Wander B.

Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto

Por que não devemos preparar nossos alunos para o mercado de trabalho?

O sujeito preparado para o mercado de trabalho não é um sujeito, é um objeto. Uma peça criada sob medida, em função de um mecanismo que seguirá mantendo a distância entre o trabalhador e o produto de seu esforço.


chaplin 2.jpg Charles Chaplin no filme "Tempos Modernos"

Quando o assunto é educação, sobretudo no que diz respeito às universidades e aos cursos tecnológicos, o discurso é basicamente o mesmo. O político na televisão, falando sobre educação pública, e o comercial da instituição privada concordam em um ponto: há que se preparar o aluno para o mercado de trabalho.

O argumento é convincente, obedece à cartilha do pragmatismo inerente à sociedade da era tecnicista e ganha mais peso quando chega aos ouvidos de uma massa exposta a uma taxa alta de desemprego e a salários muito aquém do que garantiria um mínimo de conforto.

As pessoas querem melhores condições de vida. Veem nessa proposta apresentada uma chance de ascensão, a grande oportunidade, aquela em que se deve agarrar para entrar no clã dos homens bem sucedidos – aquele mesmo clã propagado religiosamente pelos livros de autoajuda. Por trás de toda ideologia instalada pelo sistema há, no entanto, um desejo de manter o status quo, ou seja, deixar tudo como já está. É importante sabermos disso.

O sujeito preparado para o mercado de trabalho não é um sujeito, é um objeto. Uma peça criada sob medida, em função de um mecanismo que seguirá mantendo a distância entre o trabalhador e o produto de seu esforço – trata-se ainda do mesmo processo que gerou o conceito de alienação em Marx.

E por mais que algumas empresas hypes se mostrem interessadas numa dinâmica interna mais participativa, o respeito legítimo à autonomia de seus funcionários não acontece e nem pode acontecer, porque não há bases sólidas para isso: o próprio profissional não tem qualidade para tanto, pois foi formatado pelo sistema educacional, não está apto para agir de forma crítica, não sabe como contribuir de forma ampla com o todo por ter aprendido a olhar exclusivamente para determinada parte.

Que dia importante para a sociedade será aquele em que nas campanhas sobre educação possamos ler, em letras garrafais e num discurso legítimo, que os alunos não serão preparados para o mercado de trabalho, mas, sim, para mudá-lo radicalmente a fim de tornar este mais justo e menos vertical.

Por Wander B. Revisão: Mateus Grava


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Wander B. é artista da palavra, da música e do gesto.
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