esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Querido amanhã

Sim, dezembro chegou e já vai sem tardar. O mês das finalizações, das limpezas e das preparações para a novidade que se avizinha. Suposta data para reconciliações, reencontros, afetividades suaves, religiosidades empoeiradas e ânimos calmos; o simbólico mês da passagem para um suposto ano novo. Algumas notas sobre essa sedução em relação ao amanhã.


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O modo de contar o passar do tempo não é universal. Diferentes povos e religiões ajustam seus compassos a partir de diferentes calendários. No calendário gregoriano, estamos no ano de 2016. No calendário chinês, com seus ciclos de 12 anos, estamos em 4713. No calendário judaico, em 5776. No islâmico, em 1437.

Seja como for, partindo de qualquer mecanismo: solar, lunar e/ou histórico, o dia seguinte é esse tempo que chega/passa, limita, potencializa e/ou contamina nossos sonhos, ideias, planejamentos, forças pra fazer o novo, olhares para vislumbrar o amanhã mais sereno.

Mário Quintana trouxe poesia sobre esse olhar: “a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado...”.

Em nome do amanhã, deitamos nossas intranquilidades à espera do novo sol-guia para nossas tempestades. Alguns até vão além, trabalham com o depois-de-amanhã, afinal: “não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã”. Risos...

Em nome da ideia, a gente promete parar de fumar, dormindo com um cigarro picado na orelha. A gente promete esquecer daquela(e), deixando a(o) amada(o) como fotografia na tela de proteção do celular. A gente promete não fazer dívida, gastando o último crédito do cartão na fila da Riachuelo. A gente promete usar camisinha, quando até sem cueca se anda, deixando o banco do passageiro do carro levemente deitado.

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Planos e desejos honestos também: que todas as feridas possam ser curadas; as obras mal construídas, abandonadas; os prazeres, intensamente vividos; os saberes, plenamente absorvidos; as lágrimas, inteiramente escorridas.

E assim o tempo passa, trazendo o dia seguinte, que pode acabar sendo o hoje contaminado pelos devaneios reincidentes do amanhã. Dito isso, tenho que concordar com a afirmação supostamente atribuída a Charles Chaplin: "o importante é não fazer do amanhã o sinônimo de nunca".

Guimarães Rosa até nos deu a pista/fôlego: “a vida é assim: esquenta, esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da gente é coragem”. Coragem para enfrentar os quilômetros adiante e convencer os guardiões da entrada; bravura pra ir lapidando essa tal liberdade do amanhã, essa amplitude do “passarinho voando com gaiola e tudo”.

Afinal, resgatando Svetlana Alexievich, em discurso por ocasião do prêmio Nobel de literatura de 2015: “a liberdade não é um feriado, como antes imaginávamos. Ela é uma estrada. Uma longa estrada”.

Sigo refletindo daqui, soando pretensamente falso com a ideia final desse post, já que cito um texto bíblico, do famoso e pouco seguido Sermão da Montanha: “não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6-34).

Intensidade para o hoje e para os amanhãs vindouros. Um brinde!

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césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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