esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Carta aberta à escola da nossa filha

É chegada a hora do nosso pequeno tesouro conhecer o mundo escolar, com seus muros, grades, uniformes, mas, esperamos nós, que também com uma boa dose de novas brincadeiras, aprendizados, valores e muitos coleguinhas. Divulgamos nossa sincera carta de expectativas.


* A presente reflexão contou com a colaboração e com as ponderações de Débora Castro - a mamãe.

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Caríssimxs professorxs,

Este janeiro de 2017 marca o início da biografia escolar da nossa filha. O barco segue, com contas para pagar e toda uma vida pra construir, com sonhos, desesperos e encantos. Escolhemos com carinho essa escolinha, esse novo mundo, para abrigar nossa pequena.

Acima de exigir segurança, carinho e conforto, preocupamo-nos com os valores que serão transmitidos; com as simbologias de cada ato, cada palavra, cada olhar, cada música, cada historinha.

Temos receio de que apanhe de outrx amiguinhx, de que chore e ninguém escute, de que se machuque, de que não se adapte e, assim, sofra demasiadamente. Quem tem filho pequeno, seja pai ou mãe, sabe o que é ter o coração batendo fora do peito o tempo todo. Criamos essa menina transmitindo os mais plenos valores de respeito, solidariedade e carinho. Assim, nossa preocupação maior é com a garotinha que passaremos a pegar ao final do dia na escola, após um turno grande de novos cenários criados por vocês e pelo contato com a história de cada uma das outras crianças.

Assim como a família, a escola possui o poder de atribuir papeis e funções aos seus componentes, fazendo-o de modo invasivo, legitimado pela tradição e pelos costumes. Com isso, esse lugar nada inofensivo acaba plasmando subjetividades diferentes entre homens e mulheres.

Tem um papai que ora fala aqui nesse texto: sendo eu homem, falo da enraizada sociedade falocêntrica que aí se sustenta, desse mundo que eleva o masculino ao centro do pensar e do agir, com todas as suas consequências para ambos os sexos. "Ele" é o grande personagem da história, o escritor, o eterno protagonista.

Tem uma mamãe que também fala por meio dessa carta: sendo eu mulher, sem qualquer abstração, senti e continuo sentindo as reincidentes tentativas de domesticação do nosso corpo, de inferiorização do nosso pensamento, do medo como instrumento pedagógico: “menina não pode isso, não pode aquilo!”. Mesmo que um centímetro por década, podemos ir quebrando o círculo vicioso de negação de direitos às mulheres, de rejeição ao feminino em condições igualitárias, de violências reais e epistêmicas. Esse tempo é o agora!

A gente pode se chamar de pós-moderno, pós-colonial, decolonial, neoliberal, direita, esquerda; pode gritar Fora Temer! ou Lulalá-brilha-uma-estrela, mas se não mudamos os comportamentos, se não quebramos as amarras de dominação social, seja em relação ao preconceito racial, de classe, sexual e/ou de gênero - estruturantes dos nossos tempos - tudo não vai passar de mera propaganda.

Sendo assim, amigxs professorxs, sabedores de que contaremos com vossas mentes e corações nessa empreitada, compartilhamos valores e expectativas para essa etapa que se inicia:

1. Não privem e/ou domestiquem o corpo da nossa filha. Conosco ela aprende tentando, caindo, correndo. Ela desenha o que já viu, pegou, sujou. Pinta a grama, tendo antes, durante e depois, esfregado os pés no verdinho, muitas vezes até deitando e roçando a cara no chão. Ela vê passarinhos, au-aus, miaus. Pega neles. Esse aprender livre agora vai se dar dentro das limitações da escola. Esperamos, apenas, que o ambiente escolar comporte muitas novas asas para a imaginação; potencialize o olhar da nossa filha.

2. Deixem-na também brincar de avião, de carrinho, de monstro, de skate, de pular, de escalar. Não tem essa de brincadeira de menina separado da zorra de menino. Nas nossas casas, a mirivilhosa brinca do que der na telha, voa alto. Não digam: “isso não é comportamento de uma menina!”, “que coisa feia para uma menina!”, “que princesinha mais feia!”. Manuela não será “bela, recatada e do lar” por imposição de ninguém.

3. Não digam a ela que o coleguinha puxa seu cabelo e/ou a empurra porque gosta dela, mesmo porque se isso se tornar rotina teremos problemas maiores. Violência não é amor disfarçado, seja de quem vier. Violência é violência e não iremos tolerar isso.

4. Não estimulem nossa filha a ter “namoradinhos” na escola. Não criem brincadeirinhas de: “abraça fulano e dá um beijinho no ciclano”; “nossa, tá traindo beltrano”. Não façam isso com esse ser humano. Ela está se desenvolvendo e logo se encontrará dentro de algum gênero, de algum desejo, de algum modo especial de ser feliz com o(a) outro(a). Ela não tem que brincar de ser gente grande.

5. Não contem histórias de princesas que ficam trancadas em castelos à espera do macho-herói. Sabemos o quanto os homens são elevados à categoria de exploradores do universo, enquanto as mulheres são sistematicamente relegadas a funções menos colossais. Fortaleçam, isto sim, nosso ensinamento de que ela resolva seus problemas por meio do diálogo, não fuja de situações conflituosas, tenha bravura e não se cale diante da injustiça, seja ela de qual tamanho for.

6. Falem da menina que ganhou o Nobel da Paz por confrontar os interesses dominantes e buscar educação para os seus pares. Falem das cinco escritoras mulheres ganhadoras do Nobel de Literatura nas últimas quinze edições do prêmio. Falem das mulheres que são Presidentas da República, Chefas de Estado, Monarcas, pilotas de carro, surfistas, cantoras. Falem das mulheres simples também que ralam todos os dias pra conseguir terminar a faculdade, conseguir um emprego e mudar suas vidas. Falem de outras tantas que carregam seus rebentos sozinhas nesse mundo que criminaliza a mulher que reclama o seu ventre, mas nada diz sobre os milhões de abortos masculinos de todos os dias [dos pais que foram à padaria "comprar cigarro" e nunca mais voltaram].

Ajudem-nos a falar de um novo tempo, por que nós já estamos fazendo nossa parte! Essas palavras não são de repreensão e/ou de crítica. Nosso relacionamento com vocês começa agora; confiamos nessa travessia que se inicia, apenas estamos trocando aflições/valores/anseios de quem busca ver a vida de uma nova forma todos os dias. Essa carta vem no sentido apenas de tornar tudo possível de novo.

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“- Vai filha, levanta e corre, vai ser criança! O Papai ou a Mamãe volta mais tarde com o coração pulsando de saudade para receber um pouco das suas alegrias e dos seus aprendizados do hoje!”.

Assinado: papai e mamãe da Manú


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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