esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

“Vai me enterrar na areia? Não, não, vou atolar”. Celebração do meu enterro

Se a morte é o oposto que dá sentido à vida, nada melhor que trazer a reflexão sobre ela para próximo de nós. Trago notas para o meu ritual funerário.


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No dia em que eu morrer, morrer mesmo, sem essa de “ir para outro lugar”, morrer pura e simplesmente, gostaria que fossem observadas algumas indicações.

1. Não quero padres, pastores ou gente seja qual for a religião falando das missas que não fui, dos pecados que cometi. Igrejas são do tempo em que eu não respirava ar puro. Não quero gente enchendo os presentes daquele falatório esperançoso de que, agora, estarei “junto dos eleitos”.

2. Por outro lado, quero muita gente, os que me amam, principalmente. Que cada um tenha 1 minuto pra contar alguma galhofa, alguma sacanagem, alguma risada compartilhada comigo. Que falem dos meus medos, das minhas grosserias, das minhas chatices, das minhas perversidades... não tem problema, tudo parecerá engraçado. Que venham os meus possíveis amores e falem das brochadas (poucas, eu espero) e das noites e encontros selvagens (ou não), dos amassos, dos olhares carinhosos. Que relembrem as conversas, as piadas que contei.

3. Que haja os que não gostam de mim também. Não para jogar praga ou mijar na minha cova, mas para que testemunhem a minha falência e vejam que eventual grosseria ou arrogância contra eles não me deu vida eterna ou um outro lugar que não aquele habitado pelos vermes da terra.

4. Que haja uma projeção com fotos de diferentes períodos da minha vida, da minha infância à velhice. Fotos bonitas, fotos ridículas, fotos mal tiradas. Que as pessoas presentes estejam nelas. Que haja recordação; velório é lugar de saudade.

5. E que haja música, apenas um leve balanço ao fundo. Que toquem minha música preferida. Até lá a terei escolhido.

6. Mas que haja choro também, mas sem desespero. Que ninguém passe mal, mas que se derramem muitas lágrimas, muitas mesmo. A morte é um abismo, um buraco inescondível, por e apesar de qualquer planejamento em sentido contrário.

7. No cortejo até o túmulo, gostaria que cantassem, bem alto. E que dissessem palavras soltas também: CANALHA! PORRA! FULERAGEM! IRMÃO!... Penso que estarei sorrindo. E que todos saiam dali com a minha lembrança viva e bela, sabendo que não mais estarei ali.

Afinal, a vida de fato não é esse céu azul todo aí fora.

Amém!


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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