Wander B.

Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto

A sociedade do espetáculo e o império de Tânatos

Atentados terroristas e realities shows. O que eles podem ter em comum? Um breve passeio pelos pensamentos de Freud e Guy Debord pode nos ajudar nessa equação.


É por apresentar-se como algo que se fundamenta numa incessante negação da realidade pela aparência, ou seja, numa negação da própria vida em si, que a sociedade do espetáculo exposta pelo clássico trabalho de Guy Debord pode ser metaforizada como sendo o grande império de Tânatos – o mito grego símbolo da morte que aparece em Freud como representante da pulsão de morte, isto é, daquilo que para o pai da psicanálise se mostrou como uma tendência humana à agressividade e à destruição.

Elaborado – não por acaso – num cenário de pós-guerra, pulsão de morte é um conceito que surgiu tardiamente na psicanálise, mais precisamente em 1920, e se tornou polêmico por ir de encontro ao que fora, desde muito cedo, uma premissa básica dentro da ciência de Freud: a ideia de que o homem é guiado sobretudo pelo princípio do prazer, ou seja, faz tudo o que faz por ter em sua natureza algo que o impulsiona ao deleite e busca evitar a dor. Naquele momento maduro de sua vida e obra, e diante do contexto histórico supracitado, Freud constatou que há em nós, para além dessa dinâmica – que podemos classificar como preservativa –, algo que nos impele ao fim.

por Max Halberstadt.jpg Sigmund Freud (foto:Max Halberstadt)

Guerras e pensamento. Do mesmo modo que o ideário de Freud fora influenciado pelos acontecidos da primeira guerra mundial, não temos como pensar na obra de Debord sem levar em consideração a segunda grande guerra e os caminhos tomados pelo mundo após ela. Leitor de Marx, o escritor francês descreve em A sociedade do espetáculo (1967) um percurso de alienação que diz muito sobre a nossa realidade pós-moderna do século XXI e seus incontáveis gadgets.

Situationist International.jpg Guy Debord (Foto:Situationist International)

Imerso em um sistema que se retroalimenta e por isso se faz uma criatura independente, o homem pós-moderno tenta a qualquer custo negar sua anomia e extrema passividade fingindo ser atuante – muitas vezes de forma gratuitamente violenta – em todas as esferas. Essa atitude, porém, se dá quase sempre com extrema fugacidade, seja por via das inúmeras plataformas virtuais – onde o agente se sente protegido pela distância do interlocutor ou mesmo pelo anonimato de perfis fakes – ou por meio de manifestações públicas físicas que se pulverizam por sua própria essência fragmentária.

Atendendo aos padrões dessa sociedade, o entretenimento de massa é caracterizado por um constante deslocamento quando eventos cotidianos intimamente relacionados ao prazer passam a dialogar de forma mais incisiva e direta com o que há de mais agressivo em nós. Famigerados em todo mundo, os realities shows nos servem como exemplo disso ao transformarem atividades como cantar ou cozinhar em batalhas nas quais a eliminação do outro é a chave para o gozo de seus participantes e espectadores.

Ringue the voice Foto The Voice BrasilBARRAGshow.jpg O cenário do programa musical "The Voice" se torna um ringue que nos remete aos octógonos de MMA em determinada etapa do concurso (Foto: The Voice/Gshow)

Em tempos onde o que é show se funde onticamente ao que é guerra, o que é de fato guerra não pode acontecer de forma menos espetaculosa: os atentados terroristas – como a sexta-feira-treze sangrenta de Paris, em novembro de 2015 – são cada vez mais elaborados cenicamente e parecem obedecer aos padrões de um briefing publicitário ou aos roteiros dos filmes de ação hollywoodianos. Em ambos os casos, é nítida a existência de um público alvo muito bem definido e estudado sistematicamente que, de forma inconsciente, vai validar essas ações – tornando-as bem sucedidas no seu intuito de agressão exibicionista – através de seu comportamento, sobretudo em redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram.

12208813_10102475457180761_7081554074581754773_n (1).jpg Mark Zuckerberg cria aplicativo para que todos os usuários do Facebook possam prestar solidariedade aos franceses (Foto: Facebook)

Quando lemos Freud ou Debord, pensadores que marcaram o século XX, é inevitável pensarmos nas mudanças radicais pelas quais o mundo passou de lá para cá. Também na velocidade com que estas mudanças se deram em todas as esferas. Tais textos não devem, então, ser vistos – por meio de uma idolatria cega, por exemplo – como atemporais em sua totalidade: um olhar historicista diante das obras do passado é indiscutivelmente fundamental. Todavia, se por meio de uma metáfora pudéssemos nos transportar para uma partida de sinuca, não seria muita ousadia dizer que poucos cantaram, como eles, as bolas que estão caindo na caçapa do século XXI.

Por Wander B. Revisão: Mateus Grava


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Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto.
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