esquina

para tornar tudo possível de novo

césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável

Monogamia, por que não te quero?

Não, esse não é um texto de um carinha desapegado.com; ou de algum ser humano pós-moderno demais para uma/um só; ou de algum traído destilando rancor ou buscando vendeta. Caminhando em corda bamba, trago apenas a disposição sincera para falar de outro amor, de outra liberdade, de outras formas de prazer possíveis.


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1. Corpos são formações culturais

Não faço coro com reacionários de toda roupagem que esperneiam a necessidade de retorno a um tempo idílico em que as coisas e as pessoas pareciam estar todas em seus devidos lugares. “Por que no meu tempo...”. Esse tempo ordeiro não existiu, pois a ordem das coisas sempre foi a ordem das relações sociais marcadas pelo machismo, pela moralidade religiosa cristã, pela patrulha ideológica institucional, pelas desfuncionalidades no interior das relações afetivas e pela desigualdade social total.

Esse texto tem suas contingências, suas impressões parciais, mas ao menos tem consciência disso. Como diz Guacira Louro em importante texto sobre sexualidade e poder, Corpos que escapam (2003): “a verdade é plural; ela é definida pelo local, pelo particular, pelo limitado, temporário, provisório”.

O corpo é a primeira instância interpretativa do nosso paranauê. Numa verborragia concebível para esse curto espaço de caracteres, frise-se que o masculino é culturamente construído sem limites [com suas pressões sobre “ser homem” também]: menino brinca com o “pintinho” desde cedo; se tem irmã(s) e os quartos não são suficientes para cada uma das individualidades, sempre fica com o melhor quarto ou com um cômodo só pra ele; menino assiste filme pornô na casa do bróder [com todas as implicações psicológicas da exposição antecipada]; menino mede o pinto, brinca de quem goza mais longe, analisa a textura de sua produção; menino se toca desde cedo, aprende o prazer em tenra idade; menino anda sozinho na rua tarde da noite sem a preocupação que [ainda] permeia o mundo feminino; menino sonha em ser astronauta, jogador de futebol, artilheiro; menino aprende que tem que ser “macho”, que precisa ter postura, voz, capacidade de raciocínio; menino aprende que é o dono do mundo.

Sim, chegamos a um lugar-comum do discurso, mas é preciso repetir que a sociedade em que vivemos é falocêntrica; eleva o masculino ao papel de centralidade do ser, sentir e fazer.

É nessa moldagem que os nossos corpos vão se formando, tomando postura, ação. Guacira afirma que “os corpos são o que são na cultura”. Com precisão, Louro pretendeu transmitir que, se o corpo fala, ele “o faz através de uma série de códigos, de adornos, de cheiros, de comportamentos e de gestos que só podem ser “lidos”, ou seja, significados no contexto de uma dada cultura”.

Os significados dos corpos “deslizam e escapam”; são múltiplos e mutantes. Até mesmo o gênero e a sexualidade “são atributos que se inscrevem e se expressam nos corpos através das artimanhas e dos artifícios da cultura” (Louro, 2003).

Distintas instâncias culturais falam dos corpos e criam novos e velhos padrões morais para a sexualidade, com reflexos nas formas de relacionamento experimentadas. Estado, igreja, ciência concorrem hoje com a mídia, o cinema e a televisão, com grupos organizados de feministas e de “minorias sexuais” que pretendem decidir, também, sobre o exercício do prazer, as possibilidades de experimentar os gêneros, de transformar e viver os corpos (Louro, 2003).

Muita informação? Bem, apenas quero dizer, somando minha voz a de centenas de outros e outras, que os padrões morais impostos ao nosso corpo e as formas de expressão da nossa sexualidade têm lugar e formação nas disputas sociais e na formação cultural de nosso tempo. Tais disposições não nascem em árvores, são semeadas e cultivadas diuturnamente por braços humanos.

Muito relativismo? Há um tempo atrás, tive a oportunidade de visitar o sítio arqueológico de Palenque, nas montanhas do Estado de Chiapas, no México. Num determinado momento do tour, deparei-me com os “banheiros” maias. Atento à explicação do guia, aprendi a posição que os antigos deixavam suas lembranças, cagavam, para os mais íntimos. Era uma posição de cócoras, joelhos na altura do queixo. Isso possibilitava o completo esvaziamento e limpeza do organismo. Resumindo: se até a posição de cagar revela as complexidades no interior da cultura, talvez valha a pena relativizar velhas e encardidas concepções sociais sobre relacionamentos e sobre nossos corpos.

2. Qual o ponto?

Tive namoros tradicionais. Eles podem ser bons também. A tentativa de construção de um laço afetivo mais íntimo, os telefonemas diários, as cartinhas, os almoços em família, as possíveis conversas infindáveis e os sorrisos largos. Não me deixo esquecer, porém: namoros não tradicionais podem contemplar esses prazeres também, sem contraindicações.

Namoros tradicionais, entretanto, são combos recheados de cláusulas de adesão, regras indiscutíveis, modelos requentados, verdades e certezas imaculadas. Namoros tradicionais são como uma casa mal decorada recebida em doação, com o ônus de não se fazer reformas, mas com a pressão para deixar em pé as estruturas. São, em verdade, frentes de trabalho.

Tem quem goste de casa mal decorada e nem ache tão ruim não ser instigado a refletir sobre o que se apresenta. Não vou me aprofundar nos exemplos para não correr o risco de ser reducionista, partindo apenas da nebulosidade do meu lugar de fala, mas sempre alguém solta aquela: “Vai casar por quê? Então, oito anos de namoro, tava na hora”.

O assunto dá pano pra manga. Fico nas preliminares, porém, muito antes do casamento. Meu ponto é o seguinte: como viver um relacionamento sem aprisionar o corpo e a mente? É possível viver uma vida de prazer e leveza a dois?

A resposta talvez repouse na forma como a escolha supõe ter sido feita. Monogamia, por que te quero? Quero? Você quer?

Você, mulher ou homem, já parou pra pensar o quanto de suas brigas e desentendimentos com o seu ou a sua parceira atravessou a questão da monogamia ou, ao menos, essa utopia da exclusividade?

Em primeiro lugar, e já tardiamente, esclareço que a monogamia de que falo é aquela regra que existe como imposição, dotada da esperança da inviolabilidade e que qualquer conversa a seu respeito é capaz de enfurecer os deuses (ou as deusas).

Falo da monogamia enquanto fato social (o velho Durkheim precisou ser invocado nesse ponto, mas sem pedâncias). Isto é, uma dada realidade preexistente dotada de força conformadora, com atuação sobre os indivíduos, independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente e com bastante regularidade na sociedade.

Conheço gente que, aparentemente (a gente nunca sabe como é na vera), vive uma relação monogâmica. Na verdade, nem gostaria de nominá-los assim, com essa carga de culpa/virtude cristã. Apenas acho que ambos se curtem, por ora, sem outras interferências e participações. Vivem aquilo de maneira leve e sincera. Não são um só corpo, são dois indivíduos, com suas histórias e necessidades, mas feitos de afeto e intimidade nesse momento da vida.

Conheço também um bocado de outras gentes que batem cotovelo nesse temor delinquente de nunca permitir que as porteiras do coração do outro estejam abertas.

Esse texto é escrito em azul, por limitação própria mesmo, assim, não vai tratar das centenas de milhares de casos de violência doméstica e familiar contra a mulher que ocorrem no país, não na tentativa de apenas forçar certa dose de monogamia, mas de domesticar os corpos, os desejos, os sentimentos do outro. Essa é a parte triste e real de muitos relacionamentos a dois que tornam prisão a dois.

Por ora, falo em nome de certo grau de civilidade na análise, discussão, escolha e decisão por uma forma de relacionamento, nunca num purismo utópico, como se nossas camadas grossas de inconsciente não estivessem, desde cedo, impulsionado-nos num determinado sentido.

Sentimos prazeres e sabores diferentes com cada pessoa que passa/fica em nossas vidas. Temos necessidades e vontades diferentes, mesmo estando com aquela pessoa escolhida. Ser/estar com outra pessoa não tira nenhuma singularidade nos afetos experimentados.

3. Considerações finais

Não saio por aí gritando aos quatro ventos a necessidade de rompimento de todas as barreiras da emoção/relação e a plantação de cafezais de relacionamentos abertos, ficantes, amantes casuais e “PAs”.

Apenas faço certo esforço, do meu lugar de fala, com todas as contingências reinantes, para levantar bandeira contra as reincidentes canalizações de todas as emoções na figura de um/uma só (imaginemos as frustrações e desesperos quando não dá certo?).

Falo contra a naturalização da ideia de monogamia e, mesmo, de casamento, como se fosse uma cogência da vida em sociedade. Abro um grande parênteses para dizer que tal como a faca de cozinha, que corta excelentemente um pão francês, mas é imprestável para serrar um ferro, o casamento, na mesma toada, consegue ser motivo de alegria apenas para algumas pouquíssimas pessoas, enquanto para outras não vai se prestar a nada de bom.

Falo também contra o bloqueio do prazer, principalmente do feminino, como se cada mulher não fosse dotada da normal vontade de suar, em diferentes e múltiplas dimensões. Afinal, homem sempre se resolveu sexualmente, por e apesar de qualquer “regra” em contrário.

Conversar sobre monogamia não significa trazer a “fuleragem” para dentro de casa. Pode, isto sim, abrir as janelas para arejar a vivência e, quem sabe, tornar tudo possível de novo.

Que não nos vendamos a regras impostas sugadoras de energia. Cada um/uma pode, caso a caso, refazer os caminhos do prazer e dotar o seu relacionamento de fluidez.

Com monogamia ou sem monogamia vai continuar dando trabalho. Sem monogamia, porém, o relacionamento vai deixando de ser vivido como uma frente de trabalho, que requer contínuos investimentos, renovadas doses de orações e “força”... quem fica, fica por que quer!

No final das contas, considero (de con + sidus, procurar junto às estrelas) renovadora a possibilidade de tentar transformar erros em ouro.

“Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós!”.

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césar gandhi

Brasiliense por resistência. Pai de uma menina-flor. Mestrando em Ciências Sociais no ICS/CEPPAC/UnB. Considera o mundo um lugar rochoso, mas não se cansa de ir derramando água quente por onde passa, na tentativa de torná-lo mais maleável.
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