esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

O mundo é injusto, e daí?

Desacordos sobre as consequências de “quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto”.


1. Rotineira cena

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Leandro Gomes de Barros, poeta paraibano do final do século XIX, compreendeu a questão com mais profundidade, ao se questionar de por que existem o mal e o sofrimento humano: “que dívida é essa que temos que morrer para pagar?”. Eu, cá do meu canto, sem rogar pragas aos céus – mesmo porque há muito tempo sinto estarmos sozinhos no Jardim do Éden, desperto cada dia mais espantado, diminuído na minha pretensa humanidade. Não reconheço as coisas e, como na Macondo de Gabriel Garcia Marquez, tenho que apontar o dedo para mencioná-las. Texto triste? Não, apenas um esforço para lamber as feridas novamente.

Acordo cedo para os meus compromissos com o mundo e logo sou contaminado com a necessidade de me religar ao mundo virtual. Notebook aberto. Navegação iniciada. Notícias do meu país. Mais operações da Polícia Federal e da Justiça Federal de Curitiba para “desmantelar” a corrupção. Alguma manchete sobre delações envolvendo o “príncipe dos Sociólogos”, Fernando Henrique Cardoso. Mais ações do (des)governo atual para supostamente reerguer as contas nacionais. Mais algum homossexual sendo agredido nas redes sociais e nas vielas da urbe. Adolescentes bêbados colidindo um veículo numa motorista que só queria chegar em casa. Outras pequenas chacinas diárias cometidas pelas forças do Estado em alguma comunidade na periferia, obviamente contra a população negra. Mais alguém sem atendimento médico nos hospitais. Uma mulher estuprada, espancada, morta pelo namorado, pelo marido. Rotineira cena. Os rostos mudam. A intercalação de desgraças é a mesma. Sim, rotineira cena.

Nas ruas, carros protegidos. Alarmes, trancas especiais. Olhares atentos entre os transeuntes. Na cidade, a possibilidade de ser vítima mora na esquina, num beco, numa parada de ônibus, dentro de casa. O que dizer da mulher encoxada dentro do coletivo, aquela cujo cabelo longo atrai pequenos puxões; aquela cuja silhueta supostamente fomenta energias animalescas naqueles “naturalmente” másculos.

Nos comentários dos passantes, alguma mulher foi assaltada na entrada do condomínio. Possivelmente um negro a teria abordado e levado o celular. Rotineira cena. Nos queridos comentários das redes sociais sobre assuntos diversos: “mereceu, quem mandou se oferecer?”, “tchau, querida”, “quem sabe um dia todo brasileiro não poderá usar polo Ralph Lauren”.

Disseram: “Quem não tem dinheiro, não tem que fazer universidade”. Haha. Falta de dinheiro, nada de universidade? Não mesmo. Muito antes a desesperança já reina. Falta de dinheiro? Fome da cabeça, fome da barriga, fome de futuro. No documentário/filme “O começo da vida”, o mediador pergunta a uma criança pobre de alguma periferia do mundo – dessas que moram logo ali próxima de nós: “qual o seu sonho?”. Resposta: “eu não tenho sonho”. Sem mistério, rotineira cena.

Aliás, sobre a pobreza. Dados do Pnud, programa da ONU, divulgado em 2014: mais de dois bilhões de pessoas se encontram em situação de pobreza. Crianças, a grande parte. Dias e noites avançam com exércitos de esfomeados. Dias e noites se revezam com bilhões de pessoas deitando suas cabeças na poeira do chão do mundo sem ter comido absolutamente nada.

Imigrantes cruzam o mar mediterrâneo. Em 2015, foram 700 mil esperançosos rostos em busca de uma fatia do bolo do crescimento econômico do dito primeiro mundo. Fagulhas de humanidade em busca de mais uma vírgula para continuar suas histórias, para (sobre)viver. A diáspora segue o fluxo. Novas vítimas. 50% sequer alcançou o êxito nos três primeiros meses de 2016. Corpos espalhados na solidão das fronteiras arbitrariamente construídas.

Sim, o mundo é um lugar difícil de compreender. Não tenho forças pra fazer uma lista. É o crime da humanidade na rotineira cena.

2. Eu finjo

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Nessa placenta do globo azul, eu finjo ser poesia. Finjo poder alcançar algo com minhas palavras. Finjo ser importante. Finjo ser parte. Eu? Um branco, hétero, relativamente estudado, da vida urbana, com acesso à internet, com carro, escrevendo do 21º andar de algum arranha-céu. Sou eu. Não multiplico o pão na santa ceia, não reivindico a representação de ninguém em especial. Sou eu. Suor meu. Potência pra caminhar. Batalha pra chegar até aqui. Berço de ouro? Já ouvi falar. Aqui tem superação. Tem crime. Crime do “raciocínio lógico pro bem”.

A poetisa Luz Ribeiro questiona: “Já pararam pra ouvir alguma vez o sonho dos meninos?”, “seus sonhos cabem em centímetros, um pirulito, um picolé, uma mãe, um pai”.

Também sonho com centímetros de esperança. Sobra medo, frustração. Sobram muros, sobram limites.

3. Como será o futuro?

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Lembro-me da profecia de Paul Valéry: “a desumanidade terá um grande futuro”. Sou repetitivo. A rotineira cena implica mais do mesmo. Imagens repetidas. Novos becos. Novos cárceres. Novas injustiças. O chão é o mesmo.

Assim, relembro a conclamação de Cristovam Buarque – antes de o Professor aliar-se ao abismo da política nacional: “pense você, leitor, do seu lugar de visualização do problema, e reflita como será seu (o nosso) país quando for governado por crianças que jamais colocaram os pés nas ruas de suas cidades; que veem o mundo pelas grades de seus jardins ou pelos vidros escuros de seus carros, e só conseguem vê-lo de dentro dos shoppings ou das escolas por causa do tamanho dos muros que os rodeiam. Pense também como será o seu país de vier a ser governado pelos que cresceram do outro lado do muro, carregando desejos não realizados, mágoas aumentadas”.

Vejo indiferença. Vejo corpos se deleitando em shoppings centers - simulacros da vida social. Vejo novos crimes. Corpos embutidos em roupas e estilos que não cabem em bolsos do salário mínimo. Contundência, é preciso. Theodor Adorno (em Educação e Emancipacão) tem sua razão ao asseverar que “se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em relação ao que acontece com todas as outras, excetuando o punhado com que mantêm vínculos estreitos e possivelmente por intermédio de alguns interesses concretos, então Auschwitz não teria sido possível, as pessoas não o teriam aceito”.

4. “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”

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Sentencio que o mundo é um não-lugar, aproveitando a teorização de Marc Augè. Nós, usuários logados, coabitamos provisoriamente individualidades, passageiros, passantes.

Não à toa o suicídio volta a ser tema de debates, conferências, supostas políticas públicas. O mal-estar da sobrevivência faz estourar o ser. O abismo mora logo ali. Jacques Attali utiliza-se da metáfora do barco que nem Deus afundaria: "o Titanic somos todos nós, a nossa sociedade triunfalista, cega, autocongratulante, hipócrita, impiedosa com os pobres – uma sociedade em que tudo é previsto, exceto os meios de prever. Todos nós supomos que há um iceberg à nossa espera, escondido em algum lugar no futuro nebuloso, contra o qual nos chocaremos para em seguida afundarmos ao som de música”.

O dia se encerra. Não ouço música. Ouço ruídos. Ouço vozes na minha mente. Ouço dúvidas. Minha inação arde.

Nos barulhos noturnos: gemidos, alguns gritos, alguns choros, músicas, cachorros latindo. Não há como medir a intranquilidade e nem discernir o que está acontecendo à volta. Mas ela cabe em horas pré-sono, em inúmeros momentos de esvaziamento do sono.

Já no travesseiro, questiono-me: será a construção de uma nova realidade? Serão indícios de uma nova existência? Respostas? Não as tenho. Levanto a cabeça e fico calculando os centímetros que separam a mariposa da lâmpada do poste. Seu destino é chocar-se e fenecer à luminosidade artificial. Bela metáfora para a existência humana? Eu já disse, respostas não as tenho. Mas sinto que o rapper GOG tem razão: “É o crime, saber que não é filme esse mundão”.

Contudo, seja qual for a requintada resposta, imponho-me um valor, um desafio. Se escolho a inação enquanto proposta de vida, frente à inexorabilidade do mundo, exijo-me resposta para ao menos duas perguntas – recordando aqui o filósofo Vladimir Safatle: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. O mundo é injusto. Mas e daí? Temos que ir! Temos que ir!

Pois que seja a felicidade uma mentira. A Legião Urbana nos disse que "a mentira é a salvação". Quem sabe um dia eu não possa conversar com Deus. Eu também iria lhe perguntar por que sofremos tanto quando viemos para cá.


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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