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para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Meu vaqueiro, Meu peão. Quatro considerações sobre a vaquejada

A pressão civilizatória antecipa a revisão dos valores contidos nos conteúdos sociais. Já tardiamente, após a decisão do Supremo Tribunal Federal, nada mais do vaqueiro [e dos ávidos espectadores] valerá o boi. Afinal, no que pode consistir o suposto gozo em ver um animal de meia tonelada caindo ao chão, segurado pelo rabo?


* A presente reflexão contou com a colaboração e as ponderações de Aline Sette.

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1. Tradições não nascem em árvores

No início dos anos 90, na cidade de Morsang-sur-Orge, França, tradicionalmente ocorria o show conhecido como lancer de nain (arremesso de anão). O espetáculo acontecia em diversos estabelecimentos de Paris. Funcionava da seguinte forma: um anão – também possível de ser visto como um ser humano dotado de limitação na estatura – era transformado em projétil, sendo arremessado de um lado para o outro, para a alegria dos espectadores. Eram usados aparatos de segurança e os “pequenos” protagonistas não se machucavam em razão do número cênico.

O caso acabou sendo levado às autoridades da cidade, tendo o Prefeito interditado a atividade dita cultural, assentado na primazia da proteção da dignidade da pessoa humana.

Voltemos ao Brasil. Em 2013, no Estado do Ceará, foi sancionada e publicada a Lei n. 15.299, a qual regulamentava a “vaquejada” como atividade desportiva e cultural. A legislação até congregava ares de “preocupação” com a saúde e proteção dos animais envolvidos, como por exemplo:

(...) Art. 4º. Fica obrigado aos organizadores da vaquejada adotar medidas de proteção à saúde e à integridade física do público, dos vaqueiros e dos animais. § 1º. O transporte, o trato, o manejo e a montaria do animal utilizado na vaquejada devem ser feitos de forma adequada para não prejudicar a saúde do mesmo; (...) § 3º. O vaqueiro que, por motivo injustificado, se exceder no trato com o animal, ferindo-o ou maltratando-o de forma intencional, deverá ser excluído da prova.

Entretanto, no julgamento recente de Ação Direta de Inconstitucionalidade [algo como um chamamento processual à suprema corte para dizer se uma determinada lei está conforme os valores e princípios consagrados na Constituição Federal] – o Supremo Tribunal Federal, por maioria, entendeu inconstitucional a norma, etiquetando a vaquejada como violadora da ordem jurídica.

Conforme bem pontuou o Ministro-Relator do caso, Marco Aurélio, os precedentes do STF há muito vêm se pautando na necessidade de proteção do meio ambiente como valor indisputável, dotado de alta carga humanística e universal (vide os casos relativos a “brigas de galo”, “farra do boi” etc.). Em suma, asseverou o Magistrado que os dados empíricos evidenciados pelas pesquisas relacionadas na decisão explicitam ser indiscutível o tratamento cruel dispensado às espécies animais envolvidas: “o ato repentino e violento de tracionar o boi pelo rabo, assim como a verdadeira tortura prévia – inclusive por meio de estocadas de choques elétricos – à qual é submetido o animal, para que saia do estado de mansidão e dispare em fuga a fim de viabilizar a perseguição, consubstanciam atuação a implicar descompasso com o que preconizado no artigo 225, § 1º, inciso VII, da Carta da República”.

Pois bem. Num e noutro caso, com suas diferenças discursivas envolvidas, estamos diante de concretas realidades criadas pelas forças humanas, para satisfação de um determinado prazer íntimo socialmente construído.

Simples assim: seja a vaquejada, a tourada, o rodeio etc., nenhum(a) é criação pura da natureza, algo que brota das mais frondosas árvores; são, isto sim, fruto do (des)compasso civilizatório. E, desta maneira, absolutamente mutáveis. Avancemos na ilustração.

2. A vaquejada é mais uma atitude que coisifica a natureza

Segundo Sílvio Valença, presidente da Associação de Criadores de Quarto de Milha, em reportagem publicada no site UOL, as vaquejadas ocorridas no Município de Cachoeirinha, em Pernambuco, movimentariam cerca de 80% da atividade econômica da cidade. Em maior escala, tomando o Nordeste como base, as vaquejadas seriam responsáveis por mais de 700 mil empregos, diretos e indiretos. Nesse sentido, o argumento econômico ganharia força na defesa da “tradição”.

Entretanto, a ponderação da veterinária Ana Paula Monteiro, professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), na mesma entrevista, faz sentido: “até que ponto a questão econômica realmente gira em torno da vaquejada em si?”. O que se diz nas entrelinhas é que seria possível que as pessoas frequentadoras de vaquejadas e/ou rodeios – cada um com suas especificidades em relação à submissão dos animais – teriam muito mais interesse na festa em si, no encontro social e nos shows, do que propriamente na espetacularização do sofrimento dos bichos. Não duvido. Aliás, refaço a pergunta: no que pode consistir o suposto gozo em ver um animal de meia tonelada caindo ao chão, segurado pelo rabo?

“Ah, mas há uma moderna conscientização dos organizadores desses eventos; o que existe é uma vaquejada humanizada”, dizem alguns. Bem, o próprio Conselho Federal de Medicina Veterinária manifestou seu posicionamento contrário às práticas realizadas para entretenimento que resultem em sofrimento dos animais. De acordo com a Comissão de Ética, Bioética e Bem-estar Animal (Cebea/CFMV), “o termo sofrimento se refere a questões físicas tais como ferimentos, contusões ou fraturas, e a questões psicológicas, como imposição de situações que gerem medo, angústia ou pavor, entre outros sentimentos negativos”.

Não é necessário rivalizar com a natureza, permanentemente criando laços de submissão e controle. A ideia de integração reflete muito mais as possibilidades e os desafios do agora. Não paremos por aqui, em frente!

3. Bifinho suculento no prato x vaquejada

No box de atordoamento, o animal recebe um tiro com pistola de pressão – ou um dardo que perfura o cérebro – e desmaia. A partir daí, para que não corra o risco de acordar, o boi deve ser morto em no máximo três minutos. Uma portinhola se abre e o animal cai desacordado numa espécie de esteira, sendo içado pelas patas para ficar com o pescoço para baixo. Primeiro, recebe um corte na pele do pescoço. Depois, o matador estica o braço e atinge a jugular: o boi está oficialmente morto.

Por três minutos, seus 20 litros de sangue escorrem numa canaleta para ser posteriormente transformados na farinha de sangue que compõe rações para cães, gatos e peixes (sim, seus animais fofinhos se alimentam disso). E então começa o desmonte do boi. Os chifres são serrados, as patas e o rabo são cortados, o couro é retirado e o abdômen é aberto para que as vísceras sejam separadas. Por fim, a carcaça é colocada numa câmara de resfriamento para tirar a acidez da carne – o estresse pré-morte libera ácido láctico que endurece a carne.

O autor da descrição acima questiona, ao final: “não sei na visão de vocês, mas na minha isso causa muito mais sofrimento ao animal do que ter seu rabo puxado”.

Se pararmos pra pensar, de fato usamos os animais para os mais variados fins, da alimentação ao vestuário, passando pelo entretenimento – claro, não podemos nos esquecer do grande exemplo dos visitados zoológicos de Buenos Aires com seus tigres e leões dopados a tirar fotos durante horas do dia.

Resumo alguns dados, para a leitora, no campo da alimentação:

70 bilhões de animais terrestres são mortos anualmente para consumo humano;181 animais são mortos pela pecuária brasileira em apenas um segundo, 24 horas por dia;Discute-se que de 14,5 a 51% das emissões mundiais de gases do efeito estufa sejam causados pela pecuária;91% da destruição da Floresta Amazônica em decorrência da pecuária extensiva;1 hambúrguer gasta 3 mil litros de água para ser produzido, o equivalente a 2 meses de banho;70% das doenças modernas são de origem animal e grande parte delas ligadas à pecuária.

Contudo, a vaquejada e toda a discussão gerada são uma gota no oceano da construção da narrativa acerca da submissão dos animais. Podemos dizer, ao menos, que são etapas de conscientização experimentadas diuturnamente e vagarosamente. A questão envolvendo a vaquejada ainda cumpre sua missão de fomentar as conversas. A seguir, um último ponto.

4. O show não pode parar

Na Espanha a tourada é muito mais tradicional do que a vaquejada o é aqui no Brasil e já há muitos lugares em que ela está sendo abolida.

A proibição da vaquejada não impede que possa haver adaptação e, mesmo, permanente aproveitamento das festividades e encontros sociais, mas sem a espetacularização do sofrimento alheio, seja de uma animal, seja de um ser humano.

Os exemplos existem. A cidade espanhola de Mataelpino substituiu touros por bolas gigantes em corrida tradicional. As possibilidades estão abertas.

A despeito da suposta hipocrisia de muitos dos defensores da proibição da vaquejada em não se questionarem acerca dos seus próprios [dos nossos] hábitos que também trazem sofrimento absolutamente desnecessário a estes seres por quem deveríamos zelar e não subjugar, certo é que nada impede a inicial problematização desse dito “esporte”, o qual evidencia um mero prazer momentâneo, discutível e alcançável de diversas outras maneiras. Como apontou Edmund Burke: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco”.

Esse pode ser o início da reflexão que pode e deve se estender. A estrada é longa, "na pista da paixão", mas sem o boi.


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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