esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Pai de menina: o que desejo para minha filha

Vivemos num mundo imperfeito, um mundo que sempre abrigará o imperfeito e que, portanto, sempre abrigará injustiça. Por outro lado, se numa ponta há sempre iniquidade, eu, com esse pequeno ser nos braços, resisto na outra, em que muitos e muitas, ombro a ombro, tentam pintar outras paisagens. Prefiro sentir que a vida é como um porto aonde a gente nunca termina de chegar e acompanhar minha pequena nessa travessia.


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Desejo que ela possa sentir a natureza não por meio de desenhos no quadro, imagens no projetor ou do lado de dentro dos altos muros dos condomínios modernos. Quero que ela pise no chão, descalça, que corra com os bichos, veja as esquinas, que carregue seus anseios para a próxima rua, a próxima quadra, o próximo pé de manga.

Anseio que ela tenha prazer em pensar, em refletir; que leia Rubem Alves, Jorge Amado, Pablo Neruda, Guimarães Rosa, Adélia Prado, Leopoldo Zea, Nietzsche... aprenda que a América Latina, nosso canto do mundo, não tem “vocação agrária” e que o nosso suposto “atraso” não vem do fato de termos sido “colônia de exploração”. A colonização, para além do material, vive também no nosso (in)consciente, no nosso flerte avassalador com a ótica do mundo-fábula: padrão “dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial...”.

Desejo que ela possa conhecer e por em xeque o legado dos séculos passados, não para naturalizar o modo de produção capitalista e/ou para flertar com a tática da história linear [sempre rumo ao progresso, ao desenvolvimento], mas para reconhecer o seu anacronismo e sua fúria. Que ela vislumbre os povos-testemunha (maias, incas e astecas), que reconheça nossa latinidade, nosso modo de falar, de pensar, que sofra com os nossos desafios e que tenha bravura para superá-los.

Almejo que ela se reconheça como mulher não apenas por oposição, como se houvesse um papel destinado aos homens e outro às mulheres, cabendo a estas posições rebaixadas nas estruturas sociais. Amaria se na vida que se avizinha jovens não fossem mais mortas pelos seus namorados/companheiros, que o patriarcado fosse fulminado pela radicalização dos discursos e práticas de igualdade da mulher no seio do trabalho, da família; que pular o carnaval não pudesse significar “vulnerabilidade” perante a testosterona máscula. Gostaria que, enfim, ser mulher não fosse perigoso!

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Como a paisagem próxima ainda é borrada, desejo à minha pequena flor que ela possa vencer os obstáculos, não sem luta, não sem fúria, e possa ser o que ela ambiciona. E que sendo o que ela deseja, ao lado de quem ela ama, tudo pareça tão pleno que ela não se sinta diferente ou pressionada pelos olhares dos outros.

Desejo que “ordem e disciplina” seja um mantra para colocar as ideias no lugar e ter objetividade para alcançar os seus sonhos. Que uniformes, chamadas, regras de urbanidade, possam ser compreendidos como leves empecilhos na dinâmica de sua formação. O importante é ter repertório para criticar, dissentir, discordar, acrescentar.

Anseio que ela passe longe das idealizações religiosas de separação/supervalorização da mente sobre o corpo, numa espera eterna por um paraíso indizível. Que os mistérios da vida possam ser sentidos, que as sensações possam ser potencializadas; que o mundo seja visto, interpretado e engolido com todas las colores.

Que não tenha desespero por CASAMENTO, DINHEIRO, CONSUMO, ACEITAÇÃO SOCIAL. Que ao compreender seu projeto/papel no mundo sinta um poder e uma força inenarráveis e que, num passe de mágica, tudo se torne possível de novo.

Que com a quietude do mundo diante da opressão, ela inquiete-se, revolte-se; que, parafraseando Drummond, suas palavras possam ir buscando canal, roucas e duras e possam explodir.

Que possa viajar pelo mundo e que, deparando-se com sua vastidão de possibilidades, tenha conversa, assunto e descobertas para todos os dias de sua vida. Que possa perder o sono diante da pluralidade do ser humano, das suas mais diversas formas de compreensão da religião, da política, do amor, da vida e da morte.

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Desejo também que ela tenha um emprego, um lugar para morar, mas que acima de tudo possa estar feliz consigo, seja qual for o trabalho, seja qual fora a casa. Anseio que eles sejam o resultado de suas aspirações mais próximas.

Que tenha amigos e amigas de verdade, que sorria com eles(as), que chore com eles(as). Que tenha namorados(as) e, se assim desejar, que não tenha um marido/esposa, mas um(a) companheiro(a) de diálogo de aventuras... que ela possa ser arrebatada por um grande amor ao menos uma vez durante seu percurso.

Ainda que sejam poucos, quero que existam momentos em que, como diz o poeta William Blake, ela possa “ver um mundo em um grão de areia/ e um céu numa flor silvestre/ segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora”. É preciso também levar beleza no olhar.

Hoje seu mundo é de beijos, abraços e olhares afetuosos... é dessa forma que anunciamos a vida e o mar de foguinhos que a esperam. Logo, logo poderei falar sobre o mundo olhando dentro dos seus olhos e esperando alguma compreensão mais exata.

Recontarei a ela uma curta história narrada pelo grande escritor uruguaio Eduardo Galeano: “um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir alto no céu e na volta contou, disse que tinha contemplado, lá de cima, a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos, e fuegos de todas as colores. Existe gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento, e existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.Que ela seja esse fuego loco!

Por fim, se mesmo com fúria, ardor, bravura, encantamento, vontade plena, lágrimas e sorrisos ainda sim somente restar o desespero, desejo que ela possa levantar a cabeça e dizer para si mesma: “Se essa é a ordem, meu nome é tumulto”. Por hoje, é só o que desejo!

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césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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