esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

memento mori

Como a morte de alguém amado é doída! De maneira veloz, o “nunca”, essa palavrinha usada para atestar nossos planos falidos, como em: “nunca mais vou fazer isso ou aquilo", perfaz-se da maneira mais radical possível: o “nunca" mais eu vou ver aquela pessoa.


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“Lembre-se de que és mortal” diz o título desse texto. Mas e quando o saber que somos mortais não é mais dúvida? O problema, então, acaba sendo o desacordo de quando a correspondência da finitude chega por sedex.

A gente pode gritar, derramar todas as lágrimas existentes, fechar os olhos e apertá-los bem forte pra tentar acordar do pesadelo que não existiu; a gente pode esperar que tenha sido um erro, uma piada de muito mau gosto, mas a conta real do dolorido encerramento da vida chega à mesa... e da forma mais embrutecida possível. Aquela pessoa de outrora, falando alto, andando, acolhendo, lançando seus olhares, militando, iluminando, está bem à sua frente, sem uma mínima centelha de vida. É foda!

Tem o que todo mundo diz: um filme passando, uma dor que consome o corpo, uma raiva inesgotável, um baita sentimento de injustiça (e terá muito mais ainda). E há também o que só quem passa sabe, pois a gente sente falta de si mesmo.

Nem de longe posso ser considerado religioso, mas se num acaso misterioso e absurdo desses da vida eu pudesse encontrar “O Deus”, certamente eu lhe faria as mesmas perguntas elaboradas por Leandro Gomes de Barros, poeta paraibano do final do século XIX:

Se eu pudesse conversar com Deus

Eu iria lhe perguntar:

Por que é que sofremos tanto quando viemos para cá?

Que dívida é essa que temos que morrer para pagar?

Perguntaria também de que é feito

Já que não come, não dorme

E ainda assim vive satisfeito.

Por que é que ele não fez a gente do mesmo jeito?

Por que uns são tão felizes enquanto outros sofrem tanto?

Já que nascemos do mesmo jeito

E vivemos no mesmo canto.

Quem foi temperar o choro

E acabou salgando o pranto?

A gente pensa na vida, tenta se compreender melhor, desacelera, mas nada resolve, apenas isso que chamam de “o passar do tempo” talvez acalme. 1 ano, 2, 3, 10? Vai saber.

Sobra o sentimento de dívida, por tudo o que se deixou de fazer e/ou dizer; sobra a total incapacidade de inventar uma saída pra dor; sobra o beco escuro e sem saída da ausência.

Para aquela pessoa que se foi, nada mais falta; o sofrimento e a dor acabaram. Isso conforta. Agora pra quem fica...

Cada um se apega num credo, numa fé, numa forma de religiosidade que aqueça o coração, que forneça explicações, que abrace e dê abrigo. Isso pode ser bom. Mas basta?

Quando o caixão desce, vai-se um tantão de esperança dos nossos corações. Nos primeiros dias seguintes, sobra o fluxo da vida, veloz como sempre, com a gente parado ali no meio, fragmentado, sozinho.

Essas palavras são escritas nos momentos iniciais da perda. Os sentimentos estão atrapalhados. Mas é como se o mundo tentasse fugir de dentro de nós.

Dante e Virgílio, na Divina Comédia de Alighieri, ao chegarem à entrada do inferno, deparam-se com uma grande inscrição em tom escuro sobre o alto de uma porta, finalizada com: “DEIXAI TODA ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS” (Canto III, 9).

Voltemos ao título, então: “lembre-se de que és mortal”! Eu diria: “lembre-se de que há sofrimento!”.

Finalizo com a pista poética dada por Eduardo Galeano:

O medo ameaça:

Se você ama, terá aids.

Se você fuma, terá câncer.

Se respira, terá contaminação.

Se bebe, terá acidentes.

Se come, terá colesterol.

Se fala, terá desemprego.

Se caminha, terá violência.

Se pensa, terá angústia.

Se duvida, terá loucura.

Se sente, terá solidão.

Saudade!


césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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