinheiro para as apostilas, para a camiseta da turma.

Aprendi sobre as pequenas violências simbólicas e reais que cada um de nós vivíamos, da reprodução das condições sociais desiguais vigentes enraizada no sistema às surras desmedidas encaradas por alguns amigxs; ao irmão/pai preso e as constantes faltas às quintas-feiras de alguns, decorrentes das visitas ao ente querido no complexo penitenciário.

Aprendi que, espalhados naquele depósito de pessoas, naquele abismo epistêmico, seja na comparação com o sistema escolar das escolas particulares, seja na projeção do que o ensino público poderia verdadeiramente ser, cada um de nós avançaria na corrida da vida em compassos e velocidades diferentes.

Por e apesar de tudo, tenho que dizer que é também de lá meu gosto pela leitura [absorvido com alguns poucos mestres que cruzaram minha vida, notadamente minha mãe], o flerte com a poesia, a objetividade com os números.

A questão é que fui tratado, no geral, muito mais como aluno, na profana estatística da secretaria de educação, do que propriamente como um ser humano em formação. Na escola, tudo parecia em construção, enquanto já era ruína.

Para terminar, alguns poderiam perguntar se me incomodo quando gritam: “menos Paulo Freire!”. Irremediavelmente respondo que sim. Pois antes o mestre estivesse arraigado no repertório educacional do dia a dia dos brasileiros.

Possivelmente outro seria o título desse texto, outras seriam as memórias, outros seríamos nós. Isto porque Freire, de maneira simples e revolucionária, dizia que “para libertar o país é preciso antes libertar a consciência do povo”.

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césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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